terça-feira, setembro 21, 2010

segunda-feira, setembro 20, 2010

Crime

É criminoso viver no mundo, respirar e não ler isto todos os dias.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Betos

Há uns meses, entrevistei o Rostam Batmanglij e, além de me ter esquecido de lhe perguntar, como provavelmente lhe perguntaram mil vezes, se não era estranho ter como apelido "BATMANglij" e pertencer a uma banda chamada "Vampire Weekend", deu-me para falar sobre o mundo dos betos. "Cresci à volta dele, até certo ponto, mas nunca senti que fosse o meu mundo", disse-me ele, e eu apressei-me a dizer que também tinha sido assim comigo. Antes disso, contou-me que o seu interesse nesse mundo era puramente estético. Tal como o meu. Porque, apesar de eu vestir praticamente só camisas e polos, usar sapatos de vela e nunca andar desfraldado – "qualidades" que se podem aplicar apenas a betos vintage, e que pouca ou nenhuma importância têm hoje em dia –, orgulho-me de pouco ou nada ter a ver com betos a sério. Isto porque a generalidade dos betos inclui algumas das PIORES PESSOAS QUE JÁ EXISTIRAM NO MUNDO. Gente racista, misógina, ignorante, estúpida, sexista, homofóbica, altamente idiota, sem horizontes para expandir, com mentalidades fechadas e retrógadas e atitudes altamente detestáveis. Acabo de perceber que podia dizer isto tudo do Archie Bunker, mas o Archie Bunker tinha um coração e não fazia por mal. Os betos fazem por mal. Pode ser como tudo na vida, todos os grupos têm pessoas boas, pessoas más, pessoas assim-assim e o caraças. Não quero dizer que o campino do símbolo da Ralph Lauren torna as pessoas piores, mas hoje, depois de, na semana passada, ter lidado com betos poucos sérios que têm um ar bastante vintage e são uns idiotas de merda, apetece-me odiar betos, tendo em conta que as piores pessoas com que já me cruzei na vida eram betos. Ainda vou, contudo, gostar do Whit Stillman e divertir-me.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Comic Sans



O Casamento a Três é um filme que existe e, além de ser terrível, usa Comic Sans MS nos créditos e no genérico. Isto não é uma piada. O filme saiu mesmo para as salas. Assusta-me um bocadinho de nada ninguém ter reparado que havia Comic Sans envolvido.

domingo, setembro 05, 2010

Comercialidade

Ontem à noite, num casamento, pediram-me para passar algo mais comercial. O que é que estava a tocar nessa altura? Michael Jackson. E não era uma faixa obscura do meio de um álbum. Era a porra do "Thriller". Não sei se quero viver num mundo em que há algo mais comercial que o Michael Jackson. Não era essa a magia da coisa? Um artista em que todos podíamos concordar, que todos podíamos adorar, canções universais, que são boas e das quais toda a gente gosta, que partem qualquer pista de dança ao meio, que levam qualquer pessoa, normal ou snobe, à loucura? Pelos vistos não, e isso deprime-me.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Caro Verão



O Wayne Coyne deu-me um abraço. Pouco tempo depois, o Esau Mwamwaya deu-me um abraço. Eu, que não sou abraçável por aí além (não é bem falta de auto-estima, é só que raramente há gente a abraçar-me pouco tempo depois de me conhecer), não pedi nada. Eles é que me quiseram abraçar, de livre vontade. Antes disso tudo, os Very Best tinham tocado para praticamente ninguém, como a Rye Rye ainda antes e os Flaming Lips depois. É quase criminoso desperdiçar cartazes destes em festivais que não são feitos para ver música e onde se pode andar durante três ou quatro dias sem ouvir absolutamente nada. Mas, obviamente, os Flaming Lips foram mágicos. O Wayne Coyne, apesar de ser perigosamente parecido com um hippie, não merece um tiro na cabeça. Não sabe não entreter e desligar. O Wayne Coyne é entretenimento, além de fazer música incrível. Lembra-me um pouco o Nile Rodgers (sem a importância histórica): podia ficar a vê-los a existir, meramente, durante horas e horas a fio, ou para sempre (um bocado como o Christopher Guest e a banda britânica). E nunca me aborreceria. Enfim, o Wayne Coyne merece um abraço (mesmo que seja ele próprio a dá-lo). Dormi num carro num parque de estacionamento e no dia a seguir num hotel de cinco estrelas. No T-Club do Algarve vi a maior concentração de jogadores de polo ao peito de sempre (não consigo compreender aqueles modelos com um jogador de polo gigante e números nas mangas dos polos) e um imigrante britânico veio-me pedir Average White Band. Se calhar fez parte deles. É o tipo de coisa que um membro dos Average White Band faria, reformar-se e ir viver para o Algarve, apanhar sol e usar jogadores de polo ao peito até ao final da vida. Passei BATIDA (gosto imenso de BATIDA) e ninguém se importou, até gostaram, o que é bom, mas ninguém me abraçou. Aposto que se o Wayne Coyne e o Esau Mwamwaya lá estivessem teria recebido no mínimo dois abraços.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Duas coisas muito importantes

Não é preciso comentário:

One of my new-wave idols, Scritti Politti’s Green Gartside, used to tell a story about the days when he was an abrasive art-school punk. One night in the spring of 1980, he was the Electric Ballroom in Manchester, England, talking to Joy Division’s lead singer Ian Curtis, frustrated by the dead end of their doom-and-gloom musical styles. “I don’t think I was able to offer him any solace, nor he I,” Green said. “We were feeling pretty dejected and found our respective ways out of it.”
A week later, Ian Curtis killed himself, and Green began playing disco. Ian Curtis’s old bandmates went disco too, renaming themselves New Order. Green never looked back. As he proclaimed, “Fear of pop is an infantile disorder – you should face up to it like a man."

Rob Sheffield, Talking to Girls about Duran Duran (livro incrível, como seria de esperar depois do Love is a Mixtape, e eu iria mais além: o mundo tornou-se um sítio melhor quando os chatérrimos Joy Division acabaram e os New Order nasceram automaticamente pouco chatos)

So why not just let go of the conceit of originality, and let the songbook stand? The revival problem is also the repertory question. Very few people complain that “Hamlet” is restaged every year. Why treat music differently from any other art? Once the original authors are absent, and we agree that their ideas are perfect as is, there seems little reason to monkey with them.
I admit to having dismissed most of these acts out of hand on first listen. Their live shows began dismantling my skepticism. We are broadly taught to respect the innovator, to trust that he or she is doing something important. But we also like what we like, and I like a strong downbeat.

Sasha Frere-Jones, "The delicate art of revivals"

quarta-feira, agosto 18, 2010

Zanguineto

Parece que não sou o único a odiar o trabalho dele. Há fãs antigos: aqui. E há gente que ficou até ao final do filme à espera do nome dele e depois o assentou para ir Googlar e acabou por vir cá ter. É enternecedor.

Luís Zanguineto

É o meu novo ódio de estimação. É o tipo que traduziu o Expendables e não sabe falar inglês. É um bocado estranho. Gostava de ter o contacto dele para lhe perguntar por que raio fez ele aquilo, onde é que aprendeu inglês e se viu sequer o filme ou estava a olhar para outro sítio qualquer. Toda a minha vida vi legendas ao lado, desde ver o The Year Punk Broke na SIC Radical e ler "a Dee Dee Ramone" ou "o J. Mascotts" (quando os nomes vêm todos creditados) até ouvir o Biography Channel a falar d'"a Alan Parsons" e a Claire a perguntar à Nate no Six Feet Under se ela gosta "do Sleater-Kinney". Às vezes percebe-se (mas não se desculpa) por ser conhecimento específico e não haver tempo para os tradutores e encolhe-se ombros por não haver nada a fazer. Já legendas como as do Expendables não têm justificação possível. O Dolph Lundgren é agarrado e o tradutor só se lembra disso a meio. Quando o Sly lhe diz "You're using", o grande Luís Zanguineto escreve "Ainda estás utilizável". Isto, claro, além de traduzir mal, sem perceber, quase todas as frases do filme, especialmente os comentários atirados para o ar, que são quase todos desprovidos da linguagem colorida das personagens e ganham um novo significado, totalmente diferente do que estava planeado. Luís Zanguineto, por favor demite-te. Pára de estragar filmes com as tuas legendas terríveis. És mesmo muito mau no teu trabalho e devias dedicar-te a outra coisa. Eu falo americano e é o Expendables, mas tenho medo de que gente como esta traduza os filmes falados noutro estrangeiro que não o americano. Assusta-me.

sexta-feira, julho 23, 2010

Inception

Incrível, sem dúvida, mas alguém devia dizer ao Nolan que ele não sabe escrever diálogos (é assim tão difícil pedir a alguém para fazê-lo por ele?) e que a exposição deve ser evitada e não abusada. Ou ele faltou à aula do "Show, don't tell"?

domingo, julho 04, 2010

Time to sit back and unwind

É triste que, no dia a seguir a um (bom) barbecue de apresentação do (óptimo) É uma Água dos PAUS, bem complementado pelo 2001 do Dre e o Bitte Orca dos Dirty Projectors (não há, nem nunca houve, saco para o embuste que são os cLOUDDEAD, muito menos ao sol), saia uma banda sonora perfeita para qualquer evento ao ar livre. Falo, é claro, da mixtape do Mick Boogie com o Jazzy Jeff, com todas as canções do mundo que sabem a Verão. Até a mais óbvia, a perfeita, do próprio JJ, o mega-clássico "Summertime" (OK, falta a "Roller Skating Jam Named 'Saturdays'", não se pode ser gritantemente óbvio). Até dá vontade de ter um terraço e fazer barbecues a toda a hora.

sexta-feira, junho 04, 2010

Ideia

O Get Him to the Greek tem um bromance entre o Russell Brand (magro) e o Jonah Hill (gordo). Gostava de fazer um filme com um bromance entre eu agora (magro) e eu há um ano e tal (gordo). Judd Apatow, liga-me.

quarta-feira, junho 02, 2010

We need new noise

Esta remistura da "New Noise" dos Refused pelos Bloody Beetroots não é só abjecta e moralmente reprovável, é também a pior coisa que ouvi em toda a minha vida. Não sou xenófobo, mas, entre os Bloody Beetroots e os Crookers, se tens um duo de música de dança, és italiano e gostas de rock mas não gostas de rock, odeio-te de morte e pára, por favor, estás a estragar o mundo.

segunda-feira, maio 24, 2010

And so it goes...

Uma pequena parte de mim morreu hoje. E valeu a pena, acho eu. Vou ter saudades – e muitas – dos recaps do Videogum, que eram uma das melhores coisas do mundo. Bem, teremos sempre o "Hey, what's up with Topher Grace?", bebé.

domingo, maio 23, 2010

Renovação do ódio

Há dias em que saio de casa e adoro o mundo e as pessoas que nele habitam. Vou pela rua a andar e a cantar e a dançar e às vezes até espalho pelos outros – essas pessoas que adoro – a minha contagiante boa disposição. Ora, isso é péssimo e nocivo para o mundo. As nossas vidas precisam de um pouco de ódio para equilibrar a balança. E, ciclicamente, eu preciso de algo que renove o meu ódio por pessoas e gente. Por isso é que estou contente (por estar zangado) outra vez: chegou a época dos festivais de Verão.
O Rock in Rio é um centro comercial gigante que não vende nada que tu queiras comprar. E isso atrai imensa gente. Tudo começou no metro na sexta-feira à tarde. Foi aí que vi a minha primeira patilha à mitra do fim-de-semana. Estava longe de ser a última. Vinha associada, como tantas outras, a um corpo de culturista, cabelo descolorado em cima com quantidades industriais de gel, bem como a uma namorada a condizer, com rabo saído à stripper. Basicamente, era o primeiro de muitos casais com a colecção toda da D&G.
Por falar nisso, tenho uma sugestão que melhoraria o mundo muito mais que um milhão de edições do Rock in Rio. Decapitação automática para todos os clientes da D&G. Era simples e eficaz e nada injusto. Pensa bem. Há justificação para ser cliente da D&G? Não. É só uma ideiazinha, mas se todos nós tivessemos ideias destas, talvez a existência do Rock in Rio não fosse necessária, porque o mundo já estaria salvo e não seria preciso estar a lutar por um mundo melhor.
Mas o Rock in Rio existe e possibilita experiências que eu nunca teria de outra maneira. Por exemplo, descobri um corte de cabelo à DJ Pauly D do Jersey Shore, o que mostra que, felizmente, essa soberba série já tem repercussões por cá, o que é muito positivo. O recinto está desenhado de maneira que, dentro do teu campo de visão, nunca haja menos que dois logótipos de marcas importantes nem menos de vinte pessoas que tu queiras executar sem julgamento. Alguém me explica por que raio é que há pessoas que, não sendo o Bruce Willis a fazer de John McClane, têm o desplante de sair à rua de wife beater (não há justificação possível para isso, tal como não há justificação possível para fazer compras na D&G). Ou, pior, de manga cava. Há quem pareça ter passado o ano inteiro a malhar no ginásio para mostrar os músculos num festival de Verão.
Neste centro comercial vende-se tudo menos música. Há uma loja da Fnac que vende no máximo dos máximos dez álbuns diferentes, dois ou três livros e um ou outro DVD. Tirando isso, não há mais música à venda. Há, sim, stands em que "celebridades" são mestres de cerimónias e animam as pessoas com piadas terríveis. Num stand da Etic a dizer "THE ETIC SHOW" atrás está o Manuel Marques a dizer "se calhar devia imitar a Shakira para me ouvirem". Um bocado abaixo há uma coisa que diz "Control Peep Show" e tem raparigas de coro a dançar ao som de canções de cabaré escolhidas pelo Gimba (alguém que adoro do fundo do coração e tinha uma camisa incrivelmente feia, a condizer com o ambiente). Atrás das dançarinas, o mestre de cerimónias: Quimbé. Nunca percebi bem quem é o Quimbé nem o que ele faz na realidade, mas a falta de piada dele e o facto de haver gente a rir com as suas piadas terríveis é daquelas coisas que me dão uma injecção de ódio pelas pessoas.
Não sou preto, mas a forma como o John Mayer pega nos blues e noutras músicas negras e transforma aquilo nas suas canções anodinamente hediondas ofende-me pessoalmente. A maior parte das coisas de que gosto ou são feitas por pretos ou por brancos que querem ser pretos e tocar música de pretos e falham redondamente quando o tentam. Está aí a piada. Se calhar o problema do Mayer é saber tocar realmente guitarra. É que, a julgar pelo que ele diz à Rolling Stone e pela maneira como se portava quando era convidado do Conan, o Mayer até é um gajo com piada e adorava que isso se notasse nas canções terríveis dele.
Apesar de gostar do Elton John (e ouvir "Tiny Dancer" ao vivo é incrível, não quero saber se não gostas da canção por causa do Almost Famous e do Cameron Crowe ser idiota, tu é que és idiota, vai-te embora e pára de me chatear), as únicas razões que eu tinha para ir (além do male bonding que é sempre reforçado neste tipo de eventos em que um gajo tem de andar em pé de um lado para o outro à seca) estavam no segundo dia eram os Major Lazer (por causa do Skerrit Bwoy) e o gajo dos XX (não tenho qualquer apreço pelos XX, mas os sets do gajo, com dubstep porreiro e pop, são incríveis).
O tipo dos XX esvaziou a tenda electrónica, que no dia antes tinha estado cheia de gajos que pensavam que estavam no Pacha de Ofir. T-shirts de gola em V e tipos que se punham às cavalitas uns dos outros e punham as palmas das mãos no ar para puxar pela malta eram o complemento perfeito para DJs que passavam sopros manhosos enquanto punham o dedo no ar. Abominável. Ou seja, os mitras não gostam de dubstep (tirando quatro ou cinco pastilhados que dançavam como se aquilo fosse bailado), como a maior parte dos fãs de XX odiariam os sets do gajo (mas graças a Deus que um puto que se veste de preto e tem ar de ter a discografia completa dos Cure não entra por esse lado como DJ).
O Skerrit Bwoy não tem qualquer tipo de talento descernível, a não ser o facto de ser o Skerrit Bwoy 24 horas por dia, especialmente em cima de um palco ou de uma coluna. Veio só o Diplo (o Switch ficou noutro sítio qualquer), o Skerrit Bwoy e duas dançarinas que serviam para colmatar o desconhecimento e a vergonha do público perante o daggering (provavelmente, a melhor dança de sempre). Houve pouco daggering, mas foi bom daggering, com o Skerrit a vergá-las sorridentes e a simular a cópula. A música era porreira, mas soa melhor em disco, talvez pelo facto de o Skerrit ser um mero hype man que praticamente não se ouve e, assim, o Diplo não puxar tanto pelos vocalistas pré-gravados.
Não estava cheio, as pessoas devem ter ficado cansadas depois dos 2 Many DJs, que fizeram um set que considero ser moralmente questionável. Tocam as mesmas músicas de sempre, com passagens perfeitas, sem qualquer erro ou espaço de manobra. Parece estar tudo pré-gravado. Não havia imagens nos ecrãs, por isso até duvido que eles tenham estado lá. Pode acusar-se os Daft Punk de fazer o mesmo, mas nunca vi os Daft Punk ao vivo e uma vez quando foram com o Kanye West aos Grammies eles estavam a tocar nuns botõezinhos e por isso aquilo é ao vivo, estás a ver? Isto podia nem ser, já que havia enimações atrás dos gajos que eram as capas dos discos que eles estavam a tocar e a alternar, em tempo real. Além disso, porra, devia ser proibido passar-se New Order e, duas malhas depois, Joy Division (agora que penso nisso, devia ser proibido passar-se Joy Division, outra medida por um mundo melhor).
Adorava ter tido coragem/companhia para experimentar o daggering. Teria tornado a minha (má) experiência num mau festival em algo muito mais proveitoso e memorável. Às vezes penso que, passada a fase da adolescência do elitismo e o caraças de só ouvir cenas desconhecidas (ou que pensava eu serem desconhecidas) até tenho uns gostos bastante mainstream. Mas vou a um festival destes e fico impressionado com aquilo em que as pessoas caem. Mesmo. No último episódio do 30 Rock (que foi especialmente bom numa temporada assim-assim – o que não quer dizer que não continue a ser uma das melhores séries cómicas do mundo de sempre), a Liz Lemon conhece o Matt Damon e, em conversa, ela diz: "I hate people too!" Senti-me assim. Por falar nisso, também é especialmente doloroso lembrar-me de que o Chuck Lorre tem duas séries horríveis no ar (e vem aí mais uma a caminho, sobre pessoas gordas, o tópico mais brejeiro de sempre, óptimo para um gajo que escreve comédia tão horrível) e o 30 Rock não é visto assim por tanta gente, ou seja: AS PESSOAS SÃO ESTÚPIDAS. Felizmente, tive alguns colegas com quem partilhar o ódio. É que, quando se odeia pessoas, não faz sentido deixar esse ódio todo para nós. É bonito partilhá-lo com os outros. O mundo é um sítio melhor assim.

segunda-feira, maio 03, 2010

CIMENTO. 2006-2010

Grande parte dos últimos quatro anos foi passada, de uma maneira ou de outra, a ser membro dos CIMENTO. Éramos três tipos que passavam música, mais nada, mas era quase como um estilo de vida. Mesmo que não estivéssemos a passar música, estávamos a comprar música, a falar sobre música, em concertos, a falar de futuros sets, de como seria bom passar isto e aquilo, de como seria bom ir aqui ou ali. Agora, ao que tudo indica, acabou.
Milhentos DJs dizem-se eclécticos, mas sabem que não podem fazer certas coisas a meio dos sets e costumam cingir-se a apenas alguns géneros. Como não-DJs, nunca soubemos o que não fazer. Não havia regras. Simon & Garfunkel no Lux? Fizemo-lo. "Tiny Dancer" do Elton John, em tantos sítios, abraçados, a cantar a letra toda? Também. Sem problemas. Stooges, Sonic Youth e Metallica lado a lado com Beyoncé, Rihanna e Kelis? Aconteceu. Os The Tough Alliance em todos os sets, mesmo em sítios em que só nós os três é que os conhecíamos? Não importava, adoramo-los, são, tirando os Wu-Tang Clan, a banda mais CIMENTO. de sempre.
Há umas semanas fui ao Pacha de Madrid. No andar de baixo a música era terrível, alternada com algo decente muito de vez em quando. Aborrecido, encontrei um segundo andar que passava rap e r&b e no qual toda a gente dançava feliz e contente e alegre. Eu fiz o mesmo. Gosto das canções, mas senti-me sujo. Sei que a música de dança e as discotecas devem ser anónimas, com o foco sobre a música e não sobre a pessoa que a passa, e que é tudo isso que faz a cultura de DJs ser diferentes. Todas aquelas canções estavam escolhidas para agradar ao máximo a quem lá ia, sem qualquer personalidade ou critério. O DJ não se mexia, não parecia ter grande prazer no que estava a fazer. Nós, CIMENTO., não sabíamos fazer passagens (às vezes esforçávamo-nos mais ou menos e lá saía uma sem querer), mas sabíamos divertir-nos e ter prazer no que estávamos a fazer. Sabíamos dançar e ficar contentes e passar-nos completamente e, parece, passar esse entusiasmo para as pessoas.
Há uns anos, íamos mais ou menos uma vez por semana à Carbono comprar discos. As prateleiras dos cinco euros eram todas nossas. Recheámos as nossas malas com discos de rap e r&b e éramos, invariavelmente, julgados pelos tipos claramente roquistas que estavam ao balcão. Tenho a certeza de que se riam quando nos íamos embora. Éramos óptimos clientes, clientes habituais, mas éramos sempre mal tratados. Mesmo assim, era um ritual porreiro, que mostrava como encarávamos isto tudo: pensávamos constantemente sobre as malhas que queríamos passar e ansiávamos pelo próximo set para podermos fazê-lo. Entretanto abriu a Louie Louie e a Carbono não passa de uma má memória. Só que há uma atenuante: não é má. Por muito que discutíssemos ou amuássemos (e eu à cabeça), as memórias, pelo menos as minhas, são todas boas.
Na segunda metade de 2007, havia sets de CIMENTO. praticamente todas as semanas. 2008 também foi um bom ano, mas lá para o fim começou a escassear. A escassez agravou-se em 2009 e em 2010, sets, mal vê-los. Tudo bem. Os discos iam acumulando e a vontade de passá-los também, sem qualquer escoamento. Fomos a muitos sítios. O principal, a nossa casa, sempre foi o Left, onde começámos e, pelos vistos, acabámos. Mas também fomos presença assídua durante uns tempos no Mini-Mercado (lembro especialmente a passagem de Agosto para Setembro de 2007 e o meu aniversário em 2007 e 2008), tocámos uma vez no Lux, umas três ou quatro vezes no Lounge, duas vezes (noites incríveis) na Casa Conveniente, fomos ao Plano B no Porto (com a Joana M. e a Sara, obrigado), à Sociedade Harmonia Eborense em Évora (com a Joana B., talvez a maior groupie de sempre de CIMENTO.), ao Cinema Paraíso em Leiria (foram acompanhar-nos o Nicolai, a Joana B. e o Ramos), um casamento, ao primeiro aniversário do Museu Berardo, a uma festa da Católica no Porto, a Santa Maria da Feira, a uma festa da Time Out. Não me lembro de mais agora, mas, por quatro anos, pude andar por Lisboa e por Portugal a passar música com dois dos meus melhores amigos. Podia ter sido muito pior. Passei de ficar em casa por não ter nada para fazer para fazer o melhor que havia para fazer. Até, uma vez no Lux, fui reconhecido por duas raparigas, que me perguntaram se não era dos CIMENTO. "Gostamos bué de CIMENTO., vimo-vos uma vez no Mini-Mercado." Foi o meu único momento de fama.
Fizemos dançar muitas pessoas e, especialmente, fizemo-nos dançar a nós próprios. Amigos e amigas, alguns que conheci lá, ou não, gente como várias Joanas, a Carin, a Sara, a Maria, a Rita, a Ana e, last but not least, até a Nika. E montes de outras pessoas, espero eu. Cada segundo valeu a pena e foi provavelmente das melhores coisas que já me aconteceram na vida desde sempre. Espero que sejamos como o Jay-Z (alguém que os três adoramos) e regressemos da reforma daqui a pouco tempo.


quarta-feira, abril 21, 2010

Nevermind

O que é que estás a fazer neste preciso momento? Bem sei que nunca gostei de Nirvana, mas pára tudo e vai ler isto. Grande, grande André.

segunda-feira, abril 19, 2010

Singular

Este não foi publicado porque já tem umas semanas (foi escrito pré-leak dos LCD e pré-vídeo de "Drunk Girls", ou seja, antes de hoje):

LCD Soundsystem
Drunk Girls
YouTube

Não tenha medo. "Drunk Girls" não é daquelas canções introspectivas dos LCD Soundsystem que tanto podem ser excelentes como aborrecidíssimas. Não, é LCD Soundsystem com tudo aquilo que se espera deles: repetição, minimalismo, guitarras pós-punk, gritinhos, tiques vocais, sintetizadores, diversão e linhas de baixo simples e boas. A temática é a perfeita para a festa: raparigas bêbedas. Porque, já perguntava a avó de toda a gente, o que é uma festa sem espécimes do sexo feminino alcoolizados?

R. Kelly
Be My #2
YouTube

Esqueça "Be My Baby" das Ronettes. O que está a dar é ser romântico, mas não em demasia. Esta canção de R. Kelly é uma canção de amor, mas não é um amor qualquer. É o amor por uma amante. A mensagem é simples: "amo-te, mas tenho uma principal, queres ser a minha secundária?" Acontece que é a melhor canção de R. Kelly em muitos anos, com um instrumental disco-sound cheio de funk inesperado, com guitarras, cordas e sopros foleiros. A produção é de Jack Splash, dos revivalistas do funk futurista PlantLife, e lembra as discotecas dos anos 70 onde se dançava de patins.

Jamie Lidell
The Ring
Pitchfork.tv

Sobre Van Morrison, o crítico Greil Marcus dizia que nenhum branco cantava assim. Era uma referência à capacidade vocal extraordinária do irlandês que se pode aplicar na perfeição a Jamie Lidell. Mas onde Morrison vai lá pela dor, Lidell vai lá pelo mel. Enquanto os (óptimos) dois álbuns anteriores de Lidell eram soul retro, cheios de grandes canções, o próximo, Compass, vai ser mais experimental. "The Ring" prova isso mesmo. É uma canção suja – cortesia da voz a fazer de guitarra e de baixo e de um trompete, tudo bem distorcido –, com piano e palmas, que muito deve aos blues, mas não deixa de ter toneladas de funk. Viciante.

segunda-feira, março 29, 2010

Sobre a misoginia



Melhor canção de sempre, certo? Talvez o Stephin Merritt, fã confesso de Phil Spector, o senhor que produziu a canção, concorde (também podemos fazer uma generalização irracional igual àquelas que Alberto Gonçalves: os Grizzly Bear, cujo vocalista é gay, fizeram uma versão desta canção, por isso é provável que Stephin Merrit, que também é gay, de Nova Iorque, e músico, a adore). E o que é? É uma canção escrita por Carole King e Gerry Goffin, um casal, sobre uma mulher cujo parceiro lhe bate. E, quanto mais lhe bate, mais ela percebe que ele gosta dela. Uma perspectiva muito bonita. A ideia era protestar esse tipo de mentalidade, mas isso não está explícito em lado nenhum. Podia perfeitamente estar a legitimar-se a coisa. Aposto que o senhor Alberto Gonçalves, que se insurge contra a misoginia do hip-hop, não tem nada contra esta canção. Nem contra o Phil Spector, um senhor que tem um vasto historial de pouca misoginia. É complicado, para uma mulher que ande com ele, acabar com a relação. Não é que ele seja irresistível, é só que ele tende a pegar numa pistola e apontá-la à cabeça de todas as pessoas do sexo feminino que ousem deixá-lo. Mas não é misógino porque não fez a escolha de vida errada, a do rap. É aceitável para o Alberto Gonçalves e para o seu herói Stephin Merritt.
Reparem e olhem à vossa volta: há misoginia em todo o lado. Achar que é perpetuada apenas pelo rap ou pelo metal não é só estúpido e idiota, é altamente irresponsável. O Phil Spector é um génio, ninguém duvida disso, mas é violento com mulheres e traumatiza-as para a vida. Também o era o Notorious B.I.G., que batia na Faith Evans. Nada altera o facto de terem feito música incrível, da melhor que alguma vez se fez. A produção do Spector na "Be My Baby" das Ronettes – para ser um bocadinho mais como Alberto Gonçalves e recorrer apenas ao óbvio – perde a beleza? As primeiras palavras do Biggie na "Juicy" ("It was all a dream, I used to read Word Up Magazine") e tudo o resto, a história rags-to-riches que ele conta tão bem deixa de ser tocante e uma das mais belas cartas de amor ao rap de sempre? Não. As atitudes deles são reprováveis e devem ser combatidas, sim. Fingir que só existem ali ou, pior, que é lá que nascem, é perigoso.

Apelo a um homem de negócios

A qual destas pessoas é que daria emprego?



Ao tipo de barba por fazer, vestido com um casaco de cabedal e uma camisa manhosa, que enverga um misto entre boné e boina na cabeça?


Ou ao senhor aprumado e bem vestido?

Um destes dois fez a escolha de vida perigosa (e errada) que é o hip-hop. Veja se adivinha qual deles foi.