segunda-feira, março 22, 2010

Isto ainda se usa? Parte 2

Agora pus-me a pensar: será a minha opinião de que o tipo é um idiota chapado válida? Talvez seja. Afinal de contas, sou branco e ando na rua de camisa para dentro das calças (que não são largas). Mas, ao mesmo tempo, posso estar a ouvir o Ready to Die ou o The Blueprint, algo que faço normalmente várias vezes por semana. Será uma escolha de vida correcta ou estarei eu a enganar toda a gente e serei, portanto, perigoso? Estou a ouvir pretos do hip-hop, mas estou vestido de uma forma aceitável para a sociedade. Que diria o Alberto Gonçalves de mim? Que diria ele, por exemplo, do guarda-roupa do Common, que esconde a sua verdadeira essência como alguém que escoheu o estilo de vida do rap? Ou de todos os rappers que usam fatos que não são dois números acima? Dá para ver que o Jay-Z fez uma escolha de vida errada quando veste Tom Ford ou estará ele a ludibriar as pessoas? Talvez ele devesse usar algum tipo de marca que o identificasse como alguém que fez uma escolha de vida errada. Também gostava de saber os problemas que o Alberto Gonçalves tem quando vê os Roots no Late Night with Jimmy Fallon. Vestem todos fato e tocam instrumentos "a sério", algo que pode ser bastante ambíguo. São uma espécie de Cavalo de Tróia, entram pelo mundo confortável dos talk shows nocturnos, mas como raio é que se percebe que fizeram a escolha do demónio quando decidiram dedicar a vida ao hip-hop e, por conseguinte, a Satanás?

Isto ainda se usa?

Pensava que este tipo de estupidez/ignorância/idiotice já não se usava. Sinceramente. O que vale é que o Rui Miguel Abreu – o pior pesadelo de Alberto Gonçalves: um tipo inteligentíssimo e cultíssimo, que mesmo assim escolhe não usar fato e gostar de hip-hop – o põe no sítio. Vale a pena ler o chorrilho de parvoíces do senhor para ler a resposta do Rui. Ninguém o faria melhor (eu, por exemplo, falharia redondamente: cairia no facilitismo de arranjar três ou quatro exemplos para contrariar cada frase e opinião do idiota, num namedropping inconsequente, ou chamar-lhe-ia "idiota" a cada frase), e é preciso mais gente a pensar/escrever assim (ao invés de haver uma geração inteira de bloggers que têm um orgasmo com o The Wire quatro ou cinco anos depois de acharam que tinha "demasiados pretos" ou coisa que o valha porque o Guardian ou o que quer que seja os avisou de que aquilo era bom – nada contra descobrir o The Wire demasiado tarde, só contra o preconceito que muita gente dita culta tem contra "coisas de pretos").

sábado, fevereiro 13, 2010

Sonho

A vida devia ser um set constante do DâM-FunK, com todos solos de keytar que isso comporta.

domingo, fevereiro 07, 2010

O melhor site do mundo. De sempre

Selleck Waterfall Sandwich. É exactamente aquilo que parece ser: montagens do Tom Selleck perto de cascatas com sanduíches lá no meio. Uma ideia obviamente genial.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Embuste

Fazem o que fizeram ao Gervais ao Martin e ao Baldwin e eu juro que mato alguém. Para ver, no máximo dos máximos, cinco minutos dele? Estão a gozar comigo? OK, Jeff Bridges é uma das maiores pessoas vivas, não haja dúvida disso, e há dois ou três prémios que foram bem mandados. Mas, porra, cinco minutos de Gervais? Não sabem aproveitar a parte boa da vida?

sábado, janeiro 16, 2010

Um dia triste

As a deal nears for Conan O'Brien's exit from NBC, one thing is certain: the characters and recurring comedy bits O'Brien originated during his 16-plus years on "Late Night" and "The Tonight Show" will not follow the host when he leaves NBC.

The Peacock owns the intellectual property behind such popular O'Brien characters as Pimpbot 5000 and Conando, as well as recurring segments such as In the Year 3000 and Desk Driving. Sources involved in the settlement negotiations say NBC is keeping the copyrighted and trademarked elements of O'Brien's shows as part of the deal. That means the bits and characters will likely never be seen after O'Brien's "Tonight" ends its run Jan 22. ‬

While the vast majority of the characters O'Brien introduced are said to owned by NBC, it's unclear who controls Triumph the Insult Comic Dog, the crass canine puppet that is perhaps O'Brien's most popular recurring bit. Triumph was originated by writer and longtime O'Brien pal Robert Smigel, whose reps declined to comment on whether Smigel or NBC owned rights to the character.


Cresci com o Conan. Cresci com estas personagens. Nunca me saiu da cabeça um sketch de há mais de 10 anos em que, em pleno dia dos namorados, o Conan ia num Masturdate: jantava sozinho e, se a noite corresse bem, ia para casa e tocava-se. Uma parte de mim morreu hoje, disso não tenho dúvida nenhuma.

2009

Também me esqueci disto:



Foda-se.

terça-feira, janeiro 12, 2010

I'm on mah grind, shawty, don't block my shine, shawty

As melhores cantigas de 2009. Esqueci-me dos Grizzly Bear ("Two Weeks", claro) e do Raekwon ("The House of Flying Daggers", beat monstro do J. Dilla que um dia servirá para começar guerras).

terça-feira, dezembro 15, 2009

Aziz+AC

Na última Fader há uma entrevista incrível. É o Aziz Ansari a falar, por e-mail, com os Animal Collective. E no fim há fotografias deles todos (os quatro Animal Collective, sim, o Deakin também entra, e o Aziz) em pequenos. É uma troca de e-mails com links de YouTube para malhas de rap/new jack swing/hip-house dos anos 90 e vídeos estranhos. Quando for grande quero entrevistar pessoas assim.

domingo, dezembro 13, 2009

Doismilenove

Tantos reis, tanto de memorável: o "I'm on a Boat", com os Lonely Island a fazer uma malha que é uma malha e mesmo assim é uma piada, é provavelmente a melhor canção do T-Pain e tem tanto e tanto de bom, tanto o vídeo quanto a música; o Danny McBride e a sua detestabilidade adorável como Kenny "Fucking" Powers (Eastbound and Down é a série do ano); o Aziz Ansari e a sua doce douchebaggery como Tom Haverford (menção honrosa para o enorme Nick Offerman como Ron Swanson, é criminoso o Parks and Recreation ainda não se ter estreado em Portugal); o Zach Galifianakis, o seu Ray Hueston (e o Ted Danson e o Jason Schwartzman, trio maravilha no Bored to Death) e o seu Alan Garner do Hangover que lhe deu a merecida fama após tantos e tantos anos; a ira da Jane Lynch no impressionante Glee (adoro estar a ver o High School Musical em bom e haver uma piada tão acutilante que me faz questionar se ainda estou a ver a mesma série), e a sua também merecidíssima fama (é das pessoas com mais piada no mundo inteiro, uma mente que diz as frases mais brilhantes com uma rapidez incrível, além disso também estava boa no Party Down – outro crime não ter chegado cá –, que infelizmente não a poderá ter mais por causa do Glee); o GANA e o CENA e especialmente o "És um fartote" d'A Pandilha na cena do Goodfellas, bem com incontáveis outros momentos destes tipos brilhantes que criaram sozinhos um mundo inteiro cómico e novo sem se parecer com nada do que veio antes, sem referências aparentes e com muita piada; os grunhidos do Clint Eastwood no Gran Torino; o Norberto Lobo, que me ajudou a ler imensos livros ("Do Alto da Faia" é enorme); o "Shine Blockas" do Big Boi com o Gucci Mane, que é tudo aquilo que eu queria na vida de uma canção rap e muito mais, inclusivamente o cowbell da TR-808 – acho que é o meu som favorito de sempre (obrigado ao Chico por me ter chateado com essa merda no eléctrico, ter-me-ia passado ao lado); o Panda Bear confundir estatuto social com coisas materiais; o episódio do Flight of the Conchords realizado pelo Michel Gondry (genial, e "Carol Brown" é das canções do ano); já que estou nisso, o Fernando Brito, depois de uma prestação maravilhosa e hilariante como director do hospital num dos melhores episódios d'Um Mundo Catita (não me canso de dizer que é das melhores cenas de sempre da televisão portuguesa) fez um general maravilhoso num vídeo passado durante O Artista Português é tão bom Quanto os Melhores na sexta no S. Luiz; o Bill Murray ter morrido duas vezes (uma boa, outra má, isto relativamente falando, já que o Bill Murray, um dos maiores tesouros mundiais, nunca deve morrer); o Seth Rogen ter emagrecido (e eu também, ainda mais que ele) e ter feito do Funny People algo tão especial (e sortudo, acaba por ficar com a Aubrey Plaza); a Jenny Slate no Bored to Death, tão pouco e tanto ao mesmo tempo (não tive tempo para apreciá-la totalmente no Saturday Night Live, a maior parte dos sketches aborrece-me de morte); os BlakRoc e o rap-rock, mas em bom; o Mos Def e o incrível Ecstatic; os Grizzly Bear em todo o lado; "Empire State of Mind" (era só uma questão de tempo até fechar um episódio do Gossip Girl, e já agora a menção do Cristiano Ronaldo no Gossip Girl também marcou imenso o ano); e tantas e tantas outras cenas.
Gostava de agradecer à Joana S. pel'O Wrestler, o Milk e o Vicky Cristina Barcelona (e todos os outros, mas esse foi o melhor), à Joana B. pela Valsa com Bashir (e pelo Rachel Getting Married, o David Byrne e o A-Trak), à Sara pelas Titan Thursdays, à Rita pelos Abraços Desfeitos, à Carin pelo segundo Gran Torino, à Sofia pelo Hangover (e todos os outros gloriosamente maus, especialmente o da Nia Vardalos – o facto de ela ter uma carreira é um ultraje para gregas com piada como tu ou a Tina Fey), à Ana pel'O Visitante, à Maria pelo Maxime e o pré-Maxime, a outros amigos (especialmente ao Jaco pelo Synecdoche, New York, ao Nel e ao Júlio e não me lembro de mais quem pelo Caos Calmo e ao Paco e o Afonso – e mais muitos outros – pelo Arena de Torres Vedras, os filmes bons e os maus, o K'Naan e o bowling) e a mim próprio por tantos outros. E a todos os meus amigos por tantas outras coisas (o Ilo e o Super Bock em Stock, ou o Ilo e o Mário e a festa da Time Out, por exemplo, ou todas as Joanas do mundo por tudo).
Esqueci-me de muita coisa e é triste ter morrido o Michael Jackson e o John Hughes (e muitos mais que agora não me ocorrem ou não me marcaram tanto), mas pronto, o mundo há-de ir ao sítio.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Herman e expectativas

Quando era (mais) puto, lá por 1996 ou 1997, tinha a esperança secreta de que um dia a Herman Enciclopédia saísse em CD-ROM, tal como o genérico parecia prometer. Tinha tudo gravado em VHS, hoje em dia tenho os dois volumes em DVD. Não é a mesma coisa. Queria uma alternativa ao Encarta 96, à Diciopédia ou algo parecido.E agora já não vale a pena. O mundo mudou e ninguém se interessaria por isso.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Sobre 2012

Acho que adoro praticamente todos os actores envolvidos em 2012 e acho que o Danny Glover devia ser mesmo presidente dos Estados Unidos.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Blakroc

A ideia por detrás da existência dos Blakroc, o novo projecto dos Black Keys com gente como o Mos Def, o Ludacris, o Pharoahe Monch, o RZA e imensa gente, é tão simples que até impressiona nunca ninguém ter pensado nela antes (especialmente o Mos Def, que falhou redondamente quando tentou fazê-lo sozinho): é rap-rock, mas em bom. Finalmente (e não, a era dourada da Def Jam e os OutKast não contam).

terça-feira, novembro 10, 2009

Chuck Lorre outra vez

Alguém comentou, a propósito do meu ódio pelo Chuck Lorre, o seguinte:

"VOCE EH IMBECIL SUA FDP? TWO AND A HALF MEN E A SERIE DE MAIOR SUCESSO ATUALMENTE SUA INGUA DE UMA PORRA.. ATE CONCORDO QUE THE BIG BAND THEORY SEJA UMA MERDA, NAO ASSISTO AQUILO NEM PELO CARALHO, MAS FALAR QUE TWO AND A HALF MEN NAO EH MANERO? VA ARRUMAR UMA PIROCA PRA TE SATISFAZER Q ISSO EH FALTA DE PICA NA BUCETA.

Obrigado pela atencao,
vitu"

Acabei de perceber que estava errado. Como pude eu ignorar a "série de maior sucesso actualmente"? O Chuck Lorre é um génio! Façam-lhe uma estátua.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Sim, eu vejo os Óscares

E depois do indescritível e basicamente pior de sempre Hugh Jackman, Steve Martin e Alec Baldwin vão apresentar a cerimónia conjuntamente. Às vezes o mundo é um sítio tão bonito, meninas e meninos.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Buraka Som Sistema na New Yorker

Depois de várias menções no blog dele, o Sasha Frere-Jones – que eu sigo quase religiosamente – escreve sobre Buraka Som Sistema na New Yorker.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Assustador

O Greg Tate, num texto do Village Voice sobre o Michael Jackson quando este morreu há uns meses, lançava uma hipótese que é algo assustadora:

The scariest thing about the Motown legacy, as my father likes to argue, is that you could have gone into any Black American community at the time and found raw talents equal to any of the label's polished fruit: the Temptations, Marvin Gaye, Diana Ross, Stevie Wonder, Smokey Robinson, or Holland-Dozier-Holland—all my love for the mighty D and its denizens notwithstanding. Berry Gordy just industrialized the process, the same as Harvard or the CIA has always done for the brightest prospective servants of the Evil Empire.

Ontem, no Guardian, numa peça sobre o Numero Group – fiquei com imensa vontade de, quando tiver dinheiro, comprar a tal última compilação de luxo que sai agora dessa editora de reedições obscuras –, o Simon Reynolds fala do mesmo:

The music industry is a harsh, cruel business at the best of times, but it seems particularly so in black music if only because – from Detroit, MI to Kingston, Jamaica to Bow, E3 – there is such an overflowing wellspring of talent that it can often seem arbitrary who gets to succeed and who never gets the break. So many of the groups unearthed by Numero are only a notch away from being Booker T and the MGs, or the Temptations, or Martha and the Vandellas.

At the same time I can't help wondering if it makes sense for someone like me to spend time on historically marginal music when I've yet to "do" Ray Charles or Sam Cooke, i.e. incontestably epochal artists in the history of American music. As the series expands (Smart's Palace is the eleventh) Shipley acknowledges feeling "a bit of fatigue with Eccentric Soul … they do become variations on a theme. It's the same story: black musicians facing the same problems." The inexhaustible wellspring of black musical creativity can be … well, exhausting.


Talvez seja por isto que há muita gente racista. Por falta de tempo e paciência.