quarta-feira, outubro 25, 2006

Pois

Entretanto saiu o primeiro número a sério do UM, com uma gralha minha ("saxofone alto" em vez de "saxofone tenor", num texto sobre o Barreiro Rocks), com outros textos meus (entrevista a Nigga Poison e texto sobre o concerto de Final Fantasy no Club Lua). Entretanto ontem fui à televisão, e hoje estarei no Lounge na festa do Bodyspace a passar música. Entretanto, supostamente, o James Murphy "vendeu-se" à Nike e isso não me faz confusão nenhuma ("45:33" é enorme, acho que vou começar a correr).

domingo, outubro 15, 2006

Kingdom Come

É estranho. "Foda-se" foi a única palavra que me passou pela cabeça anteontem. Disse-a várias vezes depois de ver os Comets on Fire, a várias pessoas. Não conseguia dizer algo diferente. Depois não consegui escrever algo diferente. Os Comets on Fire são demasiado bons ao vivo para escrever sobre eles. É uma experiência intensa que merece ser vivida e não lida. Deixo isso para outras pessoas que o farão talvez melhor que eu. Antes do concerto, T.I., Cassie, Ruff Sqwad e Talib Kweli. Gosto disso, é como o Timbaland gostar de Black Dice, dois mundos completamente diferentes que se encontram algures. E, felizmente, não foi a primeira vez que ouvi "Get By" (Kanye West a samplar Nina Simone, com o Kweli em grande forma, ou melhor, na melhor forma possível, já que ele, tecnicamente, nunca poderá ser muito grande) ali.
Mas isto é só uma desculpa para falar de algo bem mais actual. Algo que ainda não aconteceu de facto. Já toda a gente escreveu sobre isto antes de mim. Mas só ontem é que arranjei forma de ouvir bem "Kingdom Come", o tema-título de Kingdom Come, o disco de regresso do Jay-Z. Ele é o Michael Jordan do rap, saiu da reforma para voltar e salvar o mundo. E trouxe, de repente, milhares de referências a banda-desenhada. É sobre isso que versa "Kingdome Come". Antes disso, há o primeiro single, "Show Me What You Got". Ambos os temas são produções enormes de Just Blaze, do qual ninguém, hoje em dia, espera menos que o melhor (há muitas e muitas razões para isso).
Jay-Z é o Batman, mas em vez daquela luz no céu da cidade de Gotham, basta juntar as mãos e fazer o sinal da Roc-A-Fella no ar, e ele aparece. Um super-herói à antiga, que regressou da reforma para salvar o mundo. "I'm hip-hop's savior", diz ele. Será? Numa altura em que o Nas está para lançar um disco que diz, no próprio título, que o hip-hop morreu, será que o Jay-Z é o super-herói que vai salvar não só Nova Iorque, como o mundo todo? Será que serão os dois? Os dois ex-rivais juntos para combater o mal? Se forem, será que terão o bom gosto de não usar capas? Espero que sim. Mas nada disso interessa, no final de contas, porque o que interessa é a música. Os sample de saxofone de "Show Me What You Got" é muito bom, mesmo que, se fechar bem os olhos, me lembre de Sade ou de um single do George Michael. Depois de "Pressure", do Lupe Fiasco, o Jay-Z continua em grande e nada mau poderá vir de Kingdom Come. "The ruler's back", e ainda bem.

terça-feira, outubro 10, 2006

Duas ou três ou mais ideias parvas

- O Barreiro é um sítio simpático e acolhedor. Já o tinha sido durante o OutFest do ano passado, apesar de ter estado lá basicamente meia-hora, mas provou sê-lo mais uma vez durante o Barreiro Rocks (e ainda bem que perdi o último barco no sábado);
- O M. Night Shyamalan continua a ser um parolo - basta olhar para a forma como se veste e como se mostra em frente da câmara no Lady in the Water, que raio de realizador respeitável é que faz isso? - e um realizador com um talento moderado que estraga tudo por ser parvo (Unbreakable é, talvez, um dos piores filmes de todo o sempre);
- Black Dahlia é naquela;
- Duas ou três ou mais ideias parvas para um 2007 melhor:
    - Os TV On The Radio virem cá;
    - O Timbaland parar de aparecer todos os dias na minha televisão de wife-beater (e, noutro campeonato, o Nuno Markl nos cinemas a que vou). A sério. Porque é que eu preciso disso? Parece que passou os últimos anos a fazer musculação e a comprar sintetizadores (deu-nos "My Love", do Justin Timberlake com o T.I., uma das malhas do ano, e aqueles singles da Nelly Furtado, mas, sinceramente, já chega de anos 80 bem transpostos para os anos 2000);
    - O Francisco Silva de Old Jerusalem - nem que seja ao vivo, onde falta sempre qualquer coisa à música dele, não sei bem dizer o quê, mas confirmei-o no outro dia - fazer uma versão de "Thirteen" dos Big Star, mesmo que a voz dele não seja a mais adequada para isso, para suplantar a versão do Elliott Smith;
    - Apagar da nossa memória colectiva todas as referências aos Fall Out Boy e quejandos, nos quais se incluem os protegidos deles como os Panic! At the Disco ou os Gym Class Heroes (no final do Snakes on a Plane, o melhor filme de todo o sempre, aparecem estes e estragam tudo, é indescritível, mesmo antes do "Ophidiophobia" do Cee-Lo, a melhor canção de sempre), não são necessários para nada e só poluem o mundo;
    - Aprender a arranjar mais tempo para escrever e ler o que quero sem ter problemas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Divagações livres e sem sentido sobre Neutral Milk Hotel e Mountain Goats

Não tenho um diário. Tinha um caderno parvo no outro dia e tinha bebido e apeteceu-me escrever o que me veio à cabeça numa noite em que não me apetecia propriamente dormir e estava a ouvir, como sempre, o In The Aeroplane Over The Sea. Uma parvoíce. Nem me lembro bem do que estava lá escrito, e como já não escrevia cá há algum tempo, decidi publicar estas divagações sobre duas paixões.





terça-feira, agosto 29, 2006

In one more hour I will be gone

Acabaram. Já há algum tempo. Já sabia antes de se saber, disseram-me. Esperava que não fosse verdade. Mas era. Já houve artigos e artigos e artigos sobre isso. Este não é mais um. É só triste. Cheguei às Sleater-Kinney definitivamente apenas o ano passado, com The Woods. Muitos fãs não gostam. Eu adoro. Tinha ouvido antes outros discos delas, mas tudo o que vinha para trás parecia-me demasiado igual. Sei lá. Já foi há alguns anos.
Algures no princípio do ano, com o catálogo da Matador em promoção na FNAC, telefonei a uma amiga para perguntar qual era o melhor álbum delas. Ela disse-me Dig Me Out, e eu comprei. E é um disco óptimo, e tem uma (aliás, muitas) canção enorme: "One More hour". Acontece que foi com esta canção que elas se despediram para sempre. Ontem, ou anteontem, li um artigo na Pitchfork que me fez adormecer ao som do disco, e lembrar-me de quão boa era essa canção. As guitarras entrecruzadas, a voz sempre estridente, ou as duas vozes juntas, são coisas belíssimas e poderosas e fortes e feias e bonitas e pujantes e enormes, tudo ao mesmo tempo.
E hoje encontrei o vídeo do final do último concerto delas no YouTube. O abraço no final é das coisas mais comoventes de sempre e todo o vídeo é belíssimo. Três mulheres a fazerem aquilo que gostam mais de fazer na vida, com uma entrega e uma comoção visível. É algo bonito. E a canção também. Porque é que se deixaram disto? Talvez achem que é melhor sair antes de fazerem algo embaraçoso, para não estragar o legado que está para trás. Se calhar acharam que tinham chegado onde queriam chegar, com uma obra-prima, The Woods. E esta foi a melhor maneira de dizer adeus:


sexta-feira, agosto 25, 2006

Lost without you, half dead

Estou agradecido, do fundo do coração, à namorada do John Darnielle que o deixou. Aliás, a todas as que o deixaram, a todas as que não chegaram sequer a estar com ela, a todas. Porque foram elas que fizeram Get Lonely, que é provavelmente das coisas mais bonitas que ouvirei este ano. Nunca fui grande fã dos Mountain Goats até The Sunset Tree, e se esse era um disco sobre o padastro abusivo daquele que é o protótipo do indie rocker dos anos 2000 - lido, ecléctico (adora hip-hop e metal), carismático e cheio de piada, com um sentido de humor brutal -, este é um disco sobre o final de uma relação.
Fui ver, há pouco menos de um mês, The Break Up, o filme que tenta fingir que há uma química desvanecente entre Jennifer Aniston e Vince Vaughn. Não há. E também não há piadas. Há uma comédia proto-séria que tenta lidar com o tema, mas nunca chega bem lá. Get Lonely é tudo aquilo que The Break Up não é. Não sei porquê, mas a crítica tem recebido Get Lonely como um disco mais negro e deprimente que The Sunset Tree. Parece-me, contudo, que é bem mais fácil a pessoa comum perceber o que ele canta em Get Lonely do que em The Sunset Tree. E “canta” é a palavra-chave aqui, porque Darnielle parece estar bem mais preocupado em escrever canções propriamente ditas, com óptimas melodias e óptimos arranjos - envolvem piano, violencelo, guitarra, baixo e bateria (e um metalofone em "Half Dead" e sopros lá para o final do disco), tudo belíssimo - do que no seu modo verborreico de contar histórias em que parece não conseguir parar de falar. E canta-as com uma voz suave e sussurada, num falsete frágil estranho mas também bonito. E funciona.
John Darnielle canta sobre acordar sozinho e arrumar a casa e fazer todas as tarefas do dia-a-dia sem alguém a seu lado. Escolhe as palavras como ninguém e tem a música perfeita para as acompanhar. Aliás, mais do que acompanhar, já que as palavras e a música são indissociáveis. E é impossível não gostar de John Darnielle, um tipo com piada que faz música triste, ou um tipo triste que faz música com piada. É os dois ao mesmo tempo, depende do disco. Neste está triste, mas sabemos sempre que ele tem um sentido de humor incomparável. Acho que todos devíamos estar eternamente gratos às mulheres da vida de Darnielle que lhe fizeram mal e, como exemplificado no vídeo que se segue, eternamente chateados com o barbeiro dele.


segunda-feira, agosto 21, 2006

Oh Morrissey, so much to answer for...

Já passou quase uma semana. Já houve tempo para pensar e, especialmente, pela primeira vez, reouvir o concerto. Viva a Antena 3 e os piratas que ficam em casa e se dedicam a pôr aquilo na internet. É bom andar pela rua a ouvir o concerto de um dos nossos heróis pessoais que vimos dias antes e pensar "eu estive lá." Até porque é verdade. Eu estive lá, a escassos metros do palco, a ver aquela figura que tanto fascínio exerce sobre mim há anos e anos.
E ver essa figura ir-se embora, do nada, a meio de "Panic", foi um duro golpe no estômago. Foi-o para toda a gente que fosse fã dele. É impossível não ficar impressionado e decepcionado e triste com aquilo. Mas ele faz o que quer. Nós, que o conhecemos melhor que ninguém, sabemos melhor que ninguém que ele não é nem nunca foi boa pessoa. Aliás, deve ser um dos seres humanos mais detestáveis do mundo inteiro. Talvez por achar que a raça humana é, no seu todo, detestável e não ter esperança nas pessoas. Nós, os fãs, não somos assim. E eu odeio fãs de bandas, fãs de artistas, mas desculpo isto. Bem, não desculpo Is It Really So Strange?, o documentário assustador que vi no IndieLisboa sobre os fãs dos Smiths e do Morrissey. Não, não são fãs como nós. São pessoas doentias, que mais do que saberem todas as letras do maior poeta pop de sempre, sabem onde ele mora, fazem tatuagens de autógrafos dele, guardam como melhores dias das suas vidas os dias em que o viram, em que ele lhes tocou. E ele não sabe sequer quem eles são. Não quer saber deles. Alimenta-se deles. Mas aqui é que está a estranheza: ele dá-lhes muito mais do que quer dar. Ele, não querendo saber deles, ajuda-os. E da melhor forma, através da música. Pediu-nos, aos fãs, uma vez: "But don't forget the songs / That made you cry / And the songs that saved your life." E todos nos lembrámos. E foram as dele que fizeram isso.
É estranho, quando nos entregamos totalmente a um concerto e esperamos que ele cante isto ou aquilo. Ele fá-lo todas as noites, ou frequentemente. Escolhe o que quiser, e é interessante como, através do seu livre-arbítrio, ele consegue condicionar-nos. Podia estar antes do concerto a comer uma sandes de tofu a pensar "hoje não toco nada do The Queen is Dead porque não me apetece." E não tocou. Para quem esperava que isso acontecesse, foi triste. Mas há coisas bem piores. Vimos todos o nosso herói, nós, os fãs, algumas das pessoas mais irritantes do mundo. E ele faz de nós o que quiser. O que quiser. E o pior é que nós gostamos disso.

sábado, agosto 12, 2006

UM

Chegou às FNACs na quinta-feira a edição 0,5 do UM, um novo jornal de música, basicamente, mas que quer também fazer-se de outras coisas. Sou colaborador do mesmo, e esta edição, que também estará disponível em Paredes de Coura ("ao pontapé", dizem os responsáveis), tem um texto meu sobre o Return to Cookie Mountain dos TV On The Radio, disco que eu nunca escondi ser um dos meus favoritos do ano. Mais informações no blog do patrão, no blog do colega e no blog do futuro colega.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Let's not kid ourselves

É estranho, mas compreensível nesta era, ter um disco há 7 meses ainda dentro do plástico. Comprei, durante os saldos da AnAnAnA, quando me sobraram 12,5 €, o último disco dos Silver Jews. Obviamente, tinha-o em mp3, mas, como não tenho um gira-discos em casa, não o abri até hoje. De férias, tenho gira-discos, mas um que anda um pouco depressa de mais. Mesmo assim, deu para me lembrar o quanto gosto do disco.
Não conheço outros discos dos Silver Jews, e sei que o Dave Berman deve ser uma pessoa horrível. O que me chamou a atenção para ele foram, como costuma ser muitas vezes, os textos do João Bonifácio sobre o disco. Ele conhece-o e tudo e não me lembro de alguma vez ter falado com ele sobre isso, mas o Dave Berman deve ser uma pessoa mesmo difícil. Lembro-me também que, antes de ler o Last Plane to Jakarta, o melhor blog de sempre, o que me chamou a atenção para o génio do John Darnielle e dos Mountain Goats foram os textos do Bonifácio, que é basicamente uma coisa que me tem acompanhado neste verão ("Get Lonely" é das canções do ano e o recém-descoberto falsete do Darnielle é uma coisa deliciosa, quase tão deliciosa quanto os textos dele e as entrevistas - uma ao Tom Breihan em que ele falava de banda-desenhada, de metal e do Scarface era genial, é interessante ver como ele é o protótipo do indie-rocker em 2006 e é um fã confesso de hip-hop e metal, o que só mostra como o mundo mudou). É estranho, o Dave Berman é um poeta, acima de tudo, mas escreve óptimas canções com melodias e guitarras perfeitas que ficam na cabeça. Não me lembro, sinceramente, de gostar assim tanto do disco, tirando as frases ocasionais, como "If it ever gets really really bad / let's not kid ourselves: it gets really really bad" ou "Fast cars, fine ass / these things will pass."
O tipo tem uma barba e bebe muito álcool e outras drogas e deve ser uma pessoa deprimente e difícil de aturar. Mas faz música tão bonita. É difícil ficar chateado com ele quando diz que o Adão e Eva eram judeus. Mas nem tudo é bom. Os bootlegs que apareceram aí dos Silver Jews ao vivo - primeiros concertos de sempre - são sofríveis. Mas ele há-de chegar lá. E, com esperança, cá.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Arthur Lee

Aconteceu-me a mesma coisa quando o John Peel morreu. No dia em que se descobriu que tinha morrido, estava a explicar ao meu irmão quem ele era. "Não sabes quem é o John Peel?" E, pouco depois, ele tinha morrido. Hoje, não faço ideia porquê, quando acordei quis ouvir o Forever Changes dos Love. Alguma vez o teria ouvido pela primeira vez se não tivesse lido que era um grande disco? Não me parece, não é propriamente de um género que me atraia muito, mas graças a listas e listas dos melhores discos de sempre, conheci-o.
E hoje ouvi o Forever Changes. E pensava na personalidade maior-do-que-a-vida de Arthur Lee, da entrevista que ele deu ao Blitz há dois anos ou três anos, em que provava estar completamente louco. Mas não interessa. Há umas semanas, invejava o Robert Christgau, por ter feito 60 anos e ter passado o mês de Junho a ver concertos. Um deles era um tributo aos Love com imensa gente interessante, incluíndo os Yo La Tengo. Lembro-me de pensar que gostava de ser assim quando fosse grande. Mas o Christgau vive em Nova Iorque, esteve lá em quase todas as maiores revoluções musicais daquela cidade dos últimos 30-40 anos, aposto que tratava os seguranças do CBGB pelo nome próprio, etc. Era um artigo bestial, e tinha há pouco tempo comprado a reedição de 2001 do Forever Changes por um preço estupidamente barato. E hoje ouvi o disco.
Não posso dizer que conheça mais discos dele, mas não me lembro de não gostar daquele disco. Agora descobri que ele morreu, no dia em que me apeteceu, não sei por que raio, tirar o disco da caixa e ouvi-lo. É um dia triste.

domingo, julho 30, 2006

TV On The Radio

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi (com atenção) "Wolf Like Me", do último álbum dos TV On The Radio. Tinha gostado, na altura do Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, moderadamente do disco e do Young Liars que veio antes. Com o tempo, veio a crescer. Antes era só "Ambulance", que cedo se tornou umas das minhas canções favoritas de sempre. Nessa noite, estava eu no Incógnito, nem sei bem porquê (tinha ido ao Lounge ver um amigo meu tocar e só tinha chegado no fim e não queria desperdiçar uma viagem de táxi só para ver o final de um amigo meu a tocar), e a DJ passou (disse que era para mim), o tema. Não pensei muito nisso, pareceu-me só mais ou menos, só depois é que veio a revelar-se como uma malha enorme, que mete a um canto quaisquer revivalistas do rock. Como basicamente todas as canções dos TV On The Radio, é uma canção simples, com algumas partes diferentes, mas com uma produção que dá a volta a isso tudo (e a parte final de "We're howlin' forever ooh-ooh", com a tipa dos Celebration, é deliciosa). Ainda não tinha ouvido o Return to Cookie Mountain que, pouco mais de um mês depois, já se tinha tornado num dos meus discos favoritos do ano. Mas ainda não cheguei aí.
Essa foi uma boa noite. Apresentaram-me alguém importante nessa noite (na verdade, reaparesentaram-ma, já a tinha conhecido antes). Foi bom. E hei sempre de associar os TV On The Radio a isso, não só por essa pessoa também ser fã e partilhar comigo o fascínio por "A Method", que se tornou, rapidamente, uma das minhas canções favoritas de sempre. O meu pai está sempre a chatear-me porque, para ele, os Wilco do A Ghost is Born são os Beatles e os TV On The Radio dessa canção, quase só a cappella e percussão (uma progressão de "Ambulance", do disco anterior, outra das minhas canções favoritas, uma das melhores canções de todo o sempre), com um assobio delicioso são os Beach Boys. O meu pai é assim. Para ele, os Pavement são "genéricos". Gosto muito dele, mas pronto. E depois tento provar que não, que os TV On The Radio não são os Beach Boys, mas logo que começa a música ele diz "preciso de dizer alguma coisa?" e assim. São coisas da vida.
Os TV On The Radio são enormes porque soam enormes, épicos, deviam ser muito maiores do que realmente são. Mas soam como se fossem, e, no final de contas, deve ser isso que mais interessa. É música urbana e sofisticada, mas sempre com uma produção que remete para a decadência da sociedade industrial, para o encontrar beleza dentro de um cenário pós-apocalíptico, de encontrar magia num mundo de betão e assim. Claro, David Andrew Sitek é um produtor talentoso e perfeccionista, mas há sempre ali qualquer coisa de selvagem e completamente fodida (tradução do inglês "fucked-up", que não quer dizer a mesma coisa). Os TV On The Radio são a melhor banda de pós-punk da actualidade, por muitas razões, sendo a maior delas não quererem soar ao que soavam as bandas de pós-punk canónicas. E isso é muito mais do que posso dizer de muitas outras bandas de hoje em dia. Têm um dos meus discos do ano, duas das minhas canções de sempre, e uma pessoa de quem gosto muito. E isso chega-me. E, mesmo que passe a vida a implicar com aquilo, valeu a pena ir ao Incógnito naquela noite.

domingo, julho 23, 2006

De alguma forma, sem fazer sentido

De alguma forma voltava ontem do Lisboa Soundz e, numa avenida 24 de Julho cheia de carros, ouvia o Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco. Não sei quando é que se tornou o meu disco favorito de sempre, mas tornou-se. De alguma forma andava por aquela avenida absolutamente impossível, cheia até mais não, e procurava um táxi. E o Jeff Tweedy cantava. Como cantou dezenas e dezenas de vezes. Acho que, desde 2002, quando um 10/10 da Pitchfork me fez dar atenção ao disco, nunca o abandonei, apesar de julgar só o ter compreendido realmente a partir de 2004. Lembro-me, por exemplo, de ouvi-lo em jantares de amigos onde não tinha propriamente nada para dizer, como as canções soam tão melhores assim, à espera de boleia para voltar para casa. Ou num campo de futebol manhoso no inverno (quando anoitece às 6 da tarde ou pouco antes) numa terreola do Oeste que me é querida.
Nunca fui a Chicago, mas, sei lá, se calhar o disco tem alguma coisa a ver com isso. Ou pode mesmo não ter, sei que imagino sempre uma cidade grande quando ouço isto ou duas das minhas canções favoritas do Summerteeth: "How to Fight Loneliness" e "Via Chicago". Não tenho carta de condução, nem sequer sei conduzir, mas de alguma forma imagino alguém a guiar pelo estado do Illinois com aquilo. E, de alguma forma, aquilo faz tanto sentido aqui em Portugal, em Lisboa.
Acho, de alguma forma, o 'Sno Angel Like You do Howe Gelb é dos meus discos do ano. Comprei-o há uns meses, sem ter ouvido antes, e adoro-o. Nunca fui fã de Giant Sand e acho que a culpa do meu amor pelo disco é do coro gospel que o Gelb desencantou em Ottawa. De alguma forma conseguiram pôr o Howe Gelb a abrir praticamente o Lisboa Soundz, e trazer com ele o coro gospel. The Voices of Praise Gospel Choir. Ali, à tarde, com o sol a bater, fez, de alguma forma, tanto sentido. Ele trazia uma camisa preta e um chapéu e deve ser o homem com mais pinta de sempre. Quando for grande gostava de ser assim.
A voz dele é sempre igual, monótona, mas de alguma forma funciona tão bem ao lado do coro gospel. Isso e a sua guitarra dá uma cor especial a tudo, bem como a dos músicos convidados (todos de Ottawa, acho eu). É um tipo carismático, as canções são enormes, e ele sabe como interpretá-las e mostrar o que elas valem. Diz piadas, comunica, etc.
Lembro-me, de alguma forma, de ter gostado de Amorino em 2003. Mas lembro-me que o disco da Isobel Campbell deste ano é uma chatice pegada. Também o foi o concerto dela. De alguma forma, diziam-me - pessoas cuja opinião eu prezo muito, mesmo - que os Los Hermanos são bons. Juntam mpb e indie rock e fazem-no às vezes bem, outras menos bem. Gosto bastante ao vivo, é simpático e tal, mas não me parece que vá pegar muitas vezes neles ou que tenham muita coisa memorável. Contudo, respeito muito essas pessoas e vou tentar mais vezes. Pareceu-me bem, sinceramente.
E continuar com o "de alguma forma" torna-se tão cansativo para mim quanto para quem me ler, por isso não vou fazê-lo. Até é uma coisa bem chata, acho eu, como é a auto-consciência disso e o discutir um texto dentro do próprio texto. Mas é como sai e não há nada a fazer. Não vou dedicar muito tempo aos She Wants Revenge e os Dirty Pretty Things, porque isto costuma ser sobre as coisas de que gosto e não sobre as coisas que odeio intensamente (os DPT são sem o "Intensamente", os SWR são, basicamente, um novo ódio de estimação).
Algures entre os Dirty Pretty Things e os Strokes encontrei um alcoolizado Howe Gelb a passear pelo recinto. Achei por bem dizer-lhe que tinha adorado o concerto e o disco e que o coro funcionava mesmo bem. "Oh yeah, they're amazing", dizia-me ele, parecendo estar tão impressionado com o coro quanto eu.
E então ia eu pela rua à procura de um táxi ao som do meu disco favorito de sempre e a pensar basicamente no que se segue. Há uns 4/5 anos, quando descobri Is This It?, não conhecia nenhuma das pessoas com quem partilhei, de uma forma ou de outra, o dia de ontem. E algumas dessas pessoas são das minhas pessoas favoritas de todo o sempre, gente que espero conhecer e continuar a estimar ao longo da minha vida toda. De alguma forma sei que nunca me fartarei dessas pessoas, como sei que nunca me fartarei do Yankee Hotel Foxtrot. E, enquanto os Strokes tocavam da mesma forma que tocam praticamente todas as noites - suponho eu - aquelas canções, tinha pensado exactamente no mesmo. Claro que as canções do segundo e do terceiro disco não são tão boas, apenas duas, três ou quatro é que chegam aos calcanhares delas, ao vivo. Mas os Strokes conseguem soar como se fossem a maior banda do mundo, durante uma hora e tal, uma hora e meia, será? Não sei. Sei que foram a banda que, de alguma forma, me fez gostar primeiro da Christina Aguilera (os mash-ups geniais, cujo nome, "A Stroke of Genius", diz tudo) e que me deram imenso. São enormes, mesmo que se armem demasiado em guitar heros que não são no último disco, ainda valem a pena.
E pensava nisto à procura de um táxi e depois quando apanhei o táxi e tive de falar com o taxista (os taxistas tanto podem ser as melhores como as piores pessoas do mundo, ontem tive sorte) sobre os perigos da estrada e as pessoas que bebiam e não bebiam e todas essas coisas. Tirei um dos headphones e, de um lado ouvia "Radio Cure", e, do outro, "Crazy Little Thing Called Love" dos Queen no rádio do carro. E, lá no meio, a voz do taxista. E, de alguma forma, fazia sentido.

sábado, julho 15, 2006

Just keep on struttin'

Para o Rui.

No outro dia fui ao lançamento do disco de Double D Force à Flur. Tarde bem passada, com D-Mars nos pratos (lembro-me, por exemplo, do Kurtis Blow e dos Whispers), à beira-rio (o Tejo é tão bonito ali daquele sítio). Pedi ao Rui Miguel Abreu que me recomendasse um disco, porque estava com 10 € no bolso e não concebo uma ida a uma loja de discos sem comprar nada (hoje comprei o Roots do Curtis Mayfield). Procurou e procurou e deu-me para a mão um disco dos Meters e um do David Axelrod. Estava numa de Meters e trouxe os Meters. E ele pediu-me um relatório completo. E aqui vai.
Como não sou grande conhecedor da obra deles, pensava, através de um artigo que li na MOJO de um mês qualquer deste ano, que eram apenas uma banda de funk instrumental. Para isso também ajudou o loop do "1-Thing" da Amerie, a guitarra mais perfeita de sempre e um dos melhores usos de samples de que há memória, numa das melhores malhas deste milénio, uma daquelas canções enormes às quais é impossível fugir. Mas aqui há canções e quase-canções. Chamo "quase-canções" a coisas como "Struttin'" ou "The Handclapping Song", que, respectivamente, têm vozes a imitar galinhas entre palavras de ordem como "Just keep on struttin'" e "Clap your hands now". Esta "Handclapping Song" deu-me aquele prazer que há sempre quando se descobre inadvertidamente um sample usado numa canção qualquer de hip-hop. Era, obviamente, "Clap Your Hands" dos A Tribe Called Quest, do Midnight Marauders. É das coisas de que mais gosto nessa cultura do sampling, a forma como se recontextualiza certas coisas, se parte do antigo para criar o novo, mesmo que não se modifique assim tanto o antigo (e aqui modifica-se), só uma recontextualização traz tudo. Exemplos disso são, por exemplo, "Eye Know" dos De La Soul, uma das minhas canções favoritas de sempre, ou "The Light" do Common, em que o Jay Dee corta e edita uma canção do Bobby Caldwell e cria algo de novo, mesmo que o Common não estivesse lá e só existisse o refrão e a base instrumental que foi limpa e à qual foi adicionada um sintetizador e outros pormenores interessantíssimos. Esse exemplo é paradigmático do criar algo novo do antigo, como retirar de uma canção um verso e torná-lo um refrão, recontextualizá-la para dizer algo de novo.
Mas não é isso que interessa. Os Meters eram uma banda de topo, óptimos músicos, cheios de funk cru e puro e duro, mesmo que não fossem propriamente os melhores escritores de canções de sempre. Passei a "Handclapping Song" na sexta-feira passada no LEFT e não há nada melhor que tentar acompanhar aquelas palminhas, aquele riff de guitarra, e aquelas vozes. Por pouco menos de 10 €, numa tarde solarenga de sexta-feira, à beira-rio, uma lição de história divertida. Ou talvez nada disto faça sentido, mas devia isto ao Rui.

Parvoíces sem sentido sobre Neutral Milk Hotel com a caneta sem tinta e sem editor de imagens

Baseado em factos verídicos

quarta-feira, julho 12, 2006

Inglaterra

Em 19 anos de vida, nunca vi um concerto fora de Portugal. Vi, uma vez, num jardim em Cambridge, os Counterfeit Stones, uma banda de versões dos Stones que, pelos vistos, é muito boa, já que apareceu no Biography Channel ou no Odisseia num documentário sobre os originais. Portugal só vai receber os Rolling Clones, o que é uma pena. Ou então não é pena nenhuma e ainda bem que só recebe uns deles. Porque não há qualquer propósito em haver bandas de versões de bandas que ainda por cima ainda existem.
Mas queria ter ido a um concerto. Li, num ou dois sites, que o Tony Allen ia tocar a um clube em Brixton quando eu estava em Londres. Mas não deu para o apanhar, porque não fazia ideia de onde era o clube. Perguntei a todos os seguranças de discotecas que vi, e nenhum deles tinha sequer ouvido falar daquilo. É bom ver que os seguranças de discotecas são as pessoas mais simpáticas do mundo quando não queremos entrar nelas. Apanhei, contudo, um espectáculo bem diferente.
Milhares de putos com ténis Vans axadrezados saíam da Brixton Academy, vindos de um concerto dos Lostprophets. Eu, que vi os Lostprophets há uns anos numa Deconstruction Tour, tive uma vontade estranha e semi-incontrolável (apesar de tudo, não cheguei a fazê-lo) de gritar que os Lostprophets eram horríveis e me aborreceram de morte quando os vi há uns anos. Havia umas 20 ou 30 t-shirts diferentes deles, todas compradas na própria noite por milhares de putos felizes por terem ido ver a sua banda favorita. Há que dizer que os Lostprophets agora são iguaizinhos aos My Chemical Romance, aos Fall Out Boy ou aos AFI de agora, e estão na frente da revolução emo para quem nunca ouviu Embrace, Rites of Spring, nem sequer Sunny Day Real Estate ou Get Up Kids. E foi este escalão sub-16 que transformou aquilo que era para meia dúzia de alienados e pessoas diferentes em algo tremendamente mainstream. Até bullies com wife-beaters e raparigas giras de peitos avantajados havia, a encher o metro com roupa preta e assim. Ou seja, estes não são os putos que levam porrada, são os putos que dão porrada. É uma mudança radical, mas foi o que aconteceu.
Mas, horas antes, aconteceu uma coisa estranha. Eu, que nunca dei nada pelos Yeah Yeah Yeahs, dei por mim a gostar deles. Não sei porquê, talvez tenha visto o Fever to Tell em promoção, ou assim, fiquei com o refrão de “Maps” na cabeça. E aquilo irritava-me antes, agora não me irrita, de todo, e fiquei com uma vontade tão incontrolável de ouvir aquilo que comprei o raio do disco, se bem que dois dias depois. Deu também para comprar meia dúzia de livros, inclusivamente o Can’t Stop Won’t Stop do Jeff Chang que já comecei a ler (ou melhor, só li mais ou menos a introdução do Kool Herc), e dois da colecção 33 1/3, sobre o In The Aeroplane Over The Sea dos Neutral Milk Hotel (que já li, de tão pequeno que é) e o Meat is Murder dos Smiths (escrito pelo Joe Pernice dos Pernice Brothers).
Pareceu-me uma colecção interessante, mesmo que demasiado bajulatória para os discos em questão. Nenhum disco é perfeito, ou é? Todos os meus discos favoritos têm coisas das quais não gosto. Por exemplo, acho que o Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco ganharia ainda mais se não tivesse a secção de metais no final do “I’m The Man Who Loves You”, acho que o The Queen is Dead dos Smiths ganharia muito mais se tivesse cordas a sério e não sintetizadas, se não tivesse aquele final parvo do “Vicar in a Tutu”, como quem não quer acabar aquilo e se não tivesse aquela voz do Morrissey com o pitch mudado no refrão de “Bigmouth Strikes Again”. Curiosamente, não me lembro de nada de que não goste no In The Aeroplane Over the Sea, mas pronto. É bom saber como o disco foi feito e produzido, e como é que o Jeff Mangum passou de génio a recluso, mas sem querer seguir o Syd Barrett (que, entretanto, morreu e eu não sabia), mas sim o Robert Wyatt, na parte de voltar 10 anos depois. Ora, 2007 está aí ao virar da esquina, e a melhor pior voz de sempre podia bem voltar.
Perdi o Tony Allen, ganhei os putos emo, os livros, os discos, as casas sempre iguais no campo inglês, aqueles tijolos cor-de-laranja que eu aprendi a não odiar e a achar extremamente confortáveis e, especialmente, o sorriso da minha bisavó que, aos 97 anos, ainda é a melhor pessoa de todo o sempre.

quarta-feira, junho 21, 2006

Desilusão do ano

O meu coração está dividido. Por um lado, gostei mesmo dos últimos discos dos Belle & Sebastian. Dos últimos dois, mesmo o novo sem a magia do Trevor Horn. Já o tinha dito por aqui. Tinha mesmo vontade de vê-los ao vivo, o Tom Breihan diz que são óptimos ao vivo e se tornaram realmente bons a tocar aquelas canções do disco, com bons instrumentistas e profissionais qb. Mas o Tom Breihan vive em Nova Iorque, uma cidade em que tudo se passa todas as semanas, e onde não se põe o problema que agora enfrento e que dá a volta à minha jovem cabeça.
Longe vão os tempos em que Lisboa era uma "Ghost Town", como os Specials tão eloquentemente disseram nos anos 80. Para dizer a verdade, nunca os vivi. Comecei a ir a concertos regularmente e por vontade própria aos 13 anos. Desde essa idade, e já vão seis anos, nunca me pude queixar muito de bandas que não vinham cá. Agora ainda menos. Claro que não estamos em Nova Iorque, nem sequer em Londres ou em Barcelona, mas as coisas vão acontecendo com mais ou menos atrasos. Nem sequer vou falar das vozes que se apressaram a tratar o concerto dos Arcade Fire em Paredes de Coura como algo que aconteceu imediatamente em Portugal, dentro do tempo e tal, quando Funeral, quer se queira, quer não, saiu em 2004 e não em 2005 e toda a histeria gerada à volta dele em blogs de mp3 e em webzines e na imprensa americana aconteceu em 2004. Ignorar isso é ignorar que ninguém espera pelas datas de edição europeia, e ignorar a imprensa estrangeira e, basicamente, ser muito cego e viver num casulo. Mas em Nova Iorque não há problemas se o Kanye West e os Belle & Sebastian derem um concerto na mesma noite. Provavelmente há um novo concerto duas semanas depois e ninguém se chateia.
Os Belle & Sebastian já vieram cá há uns anos ao Sudoeste, mas ninguém me convidou para ir e convidaram o meu irmão. Nunca mais o perdoei, ainda por cima nem teve de acampar e aposto que dormiu normalmente, ao contrário de mim no ano passado. Ele viu-os, mas na altura Dear Catastrophe Waitress e o funk choninhas ainda não eram uma realidade. Agora já são uma realidade ultrapassada e eu estava mesmo excitado por vê-los. Mas na Mojo portuguesa, a revista Blitz, que lida maioritariamente com artigos de fundo e música do passado (ou pelo menos de protagonistas do passado, esta primeira capa tem os Rolling Stones), e que está muito bem conseguida desse ponto de vista, veio a notícia: Kanye West vem a Portugal no dia 17 de Julho.
Kanye West nunca esteve cá, não vende assim tantos discos em Portugal, mas algo me diz que esgotará o sítio (onde quer que seja) onde actuará. Mesmo que duas experiências me digam o contrário (a minha primeira prestação como DJ alcoolizado num parque de estacionamento subterrâneo ao pé da antiga FIL na minha gala de finalistas, em 2004, onde "Slow Jamz" foi recebido como se fosse um tema dos Wolf Eyes ou assim, com total desprezo das pessoas; o mesmo tema, dois anos depois, no carnaval, para meia dúzia de tipas que lá foram jantar a casa que, até essa altura, não se queixaram de nenhuma das produções dos Neptunes, da Missy Elliott, nem da M.I.A.), o que me leva a pensar que os adolescentes de classe média mainstream portugueses ignoram totalmente a pura diversão que é esse single (aquelas frases sobre o Michael Jackson são clássicos modernos). Mas não ignoram a obra-prima e o enorme banger gospel que é "Jesus Walks". E é em Oeiras ou em Sintra, Cascais é ali ao lado, por isso não deve haver problema nenhum em encher aquilo.
Há três hipóteses que me levarão aos Belle & Sebastian: a data do Kanye West estar errada, o Kanye West actuar muito mais tarde ou os bilhetes para o Kanye West esgotarem e eu não conseguir arranjá-los. Mas, provavelmente, as miúdas giras e tímidas com ganchinhos nos cabelos e óculos de massa terão de esperar. Isso e a música dos Belle & Sebastian, que também interessa um bocado, mas não tanto. Mesmo adorando ambos, algo me diz que o Kanye West se tornou num dos maiores artistas da actualidade, a julgar pelo Late Orchestration que eu só vi uma vez ao longe numa loja mas me pareceu muito bem. É triste, mas são coisas que acontecem, e é saudável podermo-nos dar ao luxo de ter coisas tristes destas em Lisboa em 2006.

sábado, junho 17, 2006

Cat Power

Muito tem sido dito por causa da forma como Chan Marshall deixou de ser aquela louca maníaco-depressiva sensível drogada, etc. que tanto podia escrever as canções mais bonitas do mundo quanto parar a meio de uma canção ao vivo e começar a chorar ou a contar histórias sem piada. Não vou dizer muito sobre isso, até porque não a vi no Festival do Porto há três anos e, especialmente, porque as palavras não conseguem descrever isto:



Ela dança e canta com uma voz belíssima no David Letterman, até faz a dança da galinha, está descalça, tem bling-bling ao pescoço, não sei mesmo o que dizer. Não sou pessoa de deixar aqui vídeos, mas não há outra maneira de falar disto. Ah, sim, e a capa do The Greatest, não sendo feia, impede-me de comprar o disco porque aquele cor-de-rosa me deixa enjoado (e isto não é uma piada).

Yo La Tengo

Apareceu hoje por aí o novo disco dos Yo La Tengo. Pelo menos parece ser. As faixas parecem não estar completas, sempre com fade-out um bocado estranho (o disco sai em Setembro). Chama-se I'm Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass, um nome horrível, mas desculpamos sempre aos Yo La Tengo aqueles nomes enormes que não fazem assim muito sentido, mesmo que este seja anormalmente mau. Não sei porque é que fico tão contente e excitado quando aparecem discos de bandas de quarentões quase cinquentões por aí (estou a mentir, só aconteceu outra vez este ano, com o Rather Ripped). Mas fico e não costumo sair-me muito mal.
Tem canções bonitas. Adorei a melodia de "Beanbag Chair", a voz do Ira Kaplan está cada vez melhor, com o piano e a secção de metais, "I Feel Like Going Home", a voz da Georgia Hubley continua sempre óptima, com a guitarra suave e a secção de metais, o cowbell, o falsete e o groove de "Mr. Tough", muito brasileiro, muito big band genérica dos anos 60. A voz dele (é a voz dele?) é tão frágil que fica tão esquisita e ao mesmo tempo soa tão bem em falsete. "Why don't you meet on the dancefloor?", canta ele, longe, mas tão longe de "The Last Days of Disco" de ...And Then Nothing Turned Itself Inside-Out.
A forma como as vozes do casal se entrecruzam em "The Race is On Again" mostra porque é que são uma das melhores bandas de rock do mundo, uma das últimas grandes. A voz da Georgia é tão infantil, mas bem menos infantil que a da sua predecessora óbvia, a Moe Tucker dos Velvet Underground, no campeonato de bateristas que cantam com vozes angelicais. E depois tudo pára quando ela canta "yesterday" e volta a entrar. E entram as linhas de baixo do James McNew. E logo a seguir canta por cima de baixo cheio de fuzz (ou talvez seja teclado), percussão psicadélica, pratos de choque e teclados aqui e ali, de uma forma tão blasé que funciona tão bem, especialmente nos "ah-ah".
Há madeira a arder (ou pelo menos soa como isso) no meio de Instrumental, dois acordes na guitarra alternados ad nauseam, com piano aqui e ali e outra guitarra atmosférica arranhada de forma suave e uma outra guitarra também de vez em quando. Muito cinemático. Parece ser um disco variado, da primeira faixa devedora dos Yo La Tengo dos anos 80, com uma malha de baixo repetida até à exaustão, num resultado não muito bom, em que Ira Kaplan esconde a sua voz por baixo de efeitos, até esta "Instrumental". A seguir a isto vem a parte dos anos 50/60. "I Should've Known Better" é rock'n'roll britânico dos anos 60, mas passado pelo filtro YLT, canção imediata, rápida e eficaz, sem rodeios. "Ronnie" é rock'n'roll clássico, mas a meio pára para um break com sopros e logo a seguir para um só de bateria. Muito fuzz e um solo simples.
"The Weakest Part" é muito country, mas com um piano honky-tonk, com a voz da Georgia e o Ira Kaplan a fazer harmonias de voz com ela em "ah-ah" lá atrás. "Tonight" é uma canção bem bonita, se bem que não me pareça que a guitarra tipo Byrds funcione muito bem lá no meio. "Happiness is a Warm" não é uma versão dos Beatles, mas antes, sei lá, como a música do genérico do Batman, com os papéis do casal de "The Weakest Part" trocados (Ira canta, Georgia faz harmonias por trás). "The Story Of" é a "Sugarcube" ou "Cherry Chapstick" que todos os discos de Yo La Tengo têm de/deviam ter, mas começa de forma muito calma (a bateria só entra aos 2 minutos e meio), mas é uma canção muito menor que essas duas.
Isto é só à primeira audição. A maturidade de que falava no caso dos Sonic Youth já chegou aos Yo La Tengo há muito tempo. O falsete do Ira Kaplan é um bocado estranho, em "Sometimes I Don't Get You" também dá ares da sua graça. A verdade é que os Sonic Youth são uma banda de rock'n'roll e continuarão a ser. Sempre com aquelas guitarras distorcidas, aquela dissonância, as vozes pouco polidas, os harmónicos patenteados, enquanto os Yo La Tengo vão buscar inspiração a estilos dos anos 60, à pop e ao soft-rock, com bocados de bossanova ou surf-music aqui e ali. Funciona realmente bem com eles, escrevem melodias mesmo bonitas e algumas óptimas canções, mas não sei se este novo disco é o que eu queria deles. Mais uma vez, é só à primeira audição. Em termos de casais quarentões do rock, continuo a preferir o Rather Ripped este ano, mesmo que, fora deste disco, os Yo La Tengo tenham das minhas canções favoritas de sempre. E isso é um bocado difícil de ignorar.

quinta-feira, junho 15, 2006

Coisas que aprendi nos últimos dias

1. O Noo Bai é dos melhores espaços para se estar em Lisboa.

2. Adormecer ao som de Sonic Youth a meio da tarde e ir no 23 e ele não fazer o desvio para o Pólo Universitário da Ajuda porque é feriado e está a chover são basicamente as melhores coisas que podem acontecer na vida de alguém.

3. O kuduro progressivo é o baile funk português.

3.1. O Adamastor pode ser um bom sítio de vez em quando (também serve como 1.1).

4. O DJ Shadow faz provavelmente a manobra menos comercial da vida dele, virando-se para o hyphy, e toda a gente protesta, dizendo que é comercial, que ele se vendeu, e que o que faz agora é igual ao que passa na MTV (nunca vi hyphy na MTV, nem na MTV Base).

4.1. O Armando Teixeira é fã de wife-beaters e nunca ninguém se vestiu tão mal quanto o DJ Shadow.

5. O The Squid and the Whale (óptima companhia+constatação de que até o puto Jesse Eisenberg - mais velho que eu, contudo - faz uma versão numa guitarra desafinada do "Hey You" dos Pink Floyd que mete a um canto a foleira versão original) é como um filme do Wes Anderson, só que é passado no mundo real. Quando no final apareceu o nome dele como produtor fez-se luz na minha cabeça. Gosto e quando for grande quero ter uma barba como a do Jeff Daniels.

sábado, junho 10, 2006

Sonic Youth

O que é a maturidade? Hoje, na Praça Camões (sempre pensei que fosse um largo, por se dizer "O Camões"), uns quantos boneheads estavam reunidos para celebrar o 10 de Junho. Aquele tipo do PNR que tem um bigode ou um bigode uma pêra e que parece ser dos tipos mais ridículos de sempre, o tipo que diz que a segurança é mais importante que a liberdade mas invoca a liberdade para poder dizer as barbaridades que diz, estava lá a discursar.
Esta gente hoje em dia diz que é muito respeitadora e só faz manifestações pacíficas, mas um tipo qualquer estava prestes a ser espancado, e teria sido se a polícia não estivesse lá. "Este gajo espancou um amigo há duas semanas!", diziam eles, ou algo parecido. E, referindo-se à cor da pele do polícia a quem o tipo se tinha dirigido, "só estás protegido ao pé dos macacos", "quando te apanharmos matamos-te".
Têm mais 10 anos, no mínimo, que eu, idade para ter juízo, mas quando se junta um intelecto superior ao consumo exagerado de cerveja e a assistir-se a demasiados jogos de futebol dentro das claques onde se espanca o adversário porque é de um clube diferente (faz tanto sentido quanto odiar o próximo porque é de um país diferente, e sentir orgulho exacerbado e violento no próprio país porque é aquele onde se nasceu). Será que são maduros?
Não sou adulto, não me parece que alguma vez vá ser, mas é suposto esta gente ser adulta. O tipo do PNR tem mais de 30 anos, veste camisa e gravata, não é suposto ser adulto? Quando passei por eles, tinha acabado de comprar o Rather Ripped. Supostamente ainda não saiu, mas já está à venda numa certa loja de origem francesa, como aconteceu, por exemplo, com o Feels dos Animal Collective no ano passado. É capaz de ter acontecido com outros discos, mas não estou a ver nada agora. Hoje em dia já não interessa muito a data de saída dos discos, não tanto quanto há 10 anos, ou há 20, quando a data de saída era uma celebração.
De qualquer forma, dizem que os Sonic Youth são maduros, atingiram a maioridade. Faz sentido, têm todos mais de 40 anos, são pais, filhos, vestem-se de forma mais ou menos respeitável (o Lee Ranaldo aparece em muitas fotografias promocionais, e no próprio disco, de camisa e gravata). Musicalmente, têm muito menos tendência para explodir em milhentos pedaços de puro barulho a meio das canções (e quando o fazem parecem muito mais disciplinados, mais uma vez, que há 10 e 20 anos), estão muito mais melódicos e mais pop. O Thurston Moore é fã de Be Your Own Pet, uma banda convencional de acordo com os padrões de hoje, que soaria fresca há uns 20/30 anos, o que poderia significar algo, mas não significa muito. Ainda é um dos responsáveis da Ecstatic Peace, ainda toca de vez em quando com os Sunburned Hand of the Man como Sunburned Hand of Thurston, e continua a ser como um mecenas da cena underground. O Lee Ranaldo ainda tem discos chatos de improvisação livre na guitarra, o próprio Moore também toca em discos desses, etc.
A capa de Rather Ripped é feia, mas lá dentro escondem-se muitas óptimas canções, e até a do Lee Ranaldo soa estranhamente pop. Ainda nenhum deles sabe cantar a sério, mas as suas vozes estão melhor do que nunca, especialmente a da Kim Gordon. É viciante e orelhudo (odeio esta palavra, prefiro o inglês catchy) ao mesmo tempo, com guitarras ultra-melódicas, refrões onde se repete uma única palavra, mas sempre com estruturas não muito convencionais onde há espaço para passagens instrumententais óptimas que nunca se tornam cansativas, só há um verdadeiro freak-out digno desse nome, em "Turquoise Boy", mas muito controlado e estruturado, e as dissonâncias e os arranhões nas guitarras estão em segundo plano, muito ao de leve. Há espaço para folk na última faixa (ainda há uma bónus), com guitarras acústicas e com a melhor pergunta de sempre para acabar um disco: "Which came first? The music or the words?", mesmo que o venha antes não seja grande coisa (perguntas a bandas e histórias de tournées, algo que não interessa a mais ninguém a não ser à própria banda). Mas os Sonic Youth fazem isto com uma perna às costas, melhor do que ninguém, e é isso que faz deles uma das melhores e maiores bandas do mundo. Sente-se a falta de Jim O'Rourke, mas mais em termos de produção do que qualquer outra coisa, a banda funciona perfeitamente - como sempre funcionou até ele aparecer - como um quarteto. E agradecem-lhe no booklet, por isso ele voltar não parece estar assim tão fora de questão quanto isso.
Talvez seja este o som da maturidade, o som de gente a entrar na casa dos 50 já bem instalada e sem paciência para grande experimentação. Mas não é, eles ainda sabem fazer aquelas coisas esquisitas que sempre fizeram, os dias de hoje é que são mais propícios a uma separação entre a componente experimental e a componente pop. Não sou adulto, não sou maduro, não me parece que alguma vez vá sê-lo no verdadeiro sentido da palavra, mas se este é o som da idade adulta, tenho muito por que esperar se ela alguma vez chegar.

sexta-feira, junho 09, 2006

Divagações livres sobre a associação Primo+X-Tina

Lápis é uma má escolha

(dá para perceber que o lápis é uma má escolha e que vale sempre a pena perder tempo à procura da caneta de acetato preta, peço desculpa por qualquer incómodo causado, é uma canção porreira, quase só percussão e sopros, com uma guitarra funky aqui e ali e scratch a condizer, e a voz dela chega até lá acima a meio mas de uma forma nada foleira nem forçada só para a distanciar mais da Britney Spears, ao contrário do que seria de esperar dela)

Sell out

By the way, if anyone here is in marketing or advertising... kill yourselves. Just planting seeds... No joke here, really, seriously, kill yourselves. You have no rationalization for what you do, you are Satan's little helpers, kill yourself, kill yourself, kill yourself now. - Bill Hicks

Talvez seja assim. Talvez não seja assim, porra. A propósito da malta da Elephant6, li há uns tempos, talvez no ano passado, um artigo acho que do New York Times, já com alguns anos, sobre a música na publicidade. Falava de como os Apples in Stereo reagiram às críticas dos fãs quando venderam um tema deles para publicidade (são um casal e tinham acabado de ter um filho e puderam finalmente comprar uma casa, mas os fãs estavam devastados porque era suposto eles serem muito underground e tal). Precisavam mesmo de dinheiro e venderam a alma ao diabo ou então a um carro, não sei. Nunca tive grande paciência para a maior parte da malta Elephant6, mas o Danger Mouse trabalhou com aquela gente numa loja de discos e chegou a fazer remisturas de Neutral Milk Hotel - Neutral Milk Hotel e Of Montreal são as duas únicas bandas de que gosto mesmo naquele universo -, por isso está tudo bem. O que até mostra mais promiscuidades com o mainstream. Mas não ficam por aí. Para um "colectivo" (não sei o que lhes chamar) que venera os Beach Boys e tem de tê-los em tudo, não faz muito sentido pensar em vender-se ou não, nessa velha questão parola.
Os Clash vendem carros, os Beatles também, a MTV abusa dos seguintes artistas em separadores e nos The Fabulous Life of...: Jurassic 5, Common, New Pornographers, Ted Leo & The Pharmacists, etc., por isso já nada dessas coisas fazem sentido. Mas não é por aí que quero ir. A primeira vez que ouvi o que quer que fosse do Jim O'Rourke foi há alguns anos, num anúncio da TMN. O tal artigo do New York Times dizia que os jovens que gostavam de música estavam a crescer, e que, como tal, arranjavam empregos em empresas de publicidade e assim e sacrificavam os seus ideais de juventude e punham a música de que gostavam nos anúncios. O anúncio da TMN era de uma campanha natalícia, e era o princípio de "Prelude to 110 or 220/ Women of the World", do Eureka. Lembro-me que na altura queríamos ter uma banda e, nesta varanda onde me encontro agora, juntámo-nos porque um de nós tirou de ouvido o riff de guitarra. Outro cantou, outro tocou bateria (ou o mesmo, não me lembro de nada), gravámos tudo no MiniDisc e eu não fiz nada a não ser tocar no botão para gravar. Dois de nós acabaram nos We Shall Say Only The Leaves, por isso deve ter sido uma experiência mais ou menos positiva.
Para mim, o próprio conceito de alguém se vender desvanece-se quando se começa a perder um preconceito quanto à música pop e, apesar de eu respeitar a integridade e o caraças do Q-Tip ou do Talib Kweli, por exemplo, não me posso esquecer que o Q-Tip canta o refrão no "Girls, Girls, Girls" do Jay-Z (um óptimo tema, e eu adoro o Jay-Z) e que o Talib Kweli aparece em reality-shows da MTV ao lado da Cameron Diaz e do Justin Timberlake. E ambos recorrem às produções dos Neptunes. Porque aí, longe do punk parvo que ouvia quando era ainda mais novo, e onde estas parvoíces faziam sentido (a Epitaph e a Fat Wreck e a Victory são editoras como todas as outras, o objectivo é vender), o que interessa no final de contas é a música.
Mas quando, por exemplo, ouço o novo tema dos Jurassic 5 que apareceu por aí, é o Dave Matthews que estraga tudo. Lembra-me aquele tema dos Long Beach Dub All Stars (eu era fã de Sublime na minha juventude mais longínqua) com os Black Eyed Peas horrivelmente mau, naquela mistura de "estamos na praia aqui todos boa onda" e hip-hop (só que os J5 são bons e os Black Eyed Peas nunca foram, por muitos Q-Tips que enganem para aparecer nos seus discos) que faz o genérico de uma das piores séries de sempre - Joey, e eu até gosto de Friends -, e, se isso já nem fazia sentido em 2001, muito menos em 2006, especialmente com a responsabilidade que os Jurassic 5 têm. O que interessa aí nem é o vender-se, provavelmente os Jurassic 5 vendem mais que a Dave Matthews Band (ou venderiam, num mundo justo), mas esta tentativa não só de juntar artistas bons e artistas maus (por muito bem que a banda do Dave Matthews toque, aquilo é horrível), mas também de os Jurassic 5 fazerem coisas sem o Cut Chemist, não resulta nada bem.
Mas, claro, há certas companhias que são o demónio, há certos artistas a quem nem devemos dar dinheiro, há certas coisas que fariam o Joe Strummer revirar-se na sua campa, e quem faz publicidade não devia conseguir dormir à noite, no final de contas o que conta é a música. E há demasiada música boa por aí para alguém ter preconceitos contra o que vende, contra o que ajuda a vender e contra o que é feito para vender. Ou talvez não e talvez devamos ignorar tudo o que passa na MTV (mas não o que passa na MTV2), por o mainstream era bem melhor nos anos 80 e já não se faz música a sério, valha-nos os revivalistas, viva os Editors que são os Interpol com sotaque inglês e os Bloc Party, só para dizermos que não somos racistas e gostamos de música negra.

quarta-feira, junho 07, 2006

Deerhoof=melhor banda pop da actualidade?

Não me lembro, e já passaram 6 meses, de este ano ter estado tão excitado por ver uma banda como estava ontem para ver os Deerhoof. Mas tinha também um certo desgosto pelo azar com que todos apanhámos por Chris Cohen ter saído da banda há muito pouco tempo. E duas guitarras nunca podem ser apenas uma guitarra, só em certos casos, por isso perde-se sempre um bocado, especialmente se a banda ainda não estiver habituada a tocar como um trio e não um quarteto.
Há uma girafa embalsamada - se for mesmo uma girafa é algo repugnantemente vil e cruel - no meio da pista de dança do Lux, à qual já não ia há alguns meses e que foi recentemente remodelada. Nem parece o mesmo espaço. Tirando a inexplicável girafa lá no meio, até é um bom espaço, acolhedor e simpático.
Parece que os Lobster são uma boa banda de abertura, mas merecem menos do que 45 minutos. Têm poder e força, mas não pude deixar de me aborrecer de morte lá para o meio. Felizmente ainda tinham um ou dois truques na manga que acabaram por compensar mais ou menos. O guitarrista toca no meio do público e não tenho propriamente nada contra isso, só torna a coisa um bocado difícil de ver e assimilar, mas também não estraga muito. Já não querem ser só os Lightning Bolt, o que é muito bom, porque também não têm sensibilidade pop para escrever um "Dracula Mountain". A guitarra sempre suja e a bateria sempre a partir podem dar coisas muito simpáticas, numa coisa que se distancia imenso dos Fish & Sheep, talvez por ter muito menos improviso, mas que pode resultar em algo igualmente catártico. Só não é bom para ver durante muito tempo.
A Satomi Matsuzaki tem, no máximo, um metro e meio. O ar japonês não engana ninguém, só faltava uma farda e podia ser uma colegial de 6 anos. Apeteceu-me, não sei porquê, dizer-lhe que ela era a minha heroína pessoal. Se calhar é, da voz aguda de criança à postura em palco, a fazer aeróbica com o baixo na mão, a abrir as pernas e a saltar, a fazer aqueles gestos coreografados divertidíssimos, a armar-se em crooner de jardim-escola a cantar para um coelhinho, tem tudo para ser um exemplo a seguir por mim. Ela limitou-se a agradecer, com um sorriso falso e cordial nos lábios daqueles que só os asiáticos sabem fazer, com a cabeça a abanar para cima e para baixo.
John Dieterich é o melhor guitarrista do mundo. Greg Saunier é o melhor baterista do mundo. O primeiro adora fazer caretas enquanto nos dá aqueles riffs e aquelas melodias, as mais bonitas, doces e açucaradas de sempre, a abrir a boca, a mexê-la, como quem está a domar a guitarra, mas também sabe arranhá-la quando é preciso mostrar aos Lobster quem manda nesses campos barulhentos. O segundo também adora caretas, tem uma t-shirt que deve ser a parte dois da capa do Milk Man, com o desenho de um monstro horrendo feito de fruta e outras coisas. Adora ritmos estranhos e peculiares, mas que se entranham na cabeça de uma forma especial, cheios de apelo pop.
Estava realmente feliz por estar ali, conhecia quase todos os temas, especialmente porque foram buscar na maioria na maioria das vezes canções aos três discos que conheço melhor, Apple O', Milk Man e Runners Four. "Flower" estava numa versão diferente da que está em disco, talvez pela falta de Chris Cohen, ou por a banda pura e simplesmente se ter fartado de tocar como estava, mas não resulta assim tão bem. É só Satomi a dizer "flower flower flau ooh aah", e perde um bocado de forma diferente. As coisas que soaram melhor foram as de Runners Four, talvez por ser o último disco, por serem mais recentes, mas também talvez por a banda ter atingido uma certa maturidade (Apple O' tem as melhores melodias, Milk Man os melhores riffs e Runners Four as melhores canções).
Já não se fazem bandas assim, nem se podem fazer, sempre a mudar, sempre com novas ideias (a Eurovisão em Green Cosmos, os jogos de vídeo em Se Piangi Se Ridi, etc.). Sabem ser experimentais e pop ao mesmo tempo, juntar canções e barulho quando é preciso, sabem ser doces e amargos e sabem entreter. E sei que, como hoje acordei e tive vontade de ir para a escola a ouvir o Murray Street dos Sonic Youth, os Deerhoof serão sempre uma das bandas a que eu recorrerei quando quiser, quando me apetecer, a razão pela qual acordo de manhã e a razão pela qual volto para casa todas as tardes ou noites ou assim. As batidas do monstro da bateria e os riffs do homem constantemente boquiaberto estão sempre na minha cabeça, bem como a voz e o baixo da japonesa quase anã que gosta muito de dançar levantado as pernas e mostrando as meias de criança e os ténis Vans amarelos. Os Deerhoof sabem criar melodias viciantes e boas e transformá-las em canções, e mesmo que não o façam - só o fazem constantemente agora a partir de Runners Four - dão sempre brincadeiras interessantes com refrões e versos viciantes e todas aquelas partes ruidosas. É por isso, por serem a melhor banda pop da actualidade, foram escolhidos, no passado, para abrir para os Wilco e, no presente, para abrir para os Radiohead. Porque nenhuma destas bandas se pode contentar com pouco e os Deerhoof têm muito para dar.

domingo, junho 04, 2006

Band of Horses

Não devia gostar mesmo nada dos Band of Horses, nem de "The Funeral", mas os Band of Horses são a melhor banda de "ouve esta canção, vai mudar a tua vida" de 2006. Tudo neles parece tão pensado, tão estudado, a voz do tipo (não tanto a voz, mas mais a forma de cantar) é mesmo quase igual à do tipo dos Shins, as letras parecem talhadas para o eixo MSN/Livejournal/MySpace/Hi5, mas pelo menos são a segunda banda em dois anos (a outra é Arcade Fire) a usar a palavra "funeral" não sendo um bando de góticos (o que é perfeito, tendo em conta a quantidade de góticos idiotas que podemos ver na rua no verão vestidos com imensa roupa preta e a aguentar aquele calor todo - isto não é ódio, é inveja).
Do riff de guitarra inicial à explosão controlada do refrão, passando pelos "ooh-ooh" do verso, "The Funeral" não devia ser mas é uma das melhores canções do ano. É, em quase tudo, perfeita, mesmo que soe como se tivesse sido feita para brilhar num remake do Garden State. E soa bem em quase todo lado, tanto no meio quanto no fim de DJ sets de rock, de electrónica, de hip-hop, do que quer que seja. Calha sempre bem.
A tentar, os Band of Horses escreveram a canção rock perfeita. Será que o facto de ter sido propositado (ou de soar como tal, aquilo parece ter sido criado com a ajuda de um manual ou assim) devia estragar alguma coisa (por exemplo, as piadas daquele anormal da bóina da Revolta dos Pastéis de Nata parecem tiradas de um manual e quase nenhuma delas tem piada por já as termos ouvidos mil vezes)? É que não estraga, e ainda bem.

quinta-feira, junho 01, 2006

Belle & Sebastian

A minha mãe não gosta dos dois últimos álbuns de Belle & Sebastian. Acha-os chatos e aborrecidos. É grande fã do Sufjan Stevens (adora o Illinoise e o The Avalanche, acha o que o Michigan não é grande coisa), de Kings of Convenience e de Elliott Smith. Mas das duas vezes que lhe dei para as mãos os dois últimos discos de Belle & Sebastian ela odiou. Para mim os Belle & Sebastian começam no Tigermilk, têm um ou outro EP, um ou outro tema na banda sonora no Storytelling e aqueles dois últimos discos. Nunca tive paciência para [descobrir] o resto, mas acho que a produção do Trevor Horn ajudou imensamente a banda e trouxe ao mundo a invenção do funk choninhas, no Dear Catastrophe Waitress, para depois o esquecerem com o The Life Pursuit.
No outro dia estive indeciso entre comprar o The Life Pursuit ou o Blueprint do Jay-Z. Não sei porquê, comprei o The Life Pursuit. Um bocado depois comprei o Blueprint, finalmente, mas naquela altura pareceu-me a escolha acertada. Não que não ache que o Jigga tem imensa pinta naquela capa com o charuto na mão, mas a embalagem do Life Pursuit é um livro e tem escocesas bonitas na capa (e no próprio livro), e estão vestidas de uma forma deliciosa que espero que influencie todas as meninas de ganchinho no cabelo que rumarão ao Coliseu em Julho. Claro, são tão ou mais influenciáveis que o resto das raparigas, e talvez muito mais limitadas musicalmente falando (fugiriam só de ouvir o nome "Jay-Z" ser pronunciado) mas como são indie dá-se o desconto (e os ganchinhos, porra).
Talvez a minha mãe tenha razão. Talvez os Belle & Sebastian devessem voltar com um coração partido ou uma coisa assim. Evoluíram de reis da pop choramingas escocesa para reis da pop kitsch escocesa. Mas no final é como diz uma amiga minha, sobre a série Less Than Perfect, a tal da ruiva rechonchuda: "Ela emagreceu e deixou de ser tão gira." Ela é gira de qualquer maneira, mas antes havia uma graça qualquer especial. Continua a haver uma graça especial, mas agora é outra. Talvez se passe o mesmo com os Belle & Sebastian, mas no final de contas, são ambos a mesma pessoa e a mesma banda, não mudaram assim tanto.

Divagações livres sobre Cam'ron e Jay-Z

Cam'ron

domingo, maio 28, 2006

Divagações livres sobre Wilco

Wilco
(em defesa deles, não há melhor que quando o Tweedy brinca aos falsetes mais ou menos a meio da canção, com aquela voz fraca e frágil que funciona tão, mas tão bem, e esta é bem capaz de ser a canção mais country deles desde antes do Yankee Hotel Foxtrot, as outras faixas de que falo no texto são "Just a Kid", a primeira com o Nels Cline, da banda-sonora do Spongebob Squarepants, escrita para o filho do Tweedy, power-pop do melhor com coro de crianças e "Kicking Television", do álbum ao vivo homónimo, rock'n'roll com bons riffs e gritos do Tweedy)

quarta-feira, maio 24, 2006

Grindie

Não sou fã de grime, muito menos daquilo a que se chama indie neste contexto, mas grindie é a melhor coisa do ano. Não sei há quanto tempo existe, só tomei conhecimento com esta prática de misturar o melhor dos dois mundos recentemente. Alterar o pitch, adicionar umas batidas e umas rimas podia parecer banal, mas não soa a nada disso. Como a malta do grime não é obcecada com a história, com a validade musical, com a pretensão e o caraças de seguir regras, estas coisas soam sempre urgentes e genuínas e livres. "Livre" no sentido de não se saber onde as coisas vão parar, de não se poder conter isto de forma nenhuma, sei lá, como me parece a guitarra do Ali Farka Touré no princípio do Talking Timbuktu - não tem nada a ver, mas vem-me sempre à cabeça quando penso em coisas que não podem ser contidas de forma nenhuma, tal é a sua urgência. Saiu assim porque é assim que as coisas saem, fez-se e pronto.
Gosto, por exemplo, dos exemplos mais mainstream saídos do grime, como o Kano ou o Dizzee Rascal, mas nunca tive muita vontade de aprofundar a cena toda (é demasiado extensa/não me atrai assim tanto), mas parece-me um movimento actual e válido, como o funk de favela, ou kuduro (apesar de odiar isto, parece que algo como os Buraka Som Sistema ou assim tem muito de válido, tanto que convenceram o Diplo - ultra-fã destes movimentos de rua ultra-chungas - a aprofundar esta cena) ou o que quer que seja, com as pessoas no meio da rua a fazerem música como sabem, sem ter qualquer conhecimento musical, sem provavelmente ter ouvido quantidades industriais de música, só para pôr as pessoas a dançar ali no meio. Parece um bocado isto, o grindie. Os Interpol ou os Bloc Party ou os Strokes ou essas bandas todas pensadíssimas ao pormenor (sem juízos de valor, até gosto das três bandas, moderadamente da do meio e um bocado mais das outras duas) juntas com os Blondie ou os TV on the Radio ou sei lá mais o quê numa das coisas mais cruas e puras que pode haver. E as festas parecem ser demasiado divertidas para ser verdade.
O grindie é a playlist do Incógnito mas em bom.

Divagações livres sobre Lupe Fiasco

Lupe Fiasco

terça-feira, maio 23, 2006

Maxime <3 Sopranos

No Marquês de Pombal fica-se sempre de 15 a 20 minutos à espera do autocarro. Isto transforma uma viagem de 5 ou 10 minutos de carro numa de uma hora de autocarro e metro. É belíssimo. Para tentar evitar o calor - o que é muito difícil, visto a paragem estar horrivelmente mal feita, por ser "temporária" (já lá está há uns dois anos, viva o ser temporário) -, temos de nos tentar abrigar e esperar a nossa vez. Vão passando muitos autocarros, acho que o 11 vai para a Damaia, o 48 para Miraflores e o 83 para as Amoreiras (directo). O 23 nunca chega. Também podemos observar os táxis e carros que não param de passar, sendo até que alguns deles podiam ter-nos morto apenas momentos antes (é uma grande aventura atravessar a rua, especialmente se o autocarro que queremos apanhar estiver perto (é que 20 minutos ali são 20 minutos horríveis). As probabilidades de num desses carros ou táxis estar um actor da série Sopranos são cada vez maiores.
O Maxime não pára de ressuscitar artistas famosos da nossa praça que já estão para morrer nem de trazer a Portugal actores da referida série. O que até faz sentido. Aquilo tem shows de striptease e o Tony Soprano tem uma casa disso na série. Não tem? Se calhar, por serem todos italo-americanos, têm uma forte ligação com Portugal. Não sei. Primeiro foi o outro gajo que nem sequer era mafioso, era cozinheiro e ganhava dinheiro honestamente, só era um dos melhores amigos do Tony. Isto não tem propriamente algo a ver com música, ou tem? Agora é Michael Imperioli, o sobrinho do Tony que é muito mau e viciado em heroína e que tinha aquela namorada gira que tinha uma amiga que afinal era do FBI. Que raio de música faz esta gente? Não sei. Ninguém sabe. É que, na minha cabeça, só o Litte Stevie Van Zandt é que era músico. Mas decerto que aquilo estará minimamente cheio, só porque as pessoas querem ir ver "o gajo dos Sopranos". A música é acessória, tal como, sei lá, quando as pessoas vão ver o Woody Allen tocar. Mas aí pagam mesmo preços exorbitantes. Até é simpático, o ambiente de cabaret, de casa de má fama, portanto, nada contra isso.
Vai ser bonito um dia ver o Imperioli num desses carros a passar no Marquês de Pombal. Se calhar vou ter medo da cara dele - ele é um bocado assustador -, se calhar vou achar interessante. Mas nunca saberei a que soa a música dele, na estreia mundial do seu trio La Dolce Vita (ele é italo-americano e parece que precisa de dizê-lo a toda a hora).

domingo, maio 21, 2006

Dúvidas

1. Porque é que o gajo de Ignatz não tira metade da distorção e dse cinge a fingerpickin' bonito e tal e não deixa de cantar, já que ninguém percebe o que ele diz de qualquer foram?
2. Desde quando é que o gajo dos Espers é igualzinho ao geek mais velho do Freaks & Geeks, aquele de cabelo comprido (mas sem o buço)?
3. Desde quando é que o Chris Corsano parece um puto?
4. Desde quando é que os Fish & Sheep têm set-list?
5. Será que o MF Doom usa a máscara em estúdio quando está a gravar e ninguém está a ver?

sexta-feira, maio 19, 2006

Ficava mal referir os Dismemberment Plan aqui

Sentado à espera do autocarro às 11 e muito da noite em Alcântara (é a primeira vez em muito tempo que saio de um concerto a horas de apanhar o autocarro para voltar para casa, não acontece muito), não há melhor para ouvir que "Lost in Boston", do novo dos Walkmen. Parece que é exactamente a mesma coisa que era o disco anterior: um disco dispensável, com um tipo que não sabe cantar, que tem uma voz horrível, com umas guitarras interessantes aqui e ali, mas com uma malha intemporal no meio. No anterior era "The Rat", uma malha absoluta que enche qualquer pista de dança (pelo menos gostava que assim fosse, na última vez que fui ao Incógnito isso não aconteceu).
Ficava mal referir os Dismemberment Plan porque o grande Nick Sylvester já fez a referência no título de um post do blog dele ("The Ice of Boston" é, simultaneamente, a melhor canção de sempre sobre uma cidade a que nunca fui e a melhor canção de ano novo de sempre). Mas, afinal, se não fosse ele e o tipo do No Frontin', nunca teria reparado naquilo, porque não tinha grande interesse em ouvir o novo disco dos Walkmen. Mas não havia melhor para a noite de ontem, com a Alcântara suja e decadente à minha frente. E hoje, no caminho Campo Pequeno-Marquês de Pombal, a canção exigiu umas três ou quatro repetições após ter ouvido o disco inteiro. Não é uma malha como era "The Rat", é menos poderosa, apesar de ter guitarras e bateria pungentes. A voz do gajo anda por lá em divagações e desafinações que não deviam ser nada, mas é nestes raros casos que o tipo acerta. É uma canção tão boa, mas será que teria dado por ela se não tivesse sido influenciado pelo Sylvester e pelo outro gajo? Será que isso interessa?
No outro dia ouvi o Brown Sugar do D'Angelo a seguir ao Voodoo. Gosto mais do Voodoo. É mais orgânico. Será que isso faz de mim roquista?

quinta-feira, maio 18, 2006

18 de Maio

Declaro oficialmente o dia 18 de Maio como o dia de silêncio das bandas cujo ganha-pão é pilhar toda a carreira do Ian Curtis. Obrigado.

Arcade Fire=Yeah Yeah Yeahs

Nunca me meti nos Yeah Yeah Yeahs. Não sei o que estava a fazer em 2003 quando não ouvi, de todo, Fever to Tell. Aliás, acho que a primeira vez que ouvi uma canção dos Yeah Yeah Yeahs foi em 2005. Acho que "Maps" talvez seja uma canção razoável. Ao fazer a minha ronda matinal (nunca é matinal, é quando me dá na cabeça) de blogs de mp3, deparei-me com uma versão dos Arcade Fire dessa canção.
Fui ao Incógnito algumas vezes (aliás, deve ter sido lá que ouvi pela primeira vez "Maps"), e chego à conclusão de que os Arcade Fire e os Yeah Yeah Yeahs são a mesma banda (da mesma forma que St. Elsewhere dos Gnarls Barkley é o equivalente de 2006 ao The Love Below dos Outkast: pela resposta do público e não por motivos sonoros). São adorados pelas mesmas pessoas que, à excepção do revivalismo do rock e do pós-punk versão MTV2, não ouvem música moderna, acham que a música acabou nos anos 80. Mas conseguem elevar-se acima dessas bandas, criando algo que, apesar de derivativo, não pode ser acusado de copiar nada de especial. Então, uma versão de "Maps" pelos Arcade Fire há-de ser o sonho erótico de muita gente que conheço. Não?
As vozes dos Arcade Fire são mais ou menos basicamente uma merda, acho que todos concordamos com isso, cantam mil vezes pior que a Karen O, apesar de eu gostar mais deles do que dos Yeah Yeah Yeahs. O baterista também não é grande coisa e, especialmente aqui, nesta versão, nota-se a sua incompetência quando comparado com o outro gajo que parece indiano e usa óculos dos YYYs. Despojada da produção magnífica de David Andrew Sitek (a terceira banda deste trio, muito acima das outras duas, poderá ser TV on the Radio, e isso faz-me dormir tão melhor à noite) e da guitarra do outro tipo cujo apelido é quase onomatopeico, não soa assim tão bem. E aqui está, uma versão tão óbvia e tão fácil que até é corajosa. Não? Dou dois meses até estar na playlist do Incógnito e passar todas as noites, entre a enésima emulação dos Joy Division ou entre os vários temas dos próprios Joy Division que lá passam, para deleite daquelas pessoas que revivem noite após noite após noite 2003 e 2004 (ou 2005, porque em 2004 pensavam que Arcade Fire era muito esquisito e demasiado alternativo para eles, ou porque não têm acesso nenhum à imprensa estrangeira).

terça-feira, maio 16, 2006

Common

Há um tipo em duas das minhas turmas que parece ter parado nos anos 90. Não, não veste camisas de flanela, usa calças de ganga com a cintura levantada, t-shirts dentro das mesmas, ténis Nike daqueles feios e pretos (ou pelo menos imagino assim), tem um estojo da NBA, cor-de-laranja e tudo, com uma bola de basket que sai e tal, tem cabelo desgrenhado e barba mal tratada, é um verdadeiro nerd dos anos 90. Gosto de pensar que ele é feliz assim, interrompendo a professora para mostrar que leu o que era preciso, que sabe, muitas vezes prolongando a aula, até deve ter alguns amigos, não sei.
O Common, nos seus dois últimos discos, Electric Circus e Be, tem convidados bons e convidados maus. Entre os convidados bons encontra-se gente como Cee-Lo Green, Jill Scott, Laetitia Sadler (Stereolab), Jay Dee, ?uestlove, Kanye West, etc., e entre os convidados maus encontra-se gente como o tipo dos P.O.D. ou o John Mayer. E, algures lá no meio, colaborou com Fort Minor, o projecto de Mike Shinoda dos Linkin Park a solo, num dos piores singles de todos os tempos. Gosto de pensar que ele é feliz assim. Temos um óptimo artista entre gente muito má. Se calhar o outro tipo da minha turma também é feliz assim, lá no fundo, por baixo de tudo aquilo que mostra, também é uma pessoa simpática, com bom fundo, e um tipo cheio de cérebro.
Estas manchas no curriculum do Common são aquilo que faz com que, por exemplo, Electric Circus não seja um disco excelente. É um disco muito bom, tem uma das minhas canções favoritas de sempre, "Between Me, You and Liberation", mas depois tem uma faixa com o tipo dos P.O.D. e estraga tudo. E, por exemplo, o beat da faixa com a Laetitia Sadler, até chegar ao refrão, é uma coisa de fugir. Isso e é demasiado grande.
Em 2002, quando o disco saiu, andava eu a descobrir os A Tribe Called Quest, a conhecer The Low End Theory, ainda hoje um dos meus discos favoritos, e apressei-me a formar uma opinião má sobre o Common. Não sei porquê, a primeira vez que o ouvi soou-me a um Q-Tip menos bom. Tive de esperar até 2005 para perceber quem era o senhor, primeiro com "The Corner", o single com o Kanye West e os Last Poets, e depois com Be. Como é óbvio, a faixa com John Mayer não é um fracasso total, não se compara ao nerd dos anos 90 da minha turma, especialmente porque ele se limita a cantar "Go", o que salva tudo. Mas o Common gosta de nu-metal e espero sinceramente que seja feliz assim, apesar de dizer muito que espero que seja porque precisa de dinheiro.
"Between Me, You And Liberation" tem uma das melhores prestações vocais de Cee-Lo Green de sempre, um refrão simples, onde ele soa contido e não louco como sempre (tive uma conversa no outro dia em que diziam que o Cee-Lo não se sabia conter, que o Dwele era bem melhor por causa disso, e dei este tema como exemplo da sua versatilidade). É a história de uma mulher que se liberta através da sua sexualidade, tendo sido violada em criança, e a história de Common descobrir e aceitar, como um MC famoso pela sua homofobia, a homossexualidade de um dos seus melhores amigos, deixando para trás a homofobia. "Sometimes I wish a / careless whisper / Serenade her / without speaking a word / Because of you I'm stronger / I'm afraid no longer / I feel so alive lately / You have liberated me", acho que é este o refrão. E depois a produção espacial pode soar estranha, mas nunca retira à canção a sua carga emocional e o seu poder.
E esqueço sempre o que acontece na primeira parte do disco, esqueço-me do tipo dos P.O.D., mas espero sempre sinceramente que o Common seja feliz assim, gostando de nu-metal, uma das maiores aberrações de sempre.

Retiro o que disse

Quando ela puxa demasiado pela voz e há pouco a acompanhá-la (como em "A Widow's Toast") perde-se totalmente. Soa foleira.

Neko Case

Nunca dei muito pela Neko Case a solo. Gosto da voz dela, acho-a uma tipa extremamente atraente, gosto muito dos New Pornographers, mas a solo nunca fui grande fã. Talvez seja demasiado country sem o alt. atrás que me faça gostar daquilo. Mas sei que estou a ouvir Fox Confessor Brings the Flood (atrasadíssimo, já toda a gente ouviu isto há meses, mas eu não, fiquei-me pelo Howe Gelb - ainda nem peguei no novo de Calexico, para não sair da mesma "família") e estou a gostar.
Às vezes apago as luzes da varanda onde tenho o computador e ponho-me a ouvir música. Faz mal aos olhos, claro, mas compensa. "Hey pretty baby, get high with me", canta ela. Vem-me à cabeça a imagem daquela mulher bonita de cabelo ruivo, a sua voz, a guitarra de aço e as baterias musculadas que se não são do John Convertino dos Calexico podiam muito bem ser. E depois entra um violino lá atrás. É perfeito para esta hora, e eu devia estar a dormir. Mas não fui feito para isso.
Talvez seja deste disco. Talvez seja significativamente diferente dos outros. Agora há um piano a fechar a canção. Talvez seja de mim. Talvez eu tenha andado este tempo todo a achar uma coisa quando na realidade era outra. Talvez seja da hora. Só sei que a música da Neko Case me soa ruiva e bonita como ela. E chega.

segunda-feira, maio 15, 2006

Lupe Fiasco

Estive hoje a ler duas entrevistas do Lupe Fiasco, uma à Nobody's Smiling e outra à Pitchfork, ambas com coisas muito interessantes (apesar de a da Pitchfork ser melhor, não só pela minha parcialidade por a Pitchfork ter sido uma das entidades formadoras do meu gosto musical e pela minha admiração pelo Tom Breihan, mas por a outra estar demasiado amadora), que mostram que o Lupe Fiasco é uma lufada de ar-fresco dentro do mundo do hip-hop. Especialmente por causa deste trecho que aqui reproduzo:

Pitchfork: On a smaller level, you've got one song where you're talking about how you didn't like rap, you didn't like that women were degraded, but you liked Too Short, and you'd quote the lyrics back but take out the word bitch. That's something that just about everyone I know who likes rap has done. That's something that I still do, but I've never heard anyone talk about that in a song before.

LF: People have their morals, but morals aren't concrete. People think because I'm a Muslim that I pray five times a day, but you're never going to see that on a day-to-day basis. People fluctuate. To me, that was the most specific way to put it, the best way to be like, "I listen to this music, but it's the most violent music on the planet." But I like it, and to make up for it, I don't say the cuss words. That's how I get away with it. People are hypocritical. That's just human nature. I embrace my hypocrisy. Once you come to grips with who you are and what's in you, and you aren't ashamed of it...[but] people are made to feel ashamed. You start thinking, like, "Is this human nature? That I like certain things, but I don't like certain aspects of certain things? Should I just shun it altogether?" I don't like to degrade women, but I like pornography. So what is that? It's weird, the stuff that we do.


É uma postura com a qual muito me identifico (tirando a parte de ser muçulmano), e mostra porque é que todos vamos adorar (e já adoramos) o Lupe Fiasco este ano. Não é só por ter um flow invejável e um domínio extremo do que está a fazer (a forma como soa confidente e não arrogante em cima dos beats e a pinta e o estilo com que desliza neles como se estivesse a andar de skate), é também por ele ser um de nós. Não é um gangsta, não é misógino, não matou ninguém, não diz que matou ninguém, não tem violência para dar, não tem nada. Depois da rima do Jay-Z no seu "Moment of Clarity", da qual toda a gente falou mesmo apesar de estar por cima de um dos piores beats de sempre, cortesia do acéfalo Eminem, em que dizia que rimaria como o Common ou o Talib Kweli se isso lhe desse dinheiro, as coisas parecem estar realmente a mudar (graças, em muita parte, ao Kanye West que revitalizou a carreira do Common e que, de certa forma, apresentou o mundo a Lupe Fiasco, mesmo sendo ele já quase veterano destas lides). Ninguém se sentirá culpado a dar dinheiro por Food & Liquor como se sentiria se estivesse a comprar o The Chronic do Dr. Dre ou o The Documentary do The Game (senti-me culpado por esta compra, mas ainda consigo dormir à noite porque foi em segunda mão e sei que o dinheiro não foi directamente para ele, péssimo rapper com óptimos beats - mesmo assim não são todos assim tão bons quanto se disse por aí, apesar de haver duas malhas absolutamente delirantes). Ele é uma pessoa a sério, mas não é por ser um skater, é por conseguir aceitar esta dualidade e hipocrisia que é intrinsecamente humana e não ser um monstro (e, mais importante ainda, não querer mostrar que é um monstro, não se orgulhar de ser um monstro, não falar de ser um monstro).

Achados do dia

As colunas que eu usava estragaram-se. Sempre fizeram "pfft...", custaram à volta de 15 € e nunca foram boas. Mas agora fazem "pfft" e "crrrk" e "chnk" e assim. Agora tenho uns daqueles headphones que entram mesmo dentro dos ouvidos, os outros davam-me dores nos mesmos, e uso-os a toda a hora. Uso-os agora para ouvir música no computador e, quando faço a ronda de blogs de mp3, gosto de pensar que estou a ouvir melhor a música que quero ouvir. Talvez não seja verdade, talvez o som fique um pouco abafado (e fica) se estiver demasiado baixo. Mas gosto de pensar que é melhor.

Kite Flying Society - If I Could Spit

Tiraram o nome de uma parte do Rushmore (e eu, como idiota que sou, caio sempre naquela do Wes Anderson de fazer filmes numa realidade próxima da nossa mas ainda assim alternativa, num mundo que não é nosso) e fazem canções normalíssimas. Até quase banais. A voz é um gosto adquirido, não é grande coisa, mas há algo de muito bom, como no primeiro verso há só guitarra acústica e depois entra o glockenspiel e a bateria e o baixo muito esparsos, lá atrás até há um telcado. A letra nem é grande coisa, a melodia é simples, mas há algo aqui que me atrai muito, nem que sejam as pequenas nuances na bateria ou a voz feminina no final do refrão. A outra canção que o tipo do Gorilla Vs. Bear pôs lá também é bem simpática, tem palminhas e sininhos e o teclado é a base de tudo. Blogs como o GvsB têm mil bandas destas por dia, algumas acabam por ser até bem simpáticas, se alguém estiver disposto a procurar por lá. Mas metade não interessa. Conto pelas mãos as bandas destas que me interessaram realmente. I'm From Barcelona e Pants Yell estão lá, e mesmo os Pants Yell só servem para duas canções e mais nada.

Danger Doom - Korndogs

Danger Mouse está cada vez mais famoso e MF Doom não, apesar de também ter estado envolvido em Demon Days dos Gorillaz. Mas ainda não parou, apesar do sucesso de Gnarls Barkley. Este novo tema do meu supervilão colaborativo favorito que envolva o MF Doom é bem bom, apesar de não chegar ao nível de nenhum dos temas do primeiro disco. O beat de DM tem mais importância que a voz de Doom, algo que não acontecia no disco, mas DM continua brincalhão mesmo que tenha agora uma certa seriedade, já não parece tão divertido. A forma como os violinos em pizzicato vão alternando com breaks de bateria e vão dando espaço a flautas e outros violinos é bem boa. Mas é difícil ouvir bem o Doom, talvez seja de não ser uma versão final (não sei se é). "Korndogs for the pickin'."

domingo, maio 14, 2006

Mobb Deep

Temos de pensar porque é que os Mobb Deep são infames. Não é por serem maus como as cobras - são uns falsos do caraças, andaram na universidade, são de classe média e tal -, é por serem maus. "Shook Ones Pt. I" e "Pt. II" o caraças. Não têm estilo, não têm inteligência, raramente têm grandes beats e esta ligação à G-Unit não os ajuda - sinceramente, fora de alguns singles, o que é a G-Unit deu ao mundo? Misoginia - foda-se, qual é a cena da Olivia? Ela tem um tema chamado "Best Friend" ou lá o que é com o 50 Cent, nem quero pensar qual é o conceito deles os dois de "melhores amigos", sinceramente -, violência, parvoíce, péssima música ("Candy Shop" à cabeça) e o Tony Yayo -, pelo que Blood Money é um disco chato. Não que "Outta Control (Remix)" com o 50 Cent não seja uma grande malha, mas não serve de muito. Eles são chatos e não se cansam de dizer "Infamous Mobb". Há beats aceitáveis, mas nenhum deles é suficientemente interessante para ser grande coisa. "Creep", com o 50 Cent, começa por ser mais ou menos, e depois é uma treta porque o que devia ser uma introdução é um loop repetido ad nauseam. E é chato. "Give It To Me", com o Young Buck, é capaz de ser dos melhores temas, com a cena toda indiana. A canção com a Mary J. Blige é aborrecida, nada de especial, apesar de ter algum nível, já farta a cena dos gangstas num flirt com a soul. Os Mobb Deep deviam acabar.

Sofá

Há um vídeo meu de quando tinha 4 ou 5 anos. Estou deitado numa ponta do sofá e o meu irmão na outra. Parece ser sábado ou domingo e está a dar Vamos ao Circo, o programa antigo do Batatinha. O Paco Bandeira está lá e eu canto com ele: "Vamos cantar / cantar com esperança / vamos cantar / cantar não cansa." Estou tremendamente desafinado e não sei cantar. Gostava de pensar que em 14 ou 15 anos isso mudou. Mas não. Estava agora no sofá, acho que até é o mesmo, mas com um estofo diferente, ou talvez não seja, já não é a mesma casa, a ouvir Go-Betweens e "Surfing Magazines" e a parte do "da-da-da-da-da" era cantada por mim e tenho a certeza de que se estivesse alguém a filmar seria exactamente a mesma coisa. Hoje até é domingo e eu continuo sem saber cantar.

Pixies

Acho que já não gosto de Pixies. Não é não gostar, é ter-me fartado. Mas porquê? Analisemos as razões. Vi-os duas vezes. A primeira foi, basicamente, na altura, o melhor concerto que já vi na vida. Porquê? Porque era algo com que sonhava desde os 11 anos, algo que eu nunca pensaria vir a acontecer. Mas aconteceu. Aconteceu e foi muito bom. Não esperava, obviamente, que houvesse uma segunda vez. Mas houve. E o problema deste tipo de reuniões é que, se não houver nada de novo, tem-se a mesma coisa pela segunda vez. A primeira vez era irrepetível, a segunda foi igual. Isso estragou tudo.
Estava lá à frente, não me estava a divertir nada, e por isso vim cá para trás. Aí comecei a divertir-me à força, porque não havia mais nada para fazer e era preciso aproveitar. Mas não teve absolutamente nada a ver com a primeira vez. Suspeito que não haverá uma terceira. Não vai haver uma terceira. Mas porquê? Talvez tenha a ver com o que o Rob Sheffield - com o seu ar de Thurston Moore vai ao That '70s Show - da Rolling Stone uma vez escreveu sobre os Velvet Underground: "We understand this music so well because every corner of it has been absorbed. VU studio goofs have become established sub-genres." Porque já tudo foi absorvido pelo mundo da música e não faz muito sentido estar sempre a repetir a mesma coisa.
Nunca mais peguei nos Pixies depois daquela noite em 2004. Não fazia sentido algum voltar a ouvir aquilo. Se estivesse a passar em algum lado, gostava, obviamente, lembro-me até vagamente de ouvir o Doolittle depois de não ter visto um jogo qualquer do Euro, mas acho que essa foi a última vez que os ouvi. O que é uma pena, porque foram a minha banda favorita para aí dos 11 aos 16 ou 17 anos. Talvez tenha sido a reunião a estragar tudo, não sei. Talvez outras bandas percam com uma reunião, talvez eu desista delas após ver dois concertos de uma reunião. Não sei. Não é não gostar, é não ter necessidade de gostar.

O relógio

Nunca pensávamos que Grant McLennan fosse morrer assim, pois não? Eu pelo menos não pensava. Numa noite de insónias, uma semana depois de Grant McLennan morrer, ponho-me a ouvir "The Clock", de The Friends of Rachel Worth. Uma canção óptima, com um excelente refrão: "Then the clock turns, and it's now, and it's you-ooh-ooh-ooh-ooh." Ainda me lembro de comprar este disco. Lembro-me de comprar muitos discos. Do momento exacto, com quem estava (ou não estava), onde foi, quando foi. Isso não acontece com mp3. Não me lembro de sacar mp3.
Recentemente só tem acontecido comprar discos novos com preços normais (mais de 15 euros) à confiança, sem ouvi-los primeiro em mp3, em dois casos, dois óptimos casos que me tirariam as insónias agora. O que não quer dizer que sejam chatos. O homónimo de Songs of Green Pheasant e 'Sno Angel Like You do Howe Gelb. Nunca fui grande fã do homem, mas da neve (o trocadilho "neve"-"não há") da capa àquela imagem em que está aquele senhor de barba, branco como tudo (acabei de fazer a minha porque não conseguia dormir) com um coro gospel por detrás e outro tipo branco de óculos de massa que é provavelmente o produtor. E a música também. Só falha na contracapa, com o tracejado à volta dele na praia. A voz dele é complementada de forma perfeita pelas vozes do coro. As canções são boas, simples, com guitarras bonitas, elementos simples, esparsos, e a verborreia típica de um contador de histórias americano com barba por fazer e uma camisa, só que sem as histórias. E até há um riso do coro, daquelas mulheres negras entroncadas que cantam "Paradise, Pa-ra-dise" quando Howe Gelb diz "Welcome to paradise".
E parece estar a vir o sono, ao som do Howe Gelb. Talvez não. Lembro-me perfeitamente de comprar este disco. Foi há pouco mais de um mês, por isso tenho desculpa. Mas continuo a lembrar-me de comprar The Friends of Rachel Worth, foi na primeira vez que fui à Carbono. Mas o relógio continua a "virar", e é agora, mas ainda não és tu. Porque não há um "tu".

Há o Howe Gelb e aquela gente toda. E podia ser muito pior.

sábado, maio 13, 2006

Memórias Musicais

Ontem, na ZDB, tinha à minha frente Rob Lowe, não o actor, mas o multi-instrumentista que é líder dos 90 Day Men, tem o projecto a solo Lichens e já tocou com os TV on the Radio (a melhor banda rock da actualidade). Ele foi-nos apresentado, a mim e a dois amigos, e perguntou-nos qual era o nosso disco de 90 Day Men favorito. Nunca tive grande afecto pelos 90 Day Men, lembro-me vagamente daquele vídeo que passava no Sol Música com os discos favoritos das pessoas, e, quando ele me perguntou, lembrei-me de estar sentado há dois anos num café do Bairro Alto que encontramos quando subimos para o Conservatório. Estava à espera de uma aula de trompete (era pura coincidência ser ao pé do Conservatório), porque era algo de que gostava, mesmo sabendo que não era muito bom e não tinha paciência para estudar o que era preciso para ser minimamente decente (pouco tempo depois desisti).
Estava a ouvir Panda Park, aquele que é ainda hoje o mais recente disco dos 90 Day Men. E lembro-me perfeitamente de pensar para mim próprio que aquilo era mesmo rock progressivo porque a voz era gloriosamente má. Não me lembro, contudo, de ter ouvido o disco depois disso. Um dia tenho de lá voltar. Mas voltemos à porta da ZDB. Éramos três e eu estava no meio e eles estavam a falar-lhe de como gostavam da banda dele, e ele começou a apontar para nós a pedir-nos os nossos discos favoritos dos 90 Day Men. Já tinha pedido a um e apontou para mim. Apressei-me a pensar nisto tudo, e, em centésimos de segundos, cheguei à resposta: Panda Park. E agora tenho o piano da primeira faixa da cabeça, apesar de não ouvir aquilo há mais de dois anos. Depois, e apesar da simpatia do homem, adormeci durante o concerto dele. Mas a culpa não foi bem dele, foi das cadeiras, de estar na primeira fila e de ter dormido pouco. Ele cantava e fazia loops com a sua voz, fazendo camadas de drones vocais que depois complementava com sinos. Depois tocava guitarra de 12 cordas só com 6 cordas, donde saíram alguns dos sons mais bonitos da noite (daí e dos xilofones dos Musgo).
Há bocado estava a ouvir Secret Rhythms 2, de Jaki Liebezeit e Burnt Friedman, e fui instantaneamente transportado (não foi bem instantaneamente, foi algures depois de "The Librarian", a única canção do disco, pelo menos a única cantada, ainda por cima pela voz de David Sylvian) para os corredores do Atrium Saldanha há quatro anos. Um amigo (curiosamente, agora porteiro da ZDB) tinha-me gravado Ramda, dos Mice Parade quando os Mice Parade ainda não eram uma banda e ainda não eram chatos e eram só o projecto do Adam Pierce. Ia todas as segundas-feiras ao cinema sozinho, ao Cine-Estúdio 222, só porque sim, não tinha mais nada para fazer e ia à confiança, como ainda faço na ZDB, metia-me no autocarro às 10 para as 4 da tarde, mas, sendo cinema às 5, não eram raras as vezes em que chegava adiantado (ainda não havia aquele caos horrível de trânsito nojento no Marquês de Pombal que me faz querer matar alguém praticamente todos os dias). Assim, comprava bilhete, não fosse o filme esgotar (nunca esgotava, éramos sempre 4 ou 5 na sala) e ia para o Atrium Saldanha. E não sei porquê, mas uma vez fui com Ramda no leitor de CDs que tinha recebido nos anos/natal três anos antes e que estaria muito próximo de cair ao chão e nunca mais funcionar e andei pelos corredores do Atrium Saldanha. Ia lá porque havia uma loja de discos, mas não me lembro de alguma vez ter comprado lá alguma coisa. Mas que ia, ia. E sempre que vou ao Atrium Saldanha ouço na minha cabeça Ramda dos Mice Parade. Como ouvi quando ouvi Secret Rhythms 2, mesmo há instantes, apesar de não ouvir aquele disco de Mice Parade há quatro anos.