segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Mas fiquei à espera

Que, como no ano passado, aparecesse o Steve Carell. É triste. Basta uma barba para esquecer as origens.

Jack Black+Will Ferrell

Grandes. Afinal é também o John C. Reilly, o maior actor secundário de sempre de agora.

Ellen

Not bad, Ms. DeGeneres, not bad at all. Ainda assim, está a competir com o senhor "Three 6 Mafia 1, Martin Scorsese 0".

Abigail

Tão querida. E a Ellen está a fazer-me rir um bocado, mas tenho saudades do Jon Stewart.

Oh no they didn't

Eles disseram "I"on Stewart. Continuo estupefacto.

Mark Wahlberg

"Why wasn't I in a Scorsese movie before?" Basicamente porque a memória disto continua viva.

Conversa

- Eish, a Beyoncé.
- Ela é a maior de sempre. E o Hov, estava com ela?
- Ela estava sozinha, mesmo muito bonita. Mas estava a posar. O Hov podia estar na área.

"O Hov podia estar na área." Estou orgulhoso dela.

Steve Carell

É o meu herói pessoal. Um dia, quando for grande, se tiver 1/10 da pinta dele, serei um homem feliz.

Óscares

Eu tenho um sonho. Um mundo em que não há comentadores da TVI. Haverá trabalho mais irritantemente supérfluo no mundo? No ano passado deixaram os microfones ligados enquanto mexiam em folhas. Mais deprimente do que estar acordado de madrugada a ver uma coisa destas - a sério, eu tenho insónias, tenho desculpa - só as falhas e os sotaques horríveis desta gente, que há-de ter jeito para alguma coisa, mas para isto não. Aliás, nem é isso, é o facto de não ser necessário e só atrapalhar.

domingo, fevereiro 25, 2007

Um dia

Um dia teremos todos de encarar seriamente o facto de que o líder do grupo dono de um dos melhores discos de 2007 se veste assim em palco. O grupo, basicamente, é ele, e quando digo "2007" poderia dizer também "2004" e "2005". Terá isto a ver com o "soul power" que ele refere no último disco?

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A outra face do último post

Uma canção que pode ser considerada irmã dessa, da mistura de rapper e cantora revivalista, é "Can't Forget About You", do senhor Nas. Dei por ela quando ouvi o Hip-Hop is Dead umas vezes, mas raramente me lembro dela. Agora lembrei-me. Aqui está o vídeo. Claro, remete para uma altura anterior, tal como o "Ain't No Other Man" da Christina Aguilera, e a produção do will.i.am (acho que é dele) sampla o "Unforgettable" do Nat King Cole. Claro que é uma canção com muito mais classe, bonita, que mostra basicamente todo o conceito do Hip-Hop Is Dead. Nas é um virtuoso, que está nisto há mais de uma década, cresceu com isto e morrerá com isto. Sabe de cor a história toda do movimento e só quer continuar o seu legado. Não há nada de errado aqui. A voz de Chrisette Michelle, que também canta o refrão de "Lost Ones" do Jay-Z, é belíssima de uma forma familiar e batidíssima que, supreendemente, funciona sempre bem neste tipo de canções. Adoro.

Amy Winehouse

Irrita-me que se fale tanto da Amy Winehouse, como hoje no ípsilon (parece-me bem, francamente, adorei ler o Pedro Gomes sobre os Clipse, ainda não li mais nada, a não ser por alto), sem mencionar a remistura com o Ghostface Killah para "I'm no Good", que saiu no More Fish do ano passado. A Amy Winehouse é uma rapariga nova que se orgulha de usar quilos de maquilhagem para ficar extremamente pouco apelativa e que gosta muito de dizer que adorava fazer mais sexo e beber mais. Técnicas de marketing à parte, tem uma voz que não esperaríamos de uma inglesa de vinte e poucos anos, e faz soul vintage, retro, cujo único mérito é ter canções apelativas e memoráveis com uma ou outra frase pouco usual para esse tipo de música. Acontece que "I'm no Good" é uma óptima canção, mas a sua versão original tem coisas a mais. Alguém pegou nisso para o Ghostface Killah mandar umas rimas, e funciona tão bem...dúzias de frases citáveis, como "you had to be a nasty girl to try to play me" ou "I can forgive the past but I'll never forget it", bem como referências à Kelly Clarkson e assim, sempre com o seu flow típico de quem tem muita pressa para dizer o que tem a dizer, cheio de paranóia e medo mas também confiança, como se estivesse a fugir à polícia, por cima do melhor que a canção tem, com a voz dela e os sopros, com toda a pulsação de um clássico. A Joana odeia a voz dela e a canção e tal, mas ela não leva a mal eu gostar. Espero eu. É dos melhores singles pop de 2006 e parece-me que, se dosearmos bem e não o usarmos até à exaustão, se tornará intemporal, tal como soa.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Village Voice

Duas pequenas notas sobre o Village Voice, só porque sim. Hoje li um dos textos mais bizarros que já li em toda a minha vida. Está aqui. Porém, não pude deixar de ler e li até ao fim. É uma história bem contada, mesmo que pouco usual, com piada sem gozar, etc. e a escolha mais estranha para a capa de uma edição de S. Valentim ou lá como ele se chama. Mesmo andando o Village Voice a perder-se aos poucos por causa das grandes corporações más que o compraram e o caraças, ainda tem força para isto. Depois, um tipo que toca com os TV On The Radio queixou-se da capa anterior do Village Voice. Tinha o Bob Dylan a passar por cima do Kyp Malone com um tractor, por causa dos resultados da Pazz & Jop Poll '06, em que o Dylan ficou em primeiro e os TV On The Radio em segundo. Chamar racista à capa é típico daquelas pessoas que não têm sentido de humor mas dizem "eu tenho mais sentido de humor que tu, isto é que é inadmissível", não se percebe bem porquê. É apenas uma coincidência infeliz, no máximo dos máximos.

Saudade

Tinha saudades do Ted Leo. E de Old Jerusalem. Ainda bem, ambos têm novos discos. O primeiro,ainda com os Pharmacists (melhor nome para uma banda de suporte desde os Attractions do Elvis Costello), tem Living with the Living, que me parece ser um consistente disco de canções uns furos abaixo de Shake the Sheets. Lembro-me de adorar ouvi-lo no metro de Lisboa em 2004. "Me & Mia" ainda está na minha cabeça como uma canção excelente, mesmo não a ouvindo talvez desde esses tempos. E a canção introdutória, com a constatação "I know some things I'd rather not / like the time ahead is all the time we've got", ainda subsiste na minha cabeça, mesmo sendo atípica dentro da obra do homem (é calminha e essas coisas todas que não acontecem muitas vezes nele).
Ele volta com os riffs, os refrões, as palavras e a voz, limitada mas muito competente, nunca saíndo muito daquilo que não domina, provando porque é que deve ser dos roqueiros semi-conservadores mais adorados pela Pitchfork (ao contrário de manias "recentes", como os inexplicavelmente universalmente celebrados Hold Steady, a sério, o que é aquilo?). Não há nada de mal na música que ele faz, e, continuando assim, só pode ser bom.
Francisco Silva, o rapazinho de cabelo comprido e óculos do Porto, é a melhor pessoa em Portugal a escrever canções em estrangeiro, talvez de sempre. Não me alongarei sobre The Temple Bell, pois fá-lo-ei daqui a pouco tempo noutro sítio, mas devo dizer que "Love & Cows" é talvez a melhor canção do homem e o press release escrito pelo Pedro Mexia é competente mas podia ser muito melhor, tendo em conta quem ele é e de quem ele está a falar. Mas "Love & Cows" é baseada no filme homónimo que eu vi há uns anos quando ia demasiado ao Cine-Estúdio 222 e tem uma letra com piada mas não "haha", mais "sorriso" ou assim, mesmo que acabe com uma falta de pudor tremenda que eu não sei bem como é que funciona tão bem nas letras do homem.
É basicamente isso. É assim que se matam saudades, com o Ted Leo e Old Jerusalem. E se regressa à escrita depois de vários projectos mentais para listas de melhores do ano. A meio de Fevereiro já não funcionam, pois não? Acho que fica bem dizer que o meu disco favorito do ano passado foi o Yellow House dos Grizzly Bear, o meu cabeleireiro gay favorito talvez de sempre. Tantas listas, tantas brincadeiras válidas para fazer...enfim, teremos sempre Paris. Ou então 2007.

domingo, fevereiro 11, 2007

Votar

Fui votar. Desci a rua como fiz tantas vezes antes para ir até à minha Escola Secundária. Fui a ouvir o Paul's Boutique. Um dia, em Junho, farei o mesmo só que descerei um bocadinho mais e, no final do caminho, estará quem o fez. Ainda bem.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Para a esquerda, para a esquerda

Estava a reler o post do Sasha Frere-Jones sobre o Volver e lembrei-me, numa espécie de epifania: "Irreplaceable", da Beyoncé, é uma grande canção. É uma forma estúpida de começar qualquer coisa que seja, qualquer texto, mas é verdade. E a canção é grande. Mas não tenho qualquer vontade de ouvi-la. Posso estabelecer um paralelismo com "Save Room" do John Legend. São duas óptimas canções mainstream que me soam tremendamente melhor quando me lembro delas e não quando as estou a ouvir realmente. Talvez seja dos defeitos que encontro nelas, a guitarra acústica e o vídeo da Beyoncé, o vídeo e a voz que estranhei à partida do Legend.
Há uns meses li um artigo do Kelefa Sanneh (porque é que começo tudo assim?), que se tornou, durante o ano que passou, uma das minhas pessoas favoritas de ler. É absurdamente bom que lhe dêem tanto espaço no New York Times para escrever sobre uma só canção que se ouve em todo o lado, como esta da Beyoncé, ou sobre o que quer que seja, sobre a fragilidade de certas estrelas pop. Não me lembro bem, mas houve um bem interessante sobre como as estrelas pop agora estavam cada vez mais humanas, a Paris Hilton ou o Kevin Federline são totalmente humanos como "músicos", falham bastante e assim e mostram essas falhas. O que só me transtorna por ver que um projecto como o UM ficou suspenso. Tinha para sair nesse número um texto sobre o disco do JP Simões, basicamente o maior escritor de canções em português dos últimos anos, cada vez maior, sobre o disco dos Clipse, uma entrevista ao Ty e um texto sobre um concerto de Riding Pânico. Dois destes textos vão arranjar forma de sair, mas os outros não. O que não interessa nada, interessa é que se perde um jornal e perde-se o espaço dado a gente como Jorge Manuel Lopes, Pedro Gonçalves, Eduardo Sardinha ou José Marmeleira em jornais (não falo dos "putos" como eu porque a nossa situação não é tão grave).
O mundo perde muito, com os jornais todos empacotados numa caixa para a esquerda, para a esquerda. E a parte triste é que não teremos outro num minuto.

(tinha de acabar assim, para parafrasear a canção)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Mash-ups

Os mash-ups morreram, no mínimo, há quatro anos. Claro, ficaram alguns clássicos, lembro-me agora dos dois "A Stroke of Genius" e de "Maps Around The World", que misturam, respectivamente, Strokes e Christina Aguilera e Yeah Yeah Yeahs e Daft Punk. O ano passado (ou há dois anos) também houve uns bons que juntavam José Gonzáles e The Game. Este ano há "The Knife". "The Knife", dos Grizzly Bear e "Heartbeats" dos Knife. Sim, um dos mash-ups com o Gonzáles vinha da versão que ele tem da canção dos Knife, mas, basicamente, é a única canção boa dos Knife (banda mais foleira/irritante de sempre?). Também nunca percebi o Silent Shout e muita gente adora. O bom gosto não vive ali, mas "Heartbeats" funciona bem. E a batida funciona bem com os "whoa-whoa" dos Grizzly Bear. O meu cabeleireiro gay favorito junta-se à melhor canção dos anos 2000 - tão boa quanto todas as outras melhores dos anos 2000 - e funciona bem. Quem tem aquilo é o blog Brooklyn Vegan. Grande.

Saldos

O Mos Def lançou um novo disco. E depois retirou-o do mercado. O que é que isso quer dizer? Nada. Para ninguém. Não me devia importar, não nos devíamos importar, mas o Mos Def tem um novo disco. É horrível. Tem uma, duas ou três faixas, no máximo, que se aproveitem. Vem numa caixa transparente. Só mostra que toda esta gente desistiu. O rapper, a editora, tudo. Desistência. Acontece muitas vezes. O Mos Def já desistiu de ser rapper há muito tempo. Agora é actor. E acha que é cantor, mas, basicamente, isso não vale a pena. Nem New Danger era bom nem Tru3 Magic é bom. Não vale a pena, pá. É uma tristeza. O homem já foi grande. Enorme. Um dos maiores. Os Black Star são magníficos, o Talib Kweli é um grande letrista mas nunca teve a voz e o flow de Def. E enquanto o Kweli se mantém relevante, o Mos Def é preso por actuar sem licença e não parar e faz filmes com o Bruce Willis. Vá-se lá saber.
Fui aos saldos. Janeiro é sempre um óptimo mês em que a minha colecção de discos aumenta a olhos vistos. Trouxe hoje da AnAnAnA muitos discos, maioritariamente de hip-hop indie. Estou a ouvir o Later That Day do Lyrics Born. Nunca dei muito por ele, nunca ouvi Latyrx e o colega dele lá, Lateef, tem um dos piores singles de sempre com o meu rapper favorito (o Q-Tip). O Lyrics Born não é negro mas parece. Tem um flow versátil e rima extremamente bem. Faz coisas incríveis. O disco parece-me bastante bom, até mais ou menos ao fim, em que o cantar/rappar dele estraga tudo em faixas com um apelo jamaicano manhoso. É precisamente isto que se passa com o Mos Def. Não há qualquer necessidade de, em plenos anos 2000, fazer isso.
É sempre interessante ver que tipo de discos é que aparece nos saldos de qualquer loja. Nos saldos da Flur, aqui há uns meses (acho que foi em Outubro), comprei um disco de Lifesavas. Não sabia o que era, mas acabei por gostar bastante. É da Quannum Projects e ando a ler o Can't Stop Won't Stop há demasiado tempo e o Jeff Chang é um dos fundadores da editora. Parece-me ter coisas bastante boas e variadas e não ser enfadonha e impossível de apreciar como muitas outras que para aí andam (comprei também discos da Def Jux, da Stones Throw e da Anticon esta semana, isto parece-me bem superior a isso). Trouxe também Plant Life, Campfire Songs, o Milk Man dos Deerhoof outra vez (porque era 1 €), etc.
Para alguém que, como eu, passa muito tempo todas as semanas a procurar e procurar discos em promoção (a maior parte das vezes em CD, mas às vezes também em vinil), em segunda mão ou noutro modo qualquer, é interessante ver o que aparece nesses sítios. A banda sonora do He Got Game do Spike Lee pelos Public Enemy está na secção de hip-hop dos 5 € da Carbono (o sítio mais assustador de sempre para comprar discos de hip-hop, com os pouco simpáticos empregados a julgar-me sempre com os olhos) há mais de um ano. O disco do Trio que junta Dolly Parton, Emmylou Harris e Linda Rondstat também, mas na secção geral. São discos que estarão sempre lá, até alguém comprá-los, o que é algo improvável.
Também é interessante ver que se pode "viver", musicalmente falando, dos discos que se arranja abaixo do preço normal exageradíssimo dos discos hoje em dia. Mas há sempre coisas que são insubstituíveis. Não se pode substituir certa música por outra música que seja mais barata. A música não é assim. Meto-me a pensar nestas coisas de vez em quando. Não nos podemos limitar a nada, a uma só coisa, temos de ir a tudo aquilo que quisermos. E é preciso haver escolha. Um dia vou à Carbono e trago para casa os Public Enemy, o Trio e o The W dos Wu-Tang Clan que vive lá.

sábado, janeiro 06, 2007

Cinco acontecimentos absolutamente indispensáveis de 2006

2006 foi um ano do caraças. Pessoal e musicalmente. Não sei se fui a mais ou menos concertos que em 2005 ou 2004, mas rendeu na mesma. O meu ano em cinco acontecimentos:

05. O ballet ao som de Milk Man dos Deerhoof Uma escola qualquer não-sei-onde pôs puto a tocar e a dançar ao som do Milk Man (tocado pelos putos, claro) e gente a dançar. No meu tempo fazíamos coisas ao som de Chick Corea e éramos mesmo mesmo mesmo parvos, não tínhamos indie-cred nenhuma. Oh meu Deus, porque é que não criaste o Milk Man nos anos 90? Na mesma onda: a dança dos coelhos no Lux, foda-se. Melhor banda do mundo? Uma das.

04. "I know you can feel the magic, baby." Todos nós a sentimos. Foi agora em Dezembro. "Black Republican", pessoal. Ou como pôr para trás das costas anos e anos de rivalidade e fazer magia. Os sopros, tirados da banda sonora do Godfather II, funcionam tão bem. Tão bem. E estão em ambos em grande. Falo, é claro, da primeira colaboração de Nas e Jay-Z. E foi tão mágico quanto todos esperávamos e quanto Jigga diz.

03. A morte J. Dilla e James Brown e um porradão de gente. O Robert Altman. Se calhar sou eu que tenho um medo desmesurado da morte. Não sei. Talvez seja. Mas há tragédias horríveis. Não me estou a lembrar de mais ninguém agora, mas morreu muita gente este ano. Mário Cesariny. Mais gente. Não sei quem mais. Grant McLennan, meu Deus. Alguém que eu vi ao vivo. Bolas. Como o Ali Farka Touré que eu vi em 2005. Acho que são as únicas duas pessoas que vi num palco e morreram, pelo menos que me lembre. O Arthur Lee também morreu. Nunca o vi em lado nenhum. Houve tanta gente a morrer, morre tanta gente. É triste. Morrer gente é triste.

02. Kanye West em Oeiras Cada vez que ouço uma canção dele lembro-me porque é que gosto tanto daquilo. Às vezes esqueço-me. A arrogância e a excessiva auto-confiança dele transformam-no numa pessoa facilmente detestável. Mas em cima de um palco daqueles, os samples de voz acelerados (ninguém os faz como ele, o Just Blaze e o RZA que me desculpem), toda a essência da pop em retirar o melhor de tudo o que já é de si bom associados a alguém que, até há bem pouco tempo, era apenas um puto que fazia beats e não rimava nem nada que se parecesse. Mas quis tanto que se tornou estrela. E ficou cada vez maior. O seu ego também, mas há ali qualquer coisa que transparece ao vê-lo ao vivo, à nossa frente, maior do que a vida, há algo que nos remete para o fã, para o sonhador, para o puto. E há a música.

01. Snakes on a Plane Pessoalmente, é o meu filme favorito de sempre. Talvez. Mas não pelo filme em si. Do ponto de vista cultural, é algo que vale realmente a pena. Mesmo que o filme não existisse, só a ideia e o pretexto é algo que é importantíssimo. É o maior acontecimento de sempre. Samuel L. Jackson, avião, cobras. Não há mais nada. É só esta ideia. Há uma ideia e há uma realização. Se não existisse a realização, haveria sempre a ideia. E bastaria. A realização não é assim tão boa. Podia ser muito melhor (pior). Mas "Ophidiophobia" é, talvez, a melhor canção de sempre. Raios. Porque é que eu minto sempre? Mas adoro. Sempre que o Cee-Lo Green entra em canções destas, em theme songs, cria clássicos. Já foi assim no disco de Danger Doom. A voz dele é tão estupidamente boa, e aquele refrão...e depois "I'm tired of these motherfuckin' snakes on this motherfuckin' plane." Grande, grande, grande.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Cinco razões para ter amigos em 2006 parte III

Pedro Figueiredo. Foi meu director no Clix Música e n'Os Fazedores de Letras, ambos projectos falhados. Tem a maior colecção de bootlegs de Suede e Gift de sempre e a maior colecção de t-shirts de gola em V fora da minha família (o meu irmão é o seu maior rival). Escreve na Ruadebaixo e na Mondo Bizarre e faz anos hoje, daí dar-lhe isto:

Cinco razões para ser como o Pepe* em 2006



*jogador brasileiro do Futebol Clube do Porto por estes dias nacionalizado português

Chegou ao Marítimo há uns anos, e logo deu nas vistas. Não aparentava possuir o potencial hoje devidamente explanado, mas mostrava já algum serviço. Agora uma dúvida muito pessoal: não me lembro se ele esteve realmente no Sporting Clube de Portugal. Acho que sim, que foi emprestado meia dúzia de meses e, sem oportunidades, voltou para a Madeira. Mas sinceramente não me lembro de o ver com a camisola leonina ao peito. Pouco importa. O ano passado e, essencialmente, na temporada que por estes dias sofre pausa (absurda, diga-se), tem-se vindo a destacar ao serviço do FC Porto, sendo um dos grandes esteios da equipa que, aposta-se sem grande factor de risco, será campeã nacional. Recentemente seguiu as pisadas de Deco e pediu dupla nacionalidade, afirmando-se disponível para representar a selecção comandada pelo nosso cada vez mais italiano Scolari. Serve esta parva e extensa introdução para traçar uma analogia musical completamente desprovida de sentido mas, ainda assim, extremamente válida não tanto conceptualmente mas mais pelos objectos em causa. A selecção musical nacional teve, em 2006, alguns bons motivos para se orgulhar de si mesma. Se, verdade seja dita, faltou algum nervo sub-21 (retomam-se as analogias da bola), tal não foi impeditivo para que alguns nomes consagrados (ou semi ou em vias de) espalhassem o perfume do seu fute…repertório pelos doze meses que agora findam. Seguem cinco razões para, em 2006, se pedir nacionalidade portuguesa:

5. Linda Martini – Olhos de Mongol Boa gente de boas origens (Queluz e Massamá), atitude q.b., energia, bom uso de novas ferramentas de promoção (2006, ano MySpace). A música? Pós-rock flanqueado por diferentes balizas, letras incisivas e de apelo imediato e sombras de nomes como Sonic Youth, Isis ou, em terra de Camões, Ornatos Violeta. Há temas longos, três guitarras em discurso directo, momentos mais rápidos (vide “Cronófago”) e uma força pouco comum. Depois, alguns membros lembram-se ainda do Professor Sanches que dava Filosofia na Escola Secundária Miguel Torga, em Massamá. Dificilmente poderíamos pedir mais que isto. Pelo menos por agora.

4. Sérgio Godinho – Ligação Directa Não há grande coisa a dizer sobre Sérgio Godinho. O maior de escritor de canções português é redundância. Apelidá-lo de mediano comentador de futebol já é mais subjectivo – mas menos certamente que a certeza de que Jorge Gabriel desempenhava um papel mais ajustado. Ligação Directa é Sérgio Godinho em grande forma a cantar Portugal. Mais cordas, arranjos do caraças, uma voz a brilhar bem alto. Enorme.

3. Bernardo Sassetti – Unreal: Sidewalk Cartoon História mirabolante (que envolve operários e a música como salvação - tudo isto na península de Quasi-Algures), conceito multi-artístico que vê em disco paragem obrigatória para a sua total percepção. A simplicidade da partitura de Alice mora distante, ficando no ar, no entanto, algumas ambiências cinematográficas muito ao gosto de Sassetti. A história é tão improvável como actual nas questões levantadas. A música, essa, é da melhor que por este ano se ouviu. E há ainda o melhor título de canção do ano (de sempre?): “I Left my Heart in Algândaros de Baixo”.

2. Sam The Kid – Pratica(mente) Chegou tarde mas em boa hora. Provavelmente o melhor disco de hip-hop de sempre em terrenos nacionais. Já houve polémicas, as vendas surpreenderam na semana de estreia, a divulgação (e apreciação) tem sido ampla. Referências culturais convivem com linguagem e temáticas de rua, num registo desarmante, pessoal e de uma ambição enorme. Quase tão grande como a qualidade das canções aqui incluídas.

1. Dead Combo – Vol.2: Quando a Alma Não é Pequena Diz o responsável por este blog que Dead Combo “só rende ao vivo”. Errado, meu caro. Vol.2: Quando a Alma Não é Pequena é a total confirmação dos intentos de Tó Trips e Pedro Gonçalves: pegando numa raíz sonora assente no fado, os músicos vão buscar elementos cinéfilos, elementos de Western, elementos da nossa Lisboa. Elementos musicais de uma portugalidade urbana. O ambiente é de verdadeiro delírio quase Western versão Sérgio Leone transportado para Lisboa, século XXI, 2006. Fado? Fado-Western? Rock? Um grande disco, que se lixe o estilo.

Um agradecimento final ao Rodrigo pelo convite para escrever este texto e uma mensagem ao Pepe e respectivos interessados na cidadania portuguesa: aproveitem os dias finais do ano que não se sabe o que 2007 nos reserva [nota do autor do blog: ooops...].