quarta-feira, dezembro 27, 2006

Cinco razões para ter amigos em 2006 parte II

Na continuação das listas dos amigos, Luís Nunes. Luís Nunes está para Walter Benjamin como eu estou para Senhor Aníbal: somos as únicas ligações deles ao mundo. O Luís é membro dos Jesus, The Misunderstood, uma banda que é um bocado chata e um bocado gira e é a única pessoa que alguma vez me dedicou uma canção em palco. Os concertos da banda dele acabam invariavelmente com o barbudo do Luís e o Tiago Sousa da Merzbau a tocar uma versão de "Sweet Jane" dos Velvet Underground. Mas em vez de irem pela versão suave e fofinha ao vivo que os Cowboy Junkies até versionaram, vão pela versão mainstream de Loaded, o que é uma pena.
Este blog não subscreve, de todo, as ideias do Luís e avisa que ele não é homofóbico nem nada disso. E ainda por cima esquece os Grizzly Bear, facto que nunca lhe perdoarei.

Cinco razões para ser gay em 2006 (versão orientada para homens)



Lista de alternativas em caso de desespero. A escolher ou a evitar.

5. Stuart Staples Senhor que já tocou numa banda chamada Tindersticks. Agora continua a tocar na mesma banda mas mudou o nome e também os músicos. É desajeitado, a sua figura no palco não é muito atraente e fuma desalmadamente. No entanto deve ter muitas amigas, o que é bom. O tipo deve estar sempre deprimido, o que pode resultar para contrabalançar os que de nós forem bichas alegres.

4. Kurt Wagner Proprietário de uma banda de Nashville, os Lambchop. Ex-assentador de tijoleira e actual escritor de canções, tem uma voz que parece mel (e poderá cair que nem ginjas nos ouvidos dos deprimidos mais alcoólicos). A maioria de nós já pensou "Foda-se, quero casar é com este tipo" ao ouvir os Lambchop. Pena que seja casado com uma mulher, o chapéu à camionista não lhe fica assim tão mal.

3. Senhor Aníbal Nome maior da cena musical do MySpace. Ninguém conhece a sua cara, só o seu talento, bom gosto e olho para colaborações. Escreveu canções bonitas como "Canalizador do amor", obra maior da sua já/ainda longa discografia. É o candidato mais forte porque é português e esteve no Ultramar. Toda a gente sabe que os portugueses que estiveram no Ultramar são pessoas sensíveis e empenhadas em resolver os conflitos dos outros.

2. Stephin Merritt Este é, aparentemente, o primeiro homossexual da lista. Dono de versos como “I'm the luckiest guy on the lower east side, 'cause I've got wheels and you wanna go for a ride?” e de músicas que adoram pôr-nos deprimidos (e de um gravador de 4 pistas do qual parece não se querer livrar), o líder dos Magnetic Fields, é, apesar de ser feio, um óptimo substituto para qualquer depressão amorosa. Um tipo que escreve 69 canções de amor (e ainda por cima edita-as) só pode estar pior que nós.

1. George Michael Se alguém começou a sentir o seu lado mais gay a vir ao de cima, aqui está uma boa razão para gostar de mulheres outra vez. Ou querem acordar com o vosso parceiro sexual a cantar os grandes êxitos dos Queen no duche?

segunda-feira, dezembro 25, 2006

domingo, dezembro 24, 2006

Cinco razões para ter amigos em 2006 parte I

Como maneira de pilhar sem misericórdia o Nick Sylvester - que entretanto escreve na Wire e na Stylus, ainda bem, não faço ideia se há muito ou há pouco tempo, é sempre bom lê-lo -, decidi convidar amigos para as listas parvas que tenho andado a fazer.
Joana Lima é da Figueira da Foz e diz que já viu o Alex James e droga. Não sei bem a história, mas era minha colega n'Os Fazedores de Letras - inevitavelmente e, tal como eu, fartou-se da falta de rumo daquilo, ou então estava só aborrecida - e gosta de Clipse. Isso faz dela, automaticamente, boa pessoa, visto gostar de gente que vende droga. O texto e as razões que se seguem não são da minha autoria, nem da minha responsabilidade (na verdade nem sei quem é metade desta gente, à hora dos Castanets na ZDB eu estava provavelmente vestido de palhaço e podia jurar que os Cansei de Ser Sexy roubaram "aquela" linha de baixo aos Spoon) e devo só adicionar que a Joana é gira. Obrigado.
Aqui vai:

Cinco razões para usar uma peça de flanela axadrezada em 2006



5. Mary-Kate Olsen Em 2006 a gémea da Ashley, que já é maior já desistiu da faculdade e já imitou o penteado do Nosso Senhor Jesus Cristo, fez-se passar por uma Chlöe Sevigny mais fofinha e lembrou ao mundo que foi o Marc Jacobs que deu o grunge ao mundo. No meio de passeatas por Nova Iorque com uma infindável colecção de copos do Starbucks, MK provou que a única coisa necessária para se rockar o look sem-abrigo e relembrar que o Gus Van Sant fez um dos melhores filmes de 2005 é vestir uma camisa de flanela axadrezada com botas compensadas. Nunca foi avistada de I-Pod mas eu quero acreditar que tudo se deve ao Rather Ripped dos Sonic Youth que ela ouve numa Bang & Olufsen ao chegar à sua casinha de lenhadora forrada a madeira e perfeita para uma festa Cobra Snake.

4. Raymond Raposa O senhor cantautor que dá pelo nome de Castanets veio à ZDB. Deu um concerto e até era noite de Carnaval. Fazia frio. Na rua havia serpentinas e confetti e gritos e máscaras pouco imaginativas e máscaras cómicas e máscaras completamente saídas do Party Monster. Dentro do Aquário da Galeria Zé dos Bois, os disfarces não vinham sob a forma de fatos de aluguer. E o Ray Raposa tinha um boné à camionista americano (não sei porque os europeus nunca usam chapéu) de xadrez. Estou em crer que era de flanela, mas não lhe toquei. Bastou ouvir "It’s alright / To want more than this" para as mãos aquecerem.

3. Cansei de Ser Sexy Os brasileiros (sim, há um mocinho com bigode lá pelo meio) mais fixes desde o elenco de Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa apareceram em 2005. Mas foi no corrente ano que espalharam todo o esplendor da sua parvoíce pelo mundo abençoado pelo YouTube. Alala alala e sai um videoclip em que as miúdas lutam e sangram dentro de prisões de lamé em jeito de vestidos. Isto não parece muito confortável, mas é giro. E talvez demasiado anos oitenta. E talvez do facto de o vídeo contar uma briga em rewind - do fim para um início em que não jorrava sangue - brote a ideia de que a flanela conforta mais do que penteados do WIP.

2./1. Karen O + Liars Há coisas que não se separam. O CD-R violeta onde a Karen O gravou dezasseis músicas acompanhadas de um poema do Oscar Wilde (límpido como todos os poemas do Oscar Wilde) para o seu Angus Andrew e que foi roubado por um fã da casa de um dos TV on the Radio não se pode separar da "The Other Side of Mt. Heart Attack" que os Liars souberam guardar para o fim do Drum's Not Dead. Porque o amor é como uma flanela boa - sobrevive a festas de kuduro progressivo em Lisboa e a ataques cardíacos em cima de um skate berlinense.

domingo, dezembro 17, 2006

Cinco razões para não odiar o will.i.am em 2006

Os Black Eyed Peas são uma banda detestável. Uma máquina de fazer péssimas coisas que não pára. A recuperação do Sérgio Mendes num modo incrivelmente mau é insultuosa. A Fergie é uma das pessoas mais odiáveis de todo o sempre, etc. Dizem que há coisas boas no início, mas não me apetece acreditar nisso. Há cinco anos ouvi um disco deles e pareceu-me francamente horrível. Passado o horror, o senhor will.i.am deu-nos em 2006 cinco razões para não o odiarmos. Aqui vão:

5. Busta Rhymes - I Love My Bitch (feat. Kelis) Haverá algo mais estúpido que o refrão desta canção? "- I love my nigga - Yup, yup, I love my bitch". Poesia. Isto é poesia. Mas quem é que espera do Busta Rhymes, nesta altura do campeonato, mais do que isso? Ninguém. Basta ir a The Shining, o último disco do J. Dilla, com uma introdução aborrecidíssima e completamente supérflua do homem. "Bitch, bitch, fuck this" ou algo parecido. Já me esqueci, na verdade. "I Love My Bitch" é o will.i.am em modo Neptunes, mas com um beat e melodias memoráveis. Bom.

4. John Legend - Slow Dance John Legend continua a aparar a sua barba. É um bocado irritante o facto de estar tão meticulosamente bem aparada. Mas John Legend teve Let's Get Lifted. E agora tem Once Again. Pode ser considerado chato, a voz dele encontrou trejeitos estranhos, quando ouvi pela primeira vez "Save Room" nem me pareceu ele. É uma coisa mais adulta, mais madura, mais ponderada, mas que funciona extremamente bem para ele porque ele tem imensas miúdas no vídeo. "Save Room" também é de will.i.am, e os sopros e os "parapapa" tornam aquilo memorável ao fim de umas cinco audições. É um caso estranho de uma canção que eu prefiro quando me lembro dela e não a oiço. Mas no disco há "Slow Dance", que é uma das melhores de Once Again, a par de "Heaven" de Kanye West.

3. The Game - Compton Toda a gente sabe porque é que eu odeio The Game. Ele até me dedicou uma canção. Mentira, não foi ele, foi o Just Blaze, o Nas e a Marsha das Floetry. "Why You Hate The Game" é um épico. A única parte má é o próprio The Game. "Compton" é sobre como Compton é o local de nascimento do gangsta rap. The Game é um tipo estúpido que passa a vida a pedir um regresso aos valores do gangsta rap dos N.W.A. Não sabe fazer uma canção sem mencionar Eazy-E e, quando sabe, menciona Dr. Dre. Está sempre a falar do "legado" dos N.W.A. e isso irrita-me. Mas "Compton" é uma óptima canção pop. E o will.i.am não está detestável na prestação vocal dele. Porque só fala e não tenta rimar. E isso é extremamente louvável. Aquele sample do "Gangsta Boogie" apanha-me todas as vezes que o oiço, em qualquer lado.

2. Justin Timberlake - Damn Girl "My Love" é a obra-prima de Timbaland para Timberlake, mas "Damn Girl" também é grande. E é de will.i.am. Os versos dele não soam assim tão mal, mas são bastante maus, sim. Podemos ignorá-los perfeitamente. Futuresex/Lovesound é grande e, mesmo sendo a maioria das faixas produzidas por Timbaland e seguindo um esquema de entrusamento bastante bem pensando, "Damn Girl" não destoa nada lá dentro. É incrível como um tipo com um corte de cabelo horrível, membro de uma boys band estupidamente má, consegue rapar o cabelo, roubar um chapéu e uns passos de dança ao Michael Jackson, treinar um falsete invejável e contratar uns produtores bons e ficar a maior estrela pop dos nossos tempos. E em versão boa. Não podemos negá-lo. E ele até tem pinta para quem veio de onde veio. Ou talvez não. Mas tem mais que will.i.am.

1. Nas - Hip-Hop is Dead Esta é uma colaboração entre duas das pessoas mais mal vestidas dentro do hip-hop mais respeitável. O refrão é brutal, os cânticos de "hip-hop" no fim são enormes e will.i.am sabe quando se conter e quando não se conter. Bastante bom para quem nos deu "My Humps". Há um vídeo de uma actuação de ambos no programa do Jimmy Kimmel. A presença do will.i.am continua a ser incrivelmente irritante, mas até nem funciona mal. "Hip-hop has died this morning and she's dead, she's dead" é algo que fica mesmo bem naquele refrão. Claro que o hip-hop não morreu. Mas Nas sabe isso, perfeitamente. Qual é o mal de ter um single explosivo para marcar o seu primeiro disco na Def Jam e a sua amizade com Jay-Z? Qual é o mal de ser produzido por will.i.am? Nenhum. É até muito bom. "Hip-hop is Dead" é a canção irmã de "Compton", num estilo que podemos dizer facilmente que é will.i.am, ao contrário de, por exemplo, "I Love My Bitch". Um dos singles do ano, vindo de um sítio improvável.

É isto. Só não me peçam para gostar da roupa, da cara, da pose e dos movimentos dele. Nem da banda dele.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Cinco razões para ter barba em 2006

2006, o ano do bigode. Até eu usei durante uns tempos. Mas a barba está longe de estar fora de moda. Aqui, e enquanto não aparecem as listas de melhores do ano (discos e singles), cinco razões que houve em 2006 para ter barba:

5. ?uestlove O baterista dos Roots tem uma barba pouco forte que condiz perfeitamente com o seu gigante afro (ou será um natural?) com pente dentro. É um grande homem, The Game Theory foi injustamente menosprezado e é com muita pena minha que não vou vê-lo ao Musicbox sábado. Dos hoodies aos pêlos faciais, estilo e barba intemporais.

4. O gajo dos Broken Social Scene que é uma versão barbuda do Andy Dick Para começar: eu sei que o nome dele é Brendan Canning. Mas não me lembrava. Lembro-me, sim, da sua barba belíssima durante Paredes de Coura. Sim, Broken Social Scene é de 2005, mas os Broken Social Scene ainda são uma das melhores bandas de indie-rock dos anos 2000. Respeito, pela barba e pela música.

3. Kyp Malone E o que é uma lista sem os TV On The Radio? Nada. Não só a barba, todo o guarda-roupa, as poses e o estilo. O natural no cabelo, a barba na face. A voz (claro, Tunde Adebimpe é o cantor da barba, mas o Kyp Malone também faz muito). A banda, a melhor banda rock do mundo. Afro-estilo para sempre. Grande, enorme, o maior.

2. Dan Bejar Blazers cinzentos e barba. É esta a receita especial do homem dos Destroyer. Houve novo disco de Destroyer, mesmo que ele não tenha passado por cá outra vez (2005, na ZDB, foi enorme) e houve Swan Lake. Beast Moans é grande, mesmo que não se goste da voz de Bejar (e isso é difícil, basta ele dizer "la la la" para eu o canonizar automaticamente, isso não acontece com muitos), há as de Carey Mercer (que esteve cá com os Frog Eyes como banda de suporte e abertura do Bejar) e a de Spencer Krug (dos Wolf Parade e dos Sunset Rubdown). Respeito pelo estilo Shakesperiano e a barba.

1. David Cross Estive indeciso entre dar o primeiro lugar a Dan Bejar ou a David Cross. Um comediante genial, brutal, da participação no Arrested Development ao vídeo de "Sugarcube" dos Yo La Tengo (uma das minhas canções favoritas de sempre). Aliás, até está ligado a Dan Bejar, já fez um vídeo dos New Pornographers, de uma faixa em que Bejar não aparece, nem no vídeo. A razão que me faz pô-lo aqui, a maior, é o facto de o ter visto nos programas do Conan O'Brien e do Jon Stewart com uma barba que impunha respeito. Ele é careca, eu não, mas não deixou de ser responsável por eu ter voltado a deixar crescer a barba. Também apareceu num vídeo de "Juicebox", o single medíocre dos Strokes, mas não deixa de ser o maior. E de ter a maior barba.

2006, o ano do bigode em barbas. Se houvesse lista de bigodes, estaria lá o Jason Lee e o tipo dos Killers (banda medíocre, bigode excelente). E é isto. Amanhã ou depois há mais, entre "Cinco razões para não odiar o will.i.am em 2006" ou "Cinco acontecimentos absolutamente indispensáveis de 2006" e qualquer coisa de que me lembre entretanto.

segunda-feira, novembro 27, 2006

CIMENTO.

No próximo sábado estarei a passar música com CIMENTO. no LEFT em Santos. Bring da motherfuckin' ruckus!, já diziam os outros:

CIMENTO. 'se pimpin' sessions: 02/12/06, LEFT, Santos

Estado da Nação

É dia 27 de Novembro. Há decorações de Natal para aí desde Agosto, mas não faz mal. É Natal, o Hell Hath No Fury dos Clipse é o disco de hip-hop do ano, o Get Lonely dos Mountain Goats é o disco mais bonito do ano, o Rather Ripped dos Sonic Youth e o Return To Cookie Mountain dos TV On The Radio são os discos rock do ano. A ZDB continua a encher com o Ben Chasny, fazedor de música bonita mas gajo chato sozinho ao vivo. Nunca cheguei a correr com o "45:33", o UM está online e os Rapture lançaram um disco aborrecidíssimo com o Danger Mouse. Comecei um programa de rádio com o Vasco M. na Química FM (Partido Amén - ou "Ámen", a Joana jura que é "Ámen", mas no dicionário online da Priberam estão listadas as duas -, sábados das 20 às 22h, 105.4 FM), que quase ninguém pode ouvir (e ainda bem). Não sei o que dizer mais.
Os Neptunes não se cansam de guardar o melhor para os Clipse. Tem o Bilal fora de um contexto soul e consciente (não me lembro de ouvi-lo fora de discos de gente como o Common, alguém se lembra?). O Kelefa Sanneh diz que o Chad Hugo não aparece por lá, mas os beats são tão fora de tudo o que é o normal, do que vende, de, basicamente, tudo, que só confirmam o Pharrell Williams como um génio. Mesmo depois do raio do disco dele, que tinha para aí uma ou duas canções (conservadoras, como "Angel" - "ding-dong!", que tem imensa pinta mas não adiciona nada a lado nenhum) e o resto uma idiotice. Não há disco mais consistente este ano no hip-hop, o único que chega aos calcanhares dele é Blue Collar, do Rhymefest. "Devil's Pie", com o sample de "Someday" dos Strokes (que, dessa forma, estão a adicionar algo à música moderna) e "Build Me Up", com a voz desafinada de Ol' Dirty Bastard (o Jeff Mangum do rap), e o resto é quase todo óptimo, com uma ou duas dispensáveis, mas que não destoam. Mas o Rhymefest tenta ser algo que não é, diz-se tremendamente respeitador e ponderado mas depois é, basicamente, um idiota, na música dele, claro.
O Ty vem cá, o dubstep chegou mas anda chato. Digital Mystikz foi giro, durante meia-hora ou uma hora, o resto aborreceu. O MC não adicionava nada, estava a sentir-se demasiado bem para um género que, supostamente, ilustra de forma bonita a decadência urbana de uma cidade grande como Londres. E, por falar nisso, Children of Men e V for Vendetta são os filmes de ficção científica do ano (ou uma coisa assim, será que contam como isso?), ambos passados em Londres daqui a um porradão de anos e eu que nem gosto dessas coisas. Talvez seja da Julianne Moore e da Natalie Portman.
Há dois parágrafos que me fartei de links (dá um trabalho do caraças), fui a Barcelona ver o Sufjan Stevens, ele trouxe asas de águia e lembrei-me que o adorava (não tenhas medo, Rosie Thomas, é platónico). O Ys da Joanna Newsom é intenso e bonito e é o tipo de coisa que eu gostaria de ter em vinil. Talvez seja barato, é da Drag City. Comprei o Yellow House dos Grizzly Bear e outra Joana contou-me que eles eram uma banda gay e viu-os em Paris e não consigo, por muito que tente, odiá-la por isso. Também viu os TV On The Radio e era a única pessoa do mundo que poderia vê-los e eu não ficar chateado com ela (já tinha ficado chateado com um amigo e com o meu primo). Mas o Tunde Adebimpe estava bêbedo ou assim e parece que foi mau. Os Grizzly Bear não. Isso rendeu-me a a melhor prenda de sempre (obrigado, obrigado, obrigado, espero que ela já saiba o que quero dizer), como é que se pode odiar alguém nestas condições? Não há respeito.
O Kingdom Come chegou e confirma o génio do Just Blaze. O Dr. Dre irrita uma vez, os Neptunes destoam tremendamente, o Chris Martin surpreende (não que tenha algo contra ele, estes casamentos raramente resultam - como será o John Darnielle com o Aesop Rock, já que isso é capaz de acontecer?) numa das faixas mais bonitas do ano. É um bocado por aí. Mas não é o disco do ano, não é, de todo, consistente, mas quando raio é que o Jigga foi consistente? Nem no Reasonable Doubt, nem no Blueprint, nem no Black Album. É isso que a crítica tem esquecido, do Kelefa Sanneh ao Tom Breihan.
E é basicamente isto. Foi o que me saiu nesta altura. O Doctor's Advocate (acho que me enganei e escrevi "Devil" da outra vez) é a maior insistência de sempre numa insignificância. E a perpetuação da notoriedade de uma pessoa extremamente idiota. Trazer o gangsta rap de volta é parvo, pois, infelizmente, ele nunca morreu. Legado dos NWA? "Nigga nigga fuck fuck bitch bitch dope dope", é este o legado deles. O próprio Dre dizia-o. E precisamos disso? Claro que não. Mas há música boa por baixo daquilo tudo, mesmo que queiramos dar um tiro na cabeça do tipo.
Em compensação, dei por mim em Barcelona a ver Arrested Development. O sorriso estampado na cara do Speech, politicamente correcto, música conservadora (banda de versões funk/soul com dois rappers anónimos e genéricos - o "relaxado" e o "agressivo" ou "como levar uma fixação por Sly Stone longe de mais") fez-me ter vontade de abraçar o 50 Cent ou assim. Hipocrisia, sou um hipócrita. A parte boa foi que havia um velho genial no meio do palco que não fazia absolutamente nada senão ser velho e mexer-se um bocado.

terça-feira, outubro 31, 2006

Justin Blaze, pessoa mais importante de sempre

Quando toca ao tópico "The Game", a minha mão direita tem escrito "Love" e a minha mão esquerda "Hate". Mas há algo em que ambas concordam: ambas querem esmurrá-lo. The Game é um idiota. É pouco inteligente, é misógino, adora o estilo de vida gangsta, glorifica a violência enquanto dedica canções a gente que morreu em tiroteios, é, basicamente o pão-nosso-de-cada-dia da ignorânica de muitos rappers americanos. Mas a voz e o flow dele são coisas magníficas que muitos produtores adoram embelezar. E aposto que andam à luta para fazê-lo. "Hate or Love It", "Dreams" e "Church for Thugs" fizeram-me, basicamente, comprar The Documentary (e já escrevi algures que sem remorsos, visto ter sido em segunda mão).
Just Blaze ("Justin Blaze", como o Jigga lhe chama agora) está em fogo. Mesmo. Depois de "Show Me What You Got" (onde Jay-Z lhe chama isso, vi hoje o vídeo, depois dos Wu-Tang Clan no VH1 Hip-Hop Honors que passou na MTV Base, e é carros e carros e carros - a sério, parece um vídeo de Jamiroquai - e James Bond) e "Kingdom Come", ambos de El Presidente, agora aparece-nos "Why You Hate The Game", com direito a coro gospel e nove minutos de puro deleite. The Game com Nas e a Marsha das Floetry num, para citar alguém, "clássico instantâneo". Tem a particularidade de ter o Blaze a falar (e não a rimar, numa entrevista no Village Voice ele dizia que rimava melhor que milhares de rappers - o braggadocio normal - e que, se quisesse, envergonhava toda a gente, mas não queria, até tem uma voz boa, só falta ver o flow dele). Claro que The Game ainda não se esqueceu de aproveitar todas as oportunidades para falar de gente morta, especialmente de Eazy-E (ainda não ouvi nenhum tema do novo Devil's Advocate que não dissesse "Eazy" ou referisse, de alguma forma, o tipo - e se ele continuar em tronco nu mostrará sempre a tatuagem de NWA que tem) e de Compton. Mas isso não é assim tão mau porque ninguém (espero eu) gosta dele pelo que ele tem para dizer. É que ele não tem nada para dizer.
Na capa da Urb de um mês destes estava o David Andrew Sitek (dos TV on The Radio), o Tadd Mullinix (Dabrye) e o Just Blaze. Todos lado a lado vestindo fatos impecáveis. São os produtores, segundo a revista, mais importantes da actualidade. Concordo com a parte do Sitek e do Blaze, e o Mullinix também é grande. Pode não ser o único a dar piada ao The Game, mas é um dos que o faz melhor (o Kanye West também é grande a fazê-lo, e descobri hoje que o disco do ano para ele é o The Eraser do Thom Yorke, mas mesmo antes ele já tinha estragado tudo dizendo que gostava muito de Keane). E não pára. Estou a prever mais cinco ou seis grandes malhas do Blaze até ao final do ano. Como diz o Jigga, "you got two months to put your shit together", Blaze, e eu sei que consegues fazê-lo num só dia.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Para continuar os dois últimos posts

Tenho andado sem grande atenção ao mundo em geral (nas últimas 3 semanas acumulei mais jornais, revistas e suplementos de jornais que nunca, sem sequer chegar a lê-los realmente, o que é mau porque perdi o texto do Mário Lopes sobre Grizzly Bear - só o apanhei agora - no Y de não-sei-quando e o texto do João Bonifácio sobre Ty no mesmo - não percebo porque é que é assim tão estranho haver um MC que não objectifica as mulheres e não fala de violência, há milhares assim e é altura de isso deixar de ser assim tão especial, mas nunca deixará de ser louvável, não significa, obviamente, automaticamente boa música, tenho quase a certeza de que o Mike Shiinoda não é dessa onda e, apesar disso, é a maior nulidade musical de todo o sempre), por isso perdi o aparecimento de "Lost Ones". É a terceira faixa que aparece por aí de Kingdom Come, e é basicamente uma grande desilusão. É "Feelin' It", tema do Reasonable Doubt, dez anos depois sem nada de especial. Não vale, pura e simplesmente, a pena.
Quanto a LCD Soundsystem, tenho ouvido o tal set no autocarro e fico sempre com vontade de sair duas ou três paragens antes para vir a correr para casa, mas entretanto adormeço sempre e não consigo fazê-lo. Quando entram os sopros não há nada melhor. Tenho mesmo de começar a correr. O Tom Breihan não gosta de nenhuma das faixas que apareceram por aí do Jay-Z. Mas gosta dos Killers. Basicamente - e até posso de vez em quando admitir que os Killers tinham um ou dois singles memoráveis (irritantes mas memoráveis) no primeiro disco -, não consigo lembrar-me das mil audições que fiz do "When You Were Young" ou lá como se chama. Só me lembro que o tipo agora tem um bigode (e isso é, basicamente, sempre louvável).
Apareceu por aí uma nova produção dos Neptunes para a Gwen Stefani e...ela canta yodel, não há propriamente paciência para isso, por isso é para descartar. Fui ao aniversário da ZDB ontem, com Blectum from Blechdom, e acho sempre louvável fazer-se electrónica de brincar com as gémeas Olsen a passar por trás. E a cantar. Gosto do facto de elas terem nascido no meu ano. Acho que estou a começar a gostar de dubstep (fui para os estúdios da Valentim de Carvalho a ouvir Burial - estava a chover e andei de transportes públicos, é difícil ser mais urbano decadente que isso - e a capa do UM fez-me pegar em Kode 9 and The Space Ape e parece-me tudo muito bem) e a querer fortemente que chegue o dia 18 para ver Digital Mystikz com Buraka Som Sistema algures em Lisboa, organizado pela ZDB. É algo que chega cá à hora certa, que apanha algo de cá mais ou menos também à hora certa, e todos ficamos a ganhar se for num barracão como aquele em que foram os Animal Collective em Cacilhas e se aparecer gente como aquela que aparece nas fotografias de festas do Cobra Snake. Falhei Bonde do Role no Mercado por falta de paciência para baile-funk, espero não falhar isso.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Pois

Entretanto saiu o primeiro número a sério do UM, com uma gralha minha ("saxofone alto" em vez de "saxofone tenor", num texto sobre o Barreiro Rocks), com outros textos meus (entrevista a Nigga Poison e texto sobre o concerto de Final Fantasy no Club Lua). Entretanto ontem fui à televisão, e hoje estarei no Lounge na festa do Bodyspace a passar música. Entretanto, supostamente, o James Murphy "vendeu-se" à Nike e isso não me faz confusão nenhuma ("45:33" é enorme, acho que vou começar a correr).

domingo, outubro 15, 2006

Kingdom Come

É estranho. "Foda-se" foi a única palavra que me passou pela cabeça anteontem. Disse-a várias vezes depois de ver os Comets on Fire, a várias pessoas. Não conseguia dizer algo diferente. Depois não consegui escrever algo diferente. Os Comets on Fire são demasiado bons ao vivo para escrever sobre eles. É uma experiência intensa que merece ser vivida e não lida. Deixo isso para outras pessoas que o farão talvez melhor que eu. Antes do concerto, T.I., Cassie, Ruff Sqwad e Talib Kweli. Gosto disso, é como o Timbaland gostar de Black Dice, dois mundos completamente diferentes que se encontram algures. E, felizmente, não foi a primeira vez que ouvi "Get By" (Kanye West a samplar Nina Simone, com o Kweli em grande forma, ou melhor, na melhor forma possível, já que ele, tecnicamente, nunca poderá ser muito grande) ali.
Mas isto é só uma desculpa para falar de algo bem mais actual. Algo que ainda não aconteceu de facto. Já toda a gente escreveu sobre isto antes de mim. Mas só ontem é que arranjei forma de ouvir bem "Kingdom Come", o tema-título de Kingdom Come, o disco de regresso do Jay-Z. Ele é o Michael Jordan do rap, saiu da reforma para voltar e salvar o mundo. E trouxe, de repente, milhares de referências a banda-desenhada. É sobre isso que versa "Kingdome Come". Antes disso, há o primeiro single, "Show Me What You Got". Ambos os temas são produções enormes de Just Blaze, do qual ninguém, hoje em dia, espera menos que o melhor (há muitas e muitas razões para isso).
Jay-Z é o Batman, mas em vez daquela luz no céu da cidade de Gotham, basta juntar as mãos e fazer o sinal da Roc-A-Fella no ar, e ele aparece. Um super-herói à antiga, que regressou da reforma para salvar o mundo. "I'm hip-hop's savior", diz ele. Será? Numa altura em que o Nas está para lançar um disco que diz, no próprio título, que o hip-hop morreu, será que o Jay-Z é o super-herói que vai salvar não só Nova Iorque, como o mundo todo? Será que serão os dois? Os dois ex-rivais juntos para combater o mal? Se forem, será que terão o bom gosto de não usar capas? Espero que sim. Mas nada disso interessa, no final de contas, porque o que interessa é a música. Os sample de saxofone de "Show Me What You Got" é muito bom, mesmo que, se fechar bem os olhos, me lembre de Sade ou de um single do George Michael. Depois de "Pressure", do Lupe Fiasco, o Jay-Z continua em grande e nada mau poderá vir de Kingdom Come. "The ruler's back", e ainda bem.

terça-feira, outubro 10, 2006

Duas ou três ou mais ideias parvas

- O Barreiro é um sítio simpático e acolhedor. Já o tinha sido durante o OutFest do ano passado, apesar de ter estado lá basicamente meia-hora, mas provou sê-lo mais uma vez durante o Barreiro Rocks (e ainda bem que perdi o último barco no sábado);
- O M. Night Shyamalan continua a ser um parolo - basta olhar para a forma como se veste e como se mostra em frente da câmara no Lady in the Water, que raio de realizador respeitável é que faz isso? - e um realizador com um talento moderado que estraga tudo por ser parvo (Unbreakable é, talvez, um dos piores filmes de todo o sempre);
- Black Dahlia é naquela;
- Duas ou três ou mais ideias parvas para um 2007 melhor:
    - Os TV On The Radio virem cá;
    - O Timbaland parar de aparecer todos os dias na minha televisão de wife-beater (e, noutro campeonato, o Nuno Markl nos cinemas a que vou). A sério. Porque é que eu preciso disso? Parece que passou os últimos anos a fazer musculação e a comprar sintetizadores (deu-nos "My Love", do Justin Timberlake com o T.I., uma das malhas do ano, e aqueles singles da Nelly Furtado, mas, sinceramente, já chega de anos 80 bem transpostos para os anos 2000);
    - O Francisco Silva de Old Jerusalem - nem que seja ao vivo, onde falta sempre qualquer coisa à música dele, não sei bem dizer o quê, mas confirmei-o no outro dia - fazer uma versão de "Thirteen" dos Big Star, mesmo que a voz dele não seja a mais adequada para isso, para suplantar a versão do Elliott Smith;
    - Apagar da nossa memória colectiva todas as referências aos Fall Out Boy e quejandos, nos quais se incluem os protegidos deles como os Panic! At the Disco ou os Gym Class Heroes (no final do Snakes on a Plane, o melhor filme de todo o sempre, aparecem estes e estragam tudo, é indescritível, mesmo antes do "Ophidiophobia" do Cee-Lo, a melhor canção de sempre), não são necessários para nada e só poluem o mundo;
    - Aprender a arranjar mais tempo para escrever e ler o que quero sem ter problemas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Divagações livres e sem sentido sobre Neutral Milk Hotel e Mountain Goats

Não tenho um diário. Tinha um caderno parvo no outro dia e tinha bebido e apeteceu-me escrever o que me veio à cabeça numa noite em que não me apetecia propriamente dormir e estava a ouvir, como sempre, o In The Aeroplane Over The Sea. Uma parvoíce. Nem me lembro bem do que estava lá escrito, e como já não escrevia cá há algum tempo, decidi publicar estas divagações sobre duas paixões.





terça-feira, agosto 29, 2006

In one more hour I will be gone

Acabaram. Já há algum tempo. Já sabia antes de se saber, disseram-me. Esperava que não fosse verdade. Mas era. Já houve artigos e artigos e artigos sobre isso. Este não é mais um. É só triste. Cheguei às Sleater-Kinney definitivamente apenas o ano passado, com The Woods. Muitos fãs não gostam. Eu adoro. Tinha ouvido antes outros discos delas, mas tudo o que vinha para trás parecia-me demasiado igual. Sei lá. Já foi há alguns anos.
Algures no princípio do ano, com o catálogo da Matador em promoção na FNAC, telefonei a uma amiga para perguntar qual era o melhor álbum delas. Ela disse-me Dig Me Out, e eu comprei. E é um disco óptimo, e tem uma (aliás, muitas) canção enorme: "One More hour". Acontece que foi com esta canção que elas se despediram para sempre. Ontem, ou anteontem, li um artigo na Pitchfork que me fez adormecer ao som do disco, e lembrar-me de quão boa era essa canção. As guitarras entrecruzadas, a voz sempre estridente, ou as duas vozes juntas, são coisas belíssimas e poderosas e fortes e feias e bonitas e pujantes e enormes, tudo ao mesmo tempo.
E hoje encontrei o vídeo do final do último concerto delas no YouTube. O abraço no final é das coisas mais comoventes de sempre e todo o vídeo é belíssimo. Três mulheres a fazerem aquilo que gostam mais de fazer na vida, com uma entrega e uma comoção visível. É algo bonito. E a canção também. Porque é que se deixaram disto? Talvez achem que é melhor sair antes de fazerem algo embaraçoso, para não estragar o legado que está para trás. Se calhar acharam que tinham chegado onde queriam chegar, com uma obra-prima, The Woods. E esta foi a melhor maneira de dizer adeus:


sexta-feira, agosto 25, 2006

Lost without you, half dead

Estou agradecido, do fundo do coração, à namorada do John Darnielle que o deixou. Aliás, a todas as que o deixaram, a todas as que não chegaram sequer a estar com ela, a todas. Porque foram elas que fizeram Get Lonely, que é provavelmente das coisas mais bonitas que ouvirei este ano. Nunca fui grande fã dos Mountain Goats até The Sunset Tree, e se esse era um disco sobre o padastro abusivo daquele que é o protótipo do indie rocker dos anos 2000 - lido, ecléctico (adora hip-hop e metal), carismático e cheio de piada, com um sentido de humor brutal -, este é um disco sobre o final de uma relação.
Fui ver, há pouco menos de um mês, The Break Up, o filme que tenta fingir que há uma química desvanecente entre Jennifer Aniston e Vince Vaughn. Não há. E também não há piadas. Há uma comédia proto-séria que tenta lidar com o tema, mas nunca chega bem lá. Get Lonely é tudo aquilo que The Break Up não é. Não sei porquê, mas a crítica tem recebido Get Lonely como um disco mais negro e deprimente que The Sunset Tree. Parece-me, contudo, que é bem mais fácil a pessoa comum perceber o que ele canta em Get Lonely do que em The Sunset Tree. E “canta” é a palavra-chave aqui, porque Darnielle parece estar bem mais preocupado em escrever canções propriamente ditas, com óptimas melodias e óptimos arranjos - envolvem piano, violencelo, guitarra, baixo e bateria (e um metalofone em "Half Dead" e sopros lá para o final do disco), tudo belíssimo - do que no seu modo verborreico de contar histórias em que parece não conseguir parar de falar. E canta-as com uma voz suave e sussurada, num falsete frágil estranho mas também bonito. E funciona.
John Darnielle canta sobre acordar sozinho e arrumar a casa e fazer todas as tarefas do dia-a-dia sem alguém a seu lado. Escolhe as palavras como ninguém e tem a música perfeita para as acompanhar. Aliás, mais do que acompanhar, já que as palavras e a música são indissociáveis. E é impossível não gostar de John Darnielle, um tipo com piada que faz música triste, ou um tipo triste que faz música com piada. É os dois ao mesmo tempo, depende do disco. Neste está triste, mas sabemos sempre que ele tem um sentido de humor incomparável. Acho que todos devíamos estar eternamente gratos às mulheres da vida de Darnielle que lhe fizeram mal e, como exemplificado no vídeo que se segue, eternamente chateados com o barbeiro dele.


segunda-feira, agosto 21, 2006

Oh Morrissey, so much to answer for...

Já passou quase uma semana. Já houve tempo para pensar e, especialmente, pela primeira vez, reouvir o concerto. Viva a Antena 3 e os piratas que ficam em casa e se dedicam a pôr aquilo na internet. É bom andar pela rua a ouvir o concerto de um dos nossos heróis pessoais que vimos dias antes e pensar "eu estive lá." Até porque é verdade. Eu estive lá, a escassos metros do palco, a ver aquela figura que tanto fascínio exerce sobre mim há anos e anos.
E ver essa figura ir-se embora, do nada, a meio de "Panic", foi um duro golpe no estômago. Foi-o para toda a gente que fosse fã dele. É impossível não ficar impressionado e decepcionado e triste com aquilo. Mas ele faz o que quer. Nós, que o conhecemos melhor que ninguém, sabemos melhor que ninguém que ele não é nem nunca foi boa pessoa. Aliás, deve ser um dos seres humanos mais detestáveis do mundo inteiro. Talvez por achar que a raça humana é, no seu todo, detestável e não ter esperança nas pessoas. Nós, os fãs, não somos assim. E eu odeio fãs de bandas, fãs de artistas, mas desculpo isto. Bem, não desculpo Is It Really So Strange?, o documentário assustador que vi no IndieLisboa sobre os fãs dos Smiths e do Morrissey. Não, não são fãs como nós. São pessoas doentias, que mais do que saberem todas as letras do maior poeta pop de sempre, sabem onde ele mora, fazem tatuagens de autógrafos dele, guardam como melhores dias das suas vidas os dias em que o viram, em que ele lhes tocou. E ele não sabe sequer quem eles são. Não quer saber deles. Alimenta-se deles. Mas aqui é que está a estranheza: ele dá-lhes muito mais do que quer dar. Ele, não querendo saber deles, ajuda-os. E da melhor forma, através da música. Pediu-nos, aos fãs, uma vez: "But don't forget the songs / That made you cry / And the songs that saved your life." E todos nos lembrámos. E foram as dele que fizeram isso.
É estranho, quando nos entregamos totalmente a um concerto e esperamos que ele cante isto ou aquilo. Ele fá-lo todas as noites, ou frequentemente. Escolhe o que quiser, e é interessante como, através do seu livre-arbítrio, ele consegue condicionar-nos. Podia estar antes do concerto a comer uma sandes de tofu a pensar "hoje não toco nada do The Queen is Dead porque não me apetece." E não tocou. Para quem esperava que isso acontecesse, foi triste. Mas há coisas bem piores. Vimos todos o nosso herói, nós, os fãs, algumas das pessoas mais irritantes do mundo. E ele faz de nós o que quiser. O que quiser. E o pior é que nós gostamos disso.

sábado, agosto 12, 2006

UM

Chegou às FNACs na quinta-feira a edição 0,5 do UM, um novo jornal de música, basicamente, mas que quer também fazer-se de outras coisas. Sou colaborador do mesmo, e esta edição, que também estará disponível em Paredes de Coura ("ao pontapé", dizem os responsáveis), tem um texto meu sobre o Return to Cookie Mountain dos TV On The Radio, disco que eu nunca escondi ser um dos meus favoritos do ano. Mais informações no blog do patrão, no blog do colega e no blog do futuro colega.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Let's not kid ourselves

É estranho, mas compreensível nesta era, ter um disco há 7 meses ainda dentro do plástico. Comprei, durante os saldos da AnAnAnA, quando me sobraram 12,5 €, o último disco dos Silver Jews. Obviamente, tinha-o em mp3, mas, como não tenho um gira-discos em casa, não o abri até hoje. De férias, tenho gira-discos, mas um que anda um pouco depressa de mais. Mesmo assim, deu para me lembrar o quanto gosto do disco.
Não conheço outros discos dos Silver Jews, e sei que o Dave Berman deve ser uma pessoa horrível. O que me chamou a atenção para ele foram, como costuma ser muitas vezes, os textos do João Bonifácio sobre o disco. Ele conhece-o e tudo e não me lembro de alguma vez ter falado com ele sobre isso, mas o Dave Berman deve ser uma pessoa mesmo difícil. Lembro-me também que, antes de ler o Last Plane to Jakarta, o melhor blog de sempre, o que me chamou a atenção para o génio do John Darnielle e dos Mountain Goats foram os textos do Bonifácio, que é basicamente uma coisa que me tem acompanhado neste verão ("Get Lonely" é das canções do ano e o recém-descoberto falsete do Darnielle é uma coisa deliciosa, quase tão deliciosa quanto os textos dele e as entrevistas - uma ao Tom Breihan em que ele falava de banda-desenhada, de metal e do Scarface era genial, é interessante ver como ele é o protótipo do indie-rocker em 2006 e é um fã confesso de hip-hop e metal, o que só mostra como o mundo mudou). É estranho, o Dave Berman é um poeta, acima de tudo, mas escreve óptimas canções com melodias e guitarras perfeitas que ficam na cabeça. Não me lembro, sinceramente, de gostar assim tanto do disco, tirando as frases ocasionais, como "If it ever gets really really bad / let's not kid ourselves: it gets really really bad" ou "Fast cars, fine ass / these things will pass."
O tipo tem uma barba e bebe muito álcool e outras drogas e deve ser uma pessoa deprimente e difícil de aturar. Mas faz música tão bonita. É difícil ficar chateado com ele quando diz que o Adão e Eva eram judeus. Mas nem tudo é bom. Os bootlegs que apareceram aí dos Silver Jews ao vivo - primeiros concertos de sempre - são sofríveis. Mas ele há-de chegar lá. E, com esperança, cá.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Arthur Lee

Aconteceu-me a mesma coisa quando o John Peel morreu. No dia em que se descobriu que tinha morrido, estava a explicar ao meu irmão quem ele era. "Não sabes quem é o John Peel?" E, pouco depois, ele tinha morrido. Hoje, não faço ideia porquê, quando acordei quis ouvir o Forever Changes dos Love. Alguma vez o teria ouvido pela primeira vez se não tivesse lido que era um grande disco? Não me parece, não é propriamente de um género que me atraia muito, mas graças a listas e listas dos melhores discos de sempre, conheci-o.
E hoje ouvi o Forever Changes. E pensava na personalidade maior-do-que-a-vida de Arthur Lee, da entrevista que ele deu ao Blitz há dois anos ou três anos, em que provava estar completamente louco. Mas não interessa. Há umas semanas, invejava o Robert Christgau, por ter feito 60 anos e ter passado o mês de Junho a ver concertos. Um deles era um tributo aos Love com imensa gente interessante, incluíndo os Yo La Tengo. Lembro-me de pensar que gostava de ser assim quando fosse grande. Mas o Christgau vive em Nova Iorque, esteve lá em quase todas as maiores revoluções musicais daquela cidade dos últimos 30-40 anos, aposto que tratava os seguranças do CBGB pelo nome próprio, etc. Era um artigo bestial, e tinha há pouco tempo comprado a reedição de 2001 do Forever Changes por um preço estupidamente barato. E hoje ouvi o disco.
Não posso dizer que conheça mais discos dele, mas não me lembro de não gostar daquele disco. Agora descobri que ele morreu, no dia em que me apeteceu, não sei por que raio, tirar o disco da caixa e ouvi-lo. É um dia triste.