terça-feira, outubro 31, 2006

Justin Blaze, pessoa mais importante de sempre

Quando toca ao tópico "The Game", a minha mão direita tem escrito "Love" e a minha mão esquerda "Hate". Mas há algo em que ambas concordam: ambas querem esmurrá-lo. The Game é um idiota. É pouco inteligente, é misógino, adora o estilo de vida gangsta, glorifica a violência enquanto dedica canções a gente que morreu em tiroteios, é, basicamente o pão-nosso-de-cada-dia da ignorânica de muitos rappers americanos. Mas a voz e o flow dele são coisas magníficas que muitos produtores adoram embelezar. E aposto que andam à luta para fazê-lo. "Hate or Love It", "Dreams" e "Church for Thugs" fizeram-me, basicamente, comprar The Documentary (e já escrevi algures que sem remorsos, visto ter sido em segunda mão).
Just Blaze ("Justin Blaze", como o Jigga lhe chama agora) está em fogo. Mesmo. Depois de "Show Me What You Got" (onde Jay-Z lhe chama isso, vi hoje o vídeo, depois dos Wu-Tang Clan no VH1 Hip-Hop Honors que passou na MTV Base, e é carros e carros e carros - a sério, parece um vídeo de Jamiroquai - e James Bond) e "Kingdom Come", ambos de El Presidente, agora aparece-nos "Why You Hate The Game", com direito a coro gospel e nove minutos de puro deleite. The Game com Nas e a Marsha das Floetry num, para citar alguém, "clássico instantâneo". Tem a particularidade de ter o Blaze a falar (e não a rimar, numa entrevista no Village Voice ele dizia que rimava melhor que milhares de rappers - o braggadocio normal - e que, se quisesse, envergonhava toda a gente, mas não queria, até tem uma voz boa, só falta ver o flow dele). Claro que The Game ainda não se esqueceu de aproveitar todas as oportunidades para falar de gente morta, especialmente de Eazy-E (ainda não ouvi nenhum tema do novo Devil's Advocate que não dissesse "Eazy" ou referisse, de alguma forma, o tipo - e se ele continuar em tronco nu mostrará sempre a tatuagem de NWA que tem) e de Compton. Mas isso não é assim tão mau porque ninguém (espero eu) gosta dele pelo que ele tem para dizer. É que ele não tem nada para dizer.
Na capa da Urb de um mês destes estava o David Andrew Sitek (dos TV on The Radio), o Tadd Mullinix (Dabrye) e o Just Blaze. Todos lado a lado vestindo fatos impecáveis. São os produtores, segundo a revista, mais importantes da actualidade. Concordo com a parte do Sitek e do Blaze, e o Mullinix também é grande. Pode não ser o único a dar piada ao The Game, mas é um dos que o faz melhor (o Kanye West também é grande a fazê-lo, e descobri hoje que o disco do ano para ele é o The Eraser do Thom Yorke, mas mesmo antes ele já tinha estragado tudo dizendo que gostava muito de Keane). E não pára. Estou a prever mais cinco ou seis grandes malhas do Blaze até ao final do ano. Como diz o Jigga, "you got two months to put your shit together", Blaze, e eu sei que consegues fazê-lo num só dia.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Para continuar os dois últimos posts

Tenho andado sem grande atenção ao mundo em geral (nas últimas 3 semanas acumulei mais jornais, revistas e suplementos de jornais que nunca, sem sequer chegar a lê-los realmente, o que é mau porque perdi o texto do Mário Lopes sobre Grizzly Bear - só o apanhei agora - no Y de não-sei-quando e o texto do João Bonifácio sobre Ty no mesmo - não percebo porque é que é assim tão estranho haver um MC que não objectifica as mulheres e não fala de violência, há milhares assim e é altura de isso deixar de ser assim tão especial, mas nunca deixará de ser louvável, não significa, obviamente, automaticamente boa música, tenho quase a certeza de que o Mike Shiinoda não é dessa onda e, apesar disso, é a maior nulidade musical de todo o sempre), por isso perdi o aparecimento de "Lost Ones". É a terceira faixa que aparece por aí de Kingdom Come, e é basicamente uma grande desilusão. É "Feelin' It", tema do Reasonable Doubt, dez anos depois sem nada de especial. Não vale, pura e simplesmente, a pena.
Quanto a LCD Soundsystem, tenho ouvido o tal set no autocarro e fico sempre com vontade de sair duas ou três paragens antes para vir a correr para casa, mas entretanto adormeço sempre e não consigo fazê-lo. Quando entram os sopros não há nada melhor. Tenho mesmo de começar a correr. O Tom Breihan não gosta de nenhuma das faixas que apareceram por aí do Jay-Z. Mas gosta dos Killers. Basicamente - e até posso de vez em quando admitir que os Killers tinham um ou dois singles memoráveis (irritantes mas memoráveis) no primeiro disco -, não consigo lembrar-me das mil audições que fiz do "When You Were Young" ou lá como se chama. Só me lembro que o tipo agora tem um bigode (e isso é, basicamente, sempre louvável).
Apareceu por aí uma nova produção dos Neptunes para a Gwen Stefani e...ela canta yodel, não há propriamente paciência para isso, por isso é para descartar. Fui ao aniversário da ZDB ontem, com Blectum from Blechdom, e acho sempre louvável fazer-se electrónica de brincar com as gémeas Olsen a passar por trás. E a cantar. Gosto do facto de elas terem nascido no meu ano. Acho que estou a começar a gostar de dubstep (fui para os estúdios da Valentim de Carvalho a ouvir Burial - estava a chover e andei de transportes públicos, é difícil ser mais urbano decadente que isso - e a capa do UM fez-me pegar em Kode 9 and The Space Ape e parece-me tudo muito bem) e a querer fortemente que chegue o dia 18 para ver Digital Mystikz com Buraka Som Sistema algures em Lisboa, organizado pela ZDB. É algo que chega cá à hora certa, que apanha algo de cá mais ou menos também à hora certa, e todos ficamos a ganhar se for num barracão como aquele em que foram os Animal Collective em Cacilhas e se aparecer gente como aquela que aparece nas fotografias de festas do Cobra Snake. Falhei Bonde do Role no Mercado por falta de paciência para baile-funk, espero não falhar isso.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Pois

Entretanto saiu o primeiro número a sério do UM, com uma gralha minha ("saxofone alto" em vez de "saxofone tenor", num texto sobre o Barreiro Rocks), com outros textos meus (entrevista a Nigga Poison e texto sobre o concerto de Final Fantasy no Club Lua). Entretanto ontem fui à televisão, e hoje estarei no Lounge na festa do Bodyspace a passar música. Entretanto, supostamente, o James Murphy "vendeu-se" à Nike e isso não me faz confusão nenhuma ("45:33" é enorme, acho que vou começar a correr).

domingo, outubro 15, 2006

Kingdom Come

É estranho. "Foda-se" foi a única palavra que me passou pela cabeça anteontem. Disse-a várias vezes depois de ver os Comets on Fire, a várias pessoas. Não conseguia dizer algo diferente. Depois não consegui escrever algo diferente. Os Comets on Fire são demasiado bons ao vivo para escrever sobre eles. É uma experiência intensa que merece ser vivida e não lida. Deixo isso para outras pessoas que o farão talvez melhor que eu. Antes do concerto, T.I., Cassie, Ruff Sqwad e Talib Kweli. Gosto disso, é como o Timbaland gostar de Black Dice, dois mundos completamente diferentes que se encontram algures. E, felizmente, não foi a primeira vez que ouvi "Get By" (Kanye West a samplar Nina Simone, com o Kweli em grande forma, ou melhor, na melhor forma possível, já que ele, tecnicamente, nunca poderá ser muito grande) ali.
Mas isto é só uma desculpa para falar de algo bem mais actual. Algo que ainda não aconteceu de facto. Já toda a gente escreveu sobre isto antes de mim. Mas só ontem é que arranjei forma de ouvir bem "Kingdom Come", o tema-título de Kingdom Come, o disco de regresso do Jay-Z. Ele é o Michael Jordan do rap, saiu da reforma para voltar e salvar o mundo. E trouxe, de repente, milhares de referências a banda-desenhada. É sobre isso que versa "Kingdome Come". Antes disso, há o primeiro single, "Show Me What You Got". Ambos os temas são produções enormes de Just Blaze, do qual ninguém, hoje em dia, espera menos que o melhor (há muitas e muitas razões para isso).
Jay-Z é o Batman, mas em vez daquela luz no céu da cidade de Gotham, basta juntar as mãos e fazer o sinal da Roc-A-Fella no ar, e ele aparece. Um super-herói à antiga, que regressou da reforma para salvar o mundo. "I'm hip-hop's savior", diz ele. Será? Numa altura em que o Nas está para lançar um disco que diz, no próprio título, que o hip-hop morreu, será que o Jay-Z é o super-herói que vai salvar não só Nova Iorque, como o mundo todo? Será que serão os dois? Os dois ex-rivais juntos para combater o mal? Se forem, será que terão o bom gosto de não usar capas? Espero que sim. Mas nada disso interessa, no final de contas, porque o que interessa é a música. Os sample de saxofone de "Show Me What You Got" é muito bom, mesmo que, se fechar bem os olhos, me lembre de Sade ou de um single do George Michael. Depois de "Pressure", do Lupe Fiasco, o Jay-Z continua em grande e nada mau poderá vir de Kingdom Come. "The ruler's back", e ainda bem.

terça-feira, outubro 10, 2006

Duas ou três ou mais ideias parvas

- O Barreiro é um sítio simpático e acolhedor. Já o tinha sido durante o OutFest do ano passado, apesar de ter estado lá basicamente meia-hora, mas provou sê-lo mais uma vez durante o Barreiro Rocks (e ainda bem que perdi o último barco no sábado);
- O M. Night Shyamalan continua a ser um parolo - basta olhar para a forma como se veste e como se mostra em frente da câmara no Lady in the Water, que raio de realizador respeitável é que faz isso? - e um realizador com um talento moderado que estraga tudo por ser parvo (Unbreakable é, talvez, um dos piores filmes de todo o sempre);
- Black Dahlia é naquela;
- Duas ou três ou mais ideias parvas para um 2007 melhor:
    - Os TV On The Radio virem cá;
    - O Timbaland parar de aparecer todos os dias na minha televisão de wife-beater (e, noutro campeonato, o Nuno Markl nos cinemas a que vou). A sério. Porque é que eu preciso disso? Parece que passou os últimos anos a fazer musculação e a comprar sintetizadores (deu-nos "My Love", do Justin Timberlake com o T.I., uma das malhas do ano, e aqueles singles da Nelly Furtado, mas, sinceramente, já chega de anos 80 bem transpostos para os anos 2000);
    - O Francisco Silva de Old Jerusalem - nem que seja ao vivo, onde falta sempre qualquer coisa à música dele, não sei bem dizer o quê, mas confirmei-o no outro dia - fazer uma versão de "Thirteen" dos Big Star, mesmo que a voz dele não seja a mais adequada para isso, para suplantar a versão do Elliott Smith;
    - Apagar da nossa memória colectiva todas as referências aos Fall Out Boy e quejandos, nos quais se incluem os protegidos deles como os Panic! At the Disco ou os Gym Class Heroes (no final do Snakes on a Plane, o melhor filme de todo o sempre, aparecem estes e estragam tudo, é indescritível, mesmo antes do "Ophidiophobia" do Cee-Lo, a melhor canção de sempre), não são necessários para nada e só poluem o mundo;
    - Aprender a arranjar mais tempo para escrever e ler o que quero sem ter problemas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Divagações livres e sem sentido sobre Neutral Milk Hotel e Mountain Goats

Não tenho um diário. Tinha um caderno parvo no outro dia e tinha bebido e apeteceu-me escrever o que me veio à cabeça numa noite em que não me apetecia propriamente dormir e estava a ouvir, como sempre, o In The Aeroplane Over The Sea. Uma parvoíce. Nem me lembro bem do que estava lá escrito, e como já não escrevia cá há algum tempo, decidi publicar estas divagações sobre duas paixões.





terça-feira, agosto 29, 2006

In one more hour I will be gone

Acabaram. Já há algum tempo. Já sabia antes de se saber, disseram-me. Esperava que não fosse verdade. Mas era. Já houve artigos e artigos e artigos sobre isso. Este não é mais um. É só triste. Cheguei às Sleater-Kinney definitivamente apenas o ano passado, com The Woods. Muitos fãs não gostam. Eu adoro. Tinha ouvido antes outros discos delas, mas tudo o que vinha para trás parecia-me demasiado igual. Sei lá. Já foi há alguns anos.
Algures no princípio do ano, com o catálogo da Matador em promoção na FNAC, telefonei a uma amiga para perguntar qual era o melhor álbum delas. Ela disse-me Dig Me Out, e eu comprei. E é um disco óptimo, e tem uma (aliás, muitas) canção enorme: "One More hour". Acontece que foi com esta canção que elas se despediram para sempre. Ontem, ou anteontem, li um artigo na Pitchfork que me fez adormecer ao som do disco, e lembrar-me de quão boa era essa canção. As guitarras entrecruzadas, a voz sempre estridente, ou as duas vozes juntas, são coisas belíssimas e poderosas e fortes e feias e bonitas e pujantes e enormes, tudo ao mesmo tempo.
E hoje encontrei o vídeo do final do último concerto delas no YouTube. O abraço no final é das coisas mais comoventes de sempre e todo o vídeo é belíssimo. Três mulheres a fazerem aquilo que gostam mais de fazer na vida, com uma entrega e uma comoção visível. É algo bonito. E a canção também. Porque é que se deixaram disto? Talvez achem que é melhor sair antes de fazerem algo embaraçoso, para não estragar o legado que está para trás. Se calhar acharam que tinham chegado onde queriam chegar, com uma obra-prima, The Woods. E esta foi a melhor maneira de dizer adeus:


sexta-feira, agosto 25, 2006

Lost without you, half dead

Estou agradecido, do fundo do coração, à namorada do John Darnielle que o deixou. Aliás, a todas as que o deixaram, a todas as que não chegaram sequer a estar com ela, a todas. Porque foram elas que fizeram Get Lonely, que é provavelmente das coisas mais bonitas que ouvirei este ano. Nunca fui grande fã dos Mountain Goats até The Sunset Tree, e se esse era um disco sobre o padastro abusivo daquele que é o protótipo do indie rocker dos anos 2000 - lido, ecléctico (adora hip-hop e metal), carismático e cheio de piada, com um sentido de humor brutal -, este é um disco sobre o final de uma relação.
Fui ver, há pouco menos de um mês, The Break Up, o filme que tenta fingir que há uma química desvanecente entre Jennifer Aniston e Vince Vaughn. Não há. E também não há piadas. Há uma comédia proto-séria que tenta lidar com o tema, mas nunca chega bem lá. Get Lonely é tudo aquilo que The Break Up não é. Não sei porquê, mas a crítica tem recebido Get Lonely como um disco mais negro e deprimente que The Sunset Tree. Parece-me, contudo, que é bem mais fácil a pessoa comum perceber o que ele canta em Get Lonely do que em The Sunset Tree. E “canta” é a palavra-chave aqui, porque Darnielle parece estar bem mais preocupado em escrever canções propriamente ditas, com óptimas melodias e óptimos arranjos - envolvem piano, violencelo, guitarra, baixo e bateria (e um metalofone em "Half Dead" e sopros lá para o final do disco), tudo belíssimo - do que no seu modo verborreico de contar histórias em que parece não conseguir parar de falar. E canta-as com uma voz suave e sussurada, num falsete frágil estranho mas também bonito. E funciona.
John Darnielle canta sobre acordar sozinho e arrumar a casa e fazer todas as tarefas do dia-a-dia sem alguém a seu lado. Escolhe as palavras como ninguém e tem a música perfeita para as acompanhar. Aliás, mais do que acompanhar, já que as palavras e a música são indissociáveis. E é impossível não gostar de John Darnielle, um tipo com piada que faz música triste, ou um tipo triste que faz música com piada. É os dois ao mesmo tempo, depende do disco. Neste está triste, mas sabemos sempre que ele tem um sentido de humor incomparável. Acho que todos devíamos estar eternamente gratos às mulheres da vida de Darnielle que lhe fizeram mal e, como exemplificado no vídeo que se segue, eternamente chateados com o barbeiro dele.


segunda-feira, agosto 21, 2006

Oh Morrissey, so much to answer for...

Já passou quase uma semana. Já houve tempo para pensar e, especialmente, pela primeira vez, reouvir o concerto. Viva a Antena 3 e os piratas que ficam em casa e se dedicam a pôr aquilo na internet. É bom andar pela rua a ouvir o concerto de um dos nossos heróis pessoais que vimos dias antes e pensar "eu estive lá." Até porque é verdade. Eu estive lá, a escassos metros do palco, a ver aquela figura que tanto fascínio exerce sobre mim há anos e anos.
E ver essa figura ir-se embora, do nada, a meio de "Panic", foi um duro golpe no estômago. Foi-o para toda a gente que fosse fã dele. É impossível não ficar impressionado e decepcionado e triste com aquilo. Mas ele faz o que quer. Nós, que o conhecemos melhor que ninguém, sabemos melhor que ninguém que ele não é nem nunca foi boa pessoa. Aliás, deve ser um dos seres humanos mais detestáveis do mundo inteiro. Talvez por achar que a raça humana é, no seu todo, detestável e não ter esperança nas pessoas. Nós, os fãs, não somos assim. E eu odeio fãs de bandas, fãs de artistas, mas desculpo isto. Bem, não desculpo Is It Really So Strange?, o documentário assustador que vi no IndieLisboa sobre os fãs dos Smiths e do Morrissey. Não, não são fãs como nós. São pessoas doentias, que mais do que saberem todas as letras do maior poeta pop de sempre, sabem onde ele mora, fazem tatuagens de autógrafos dele, guardam como melhores dias das suas vidas os dias em que o viram, em que ele lhes tocou. E ele não sabe sequer quem eles são. Não quer saber deles. Alimenta-se deles. Mas aqui é que está a estranheza: ele dá-lhes muito mais do que quer dar. Ele, não querendo saber deles, ajuda-os. E da melhor forma, através da música. Pediu-nos, aos fãs, uma vez: "But don't forget the songs / That made you cry / And the songs that saved your life." E todos nos lembrámos. E foram as dele que fizeram isso.
É estranho, quando nos entregamos totalmente a um concerto e esperamos que ele cante isto ou aquilo. Ele fá-lo todas as noites, ou frequentemente. Escolhe o que quiser, e é interessante como, através do seu livre-arbítrio, ele consegue condicionar-nos. Podia estar antes do concerto a comer uma sandes de tofu a pensar "hoje não toco nada do The Queen is Dead porque não me apetece." E não tocou. Para quem esperava que isso acontecesse, foi triste. Mas há coisas bem piores. Vimos todos o nosso herói, nós, os fãs, algumas das pessoas mais irritantes do mundo. E ele faz de nós o que quiser. O que quiser. E o pior é que nós gostamos disso.

sábado, agosto 12, 2006

UM

Chegou às FNACs na quinta-feira a edição 0,5 do UM, um novo jornal de música, basicamente, mas que quer também fazer-se de outras coisas. Sou colaborador do mesmo, e esta edição, que também estará disponível em Paredes de Coura ("ao pontapé", dizem os responsáveis), tem um texto meu sobre o Return to Cookie Mountain dos TV On The Radio, disco que eu nunca escondi ser um dos meus favoritos do ano. Mais informações no blog do patrão, no blog do colega e no blog do futuro colega.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Let's not kid ourselves

É estranho, mas compreensível nesta era, ter um disco há 7 meses ainda dentro do plástico. Comprei, durante os saldos da AnAnAnA, quando me sobraram 12,5 €, o último disco dos Silver Jews. Obviamente, tinha-o em mp3, mas, como não tenho um gira-discos em casa, não o abri até hoje. De férias, tenho gira-discos, mas um que anda um pouco depressa de mais. Mesmo assim, deu para me lembrar o quanto gosto do disco.
Não conheço outros discos dos Silver Jews, e sei que o Dave Berman deve ser uma pessoa horrível. O que me chamou a atenção para ele foram, como costuma ser muitas vezes, os textos do João Bonifácio sobre o disco. Ele conhece-o e tudo e não me lembro de alguma vez ter falado com ele sobre isso, mas o Dave Berman deve ser uma pessoa mesmo difícil. Lembro-me também que, antes de ler o Last Plane to Jakarta, o melhor blog de sempre, o que me chamou a atenção para o génio do John Darnielle e dos Mountain Goats foram os textos do Bonifácio, que é basicamente uma coisa que me tem acompanhado neste verão ("Get Lonely" é das canções do ano e o recém-descoberto falsete do Darnielle é uma coisa deliciosa, quase tão deliciosa quanto os textos dele e as entrevistas - uma ao Tom Breihan em que ele falava de banda-desenhada, de metal e do Scarface era genial, é interessante ver como ele é o protótipo do indie-rocker em 2006 e é um fã confesso de hip-hop e metal, o que só mostra como o mundo mudou). É estranho, o Dave Berman é um poeta, acima de tudo, mas escreve óptimas canções com melodias e guitarras perfeitas que ficam na cabeça. Não me lembro, sinceramente, de gostar assim tanto do disco, tirando as frases ocasionais, como "If it ever gets really really bad / let's not kid ourselves: it gets really really bad" ou "Fast cars, fine ass / these things will pass."
O tipo tem uma barba e bebe muito álcool e outras drogas e deve ser uma pessoa deprimente e difícil de aturar. Mas faz música tão bonita. É difícil ficar chateado com ele quando diz que o Adão e Eva eram judeus. Mas nem tudo é bom. Os bootlegs que apareceram aí dos Silver Jews ao vivo - primeiros concertos de sempre - são sofríveis. Mas ele há-de chegar lá. E, com esperança, cá.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Arthur Lee

Aconteceu-me a mesma coisa quando o John Peel morreu. No dia em que se descobriu que tinha morrido, estava a explicar ao meu irmão quem ele era. "Não sabes quem é o John Peel?" E, pouco depois, ele tinha morrido. Hoje, não faço ideia porquê, quando acordei quis ouvir o Forever Changes dos Love. Alguma vez o teria ouvido pela primeira vez se não tivesse lido que era um grande disco? Não me parece, não é propriamente de um género que me atraia muito, mas graças a listas e listas dos melhores discos de sempre, conheci-o.
E hoje ouvi o Forever Changes. E pensava na personalidade maior-do-que-a-vida de Arthur Lee, da entrevista que ele deu ao Blitz há dois anos ou três anos, em que provava estar completamente louco. Mas não interessa. Há umas semanas, invejava o Robert Christgau, por ter feito 60 anos e ter passado o mês de Junho a ver concertos. Um deles era um tributo aos Love com imensa gente interessante, incluíndo os Yo La Tengo. Lembro-me de pensar que gostava de ser assim quando fosse grande. Mas o Christgau vive em Nova Iorque, esteve lá em quase todas as maiores revoluções musicais daquela cidade dos últimos 30-40 anos, aposto que tratava os seguranças do CBGB pelo nome próprio, etc. Era um artigo bestial, e tinha há pouco tempo comprado a reedição de 2001 do Forever Changes por um preço estupidamente barato. E hoje ouvi o disco.
Não posso dizer que conheça mais discos dele, mas não me lembro de não gostar daquele disco. Agora descobri que ele morreu, no dia em que me apeteceu, não sei por que raio, tirar o disco da caixa e ouvi-lo. É um dia triste.

domingo, julho 30, 2006

TV On The Radio

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi (com atenção) "Wolf Like Me", do último álbum dos TV On The Radio. Tinha gostado, na altura do Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, moderadamente do disco e do Young Liars que veio antes. Com o tempo, veio a crescer. Antes era só "Ambulance", que cedo se tornou umas das minhas canções favoritas de sempre. Nessa noite, estava eu no Incógnito, nem sei bem porquê (tinha ido ao Lounge ver um amigo meu tocar e só tinha chegado no fim e não queria desperdiçar uma viagem de táxi só para ver o final de um amigo meu a tocar), e a DJ passou (disse que era para mim), o tema. Não pensei muito nisso, pareceu-me só mais ou menos, só depois é que veio a revelar-se como uma malha enorme, que mete a um canto quaisquer revivalistas do rock. Como basicamente todas as canções dos TV On The Radio, é uma canção simples, com algumas partes diferentes, mas com uma produção que dá a volta a isso tudo (e a parte final de "We're howlin' forever ooh-ooh", com a tipa dos Celebration, é deliciosa). Ainda não tinha ouvido o Return to Cookie Mountain que, pouco mais de um mês depois, já se tinha tornado num dos meus discos favoritos do ano. Mas ainda não cheguei aí.
Essa foi uma boa noite. Apresentaram-me alguém importante nessa noite (na verdade, reaparesentaram-ma, já a tinha conhecido antes). Foi bom. E hei sempre de associar os TV On The Radio a isso, não só por essa pessoa também ser fã e partilhar comigo o fascínio por "A Method", que se tornou, rapidamente, uma das minhas canções favoritas de sempre. O meu pai está sempre a chatear-me porque, para ele, os Wilco do A Ghost is Born são os Beatles e os TV On The Radio dessa canção, quase só a cappella e percussão (uma progressão de "Ambulance", do disco anterior, outra das minhas canções favoritas, uma das melhores canções de todo o sempre), com um assobio delicioso são os Beach Boys. O meu pai é assim. Para ele, os Pavement são "genéricos". Gosto muito dele, mas pronto. E depois tento provar que não, que os TV On The Radio não são os Beach Boys, mas logo que começa a música ele diz "preciso de dizer alguma coisa?" e assim. São coisas da vida.
Os TV On The Radio são enormes porque soam enormes, épicos, deviam ser muito maiores do que realmente são. Mas soam como se fossem, e, no final de contas, deve ser isso que mais interessa. É música urbana e sofisticada, mas sempre com uma produção que remete para a decadência da sociedade industrial, para o encontrar beleza dentro de um cenário pós-apocalíptico, de encontrar magia num mundo de betão e assim. Claro, David Andrew Sitek é um produtor talentoso e perfeccionista, mas há sempre ali qualquer coisa de selvagem e completamente fodida (tradução do inglês "fucked-up", que não quer dizer a mesma coisa). Os TV On The Radio são a melhor banda de pós-punk da actualidade, por muitas razões, sendo a maior delas não quererem soar ao que soavam as bandas de pós-punk canónicas. E isso é muito mais do que posso dizer de muitas outras bandas de hoje em dia. Têm um dos meus discos do ano, duas das minhas canções de sempre, e uma pessoa de quem gosto muito. E isso chega-me. E, mesmo que passe a vida a implicar com aquilo, valeu a pena ir ao Incógnito naquela noite.

domingo, julho 23, 2006

De alguma forma, sem fazer sentido

De alguma forma voltava ontem do Lisboa Soundz e, numa avenida 24 de Julho cheia de carros, ouvia o Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco. Não sei quando é que se tornou o meu disco favorito de sempre, mas tornou-se. De alguma forma andava por aquela avenida absolutamente impossível, cheia até mais não, e procurava um táxi. E o Jeff Tweedy cantava. Como cantou dezenas e dezenas de vezes. Acho que, desde 2002, quando um 10/10 da Pitchfork me fez dar atenção ao disco, nunca o abandonei, apesar de julgar só o ter compreendido realmente a partir de 2004. Lembro-me, por exemplo, de ouvi-lo em jantares de amigos onde não tinha propriamente nada para dizer, como as canções soam tão melhores assim, à espera de boleia para voltar para casa. Ou num campo de futebol manhoso no inverno (quando anoitece às 6 da tarde ou pouco antes) numa terreola do Oeste que me é querida.
Nunca fui a Chicago, mas, sei lá, se calhar o disco tem alguma coisa a ver com isso. Ou pode mesmo não ter, sei que imagino sempre uma cidade grande quando ouço isto ou duas das minhas canções favoritas do Summerteeth: "How to Fight Loneliness" e "Via Chicago". Não tenho carta de condução, nem sequer sei conduzir, mas de alguma forma imagino alguém a guiar pelo estado do Illinois com aquilo. E, de alguma forma, aquilo faz tanto sentido aqui em Portugal, em Lisboa.
Acho, de alguma forma, o 'Sno Angel Like You do Howe Gelb é dos meus discos do ano. Comprei-o há uns meses, sem ter ouvido antes, e adoro-o. Nunca fui fã de Giant Sand e acho que a culpa do meu amor pelo disco é do coro gospel que o Gelb desencantou em Ottawa. De alguma forma conseguiram pôr o Howe Gelb a abrir praticamente o Lisboa Soundz, e trazer com ele o coro gospel. The Voices of Praise Gospel Choir. Ali, à tarde, com o sol a bater, fez, de alguma forma, tanto sentido. Ele trazia uma camisa preta e um chapéu e deve ser o homem com mais pinta de sempre. Quando for grande gostava de ser assim.
A voz dele é sempre igual, monótona, mas de alguma forma funciona tão bem ao lado do coro gospel. Isso e a sua guitarra dá uma cor especial a tudo, bem como a dos músicos convidados (todos de Ottawa, acho eu). É um tipo carismático, as canções são enormes, e ele sabe como interpretá-las e mostrar o que elas valem. Diz piadas, comunica, etc.
Lembro-me, de alguma forma, de ter gostado de Amorino em 2003. Mas lembro-me que o disco da Isobel Campbell deste ano é uma chatice pegada. Também o foi o concerto dela. De alguma forma, diziam-me - pessoas cuja opinião eu prezo muito, mesmo - que os Los Hermanos são bons. Juntam mpb e indie rock e fazem-no às vezes bem, outras menos bem. Gosto bastante ao vivo, é simpático e tal, mas não me parece que vá pegar muitas vezes neles ou que tenham muita coisa memorável. Contudo, respeito muito essas pessoas e vou tentar mais vezes. Pareceu-me bem, sinceramente.
E continuar com o "de alguma forma" torna-se tão cansativo para mim quanto para quem me ler, por isso não vou fazê-lo. Até é uma coisa bem chata, acho eu, como é a auto-consciência disso e o discutir um texto dentro do próprio texto. Mas é como sai e não há nada a fazer. Não vou dedicar muito tempo aos She Wants Revenge e os Dirty Pretty Things, porque isto costuma ser sobre as coisas de que gosto e não sobre as coisas que odeio intensamente (os DPT são sem o "Intensamente", os SWR são, basicamente, um novo ódio de estimação).
Algures entre os Dirty Pretty Things e os Strokes encontrei um alcoolizado Howe Gelb a passear pelo recinto. Achei por bem dizer-lhe que tinha adorado o concerto e o disco e que o coro funcionava mesmo bem. "Oh yeah, they're amazing", dizia-me ele, parecendo estar tão impressionado com o coro quanto eu.
E então ia eu pela rua à procura de um táxi ao som do meu disco favorito de sempre e a pensar basicamente no que se segue. Há uns 4/5 anos, quando descobri Is This It?, não conhecia nenhuma das pessoas com quem partilhei, de uma forma ou de outra, o dia de ontem. E algumas dessas pessoas são das minhas pessoas favoritas de todo o sempre, gente que espero conhecer e continuar a estimar ao longo da minha vida toda. De alguma forma sei que nunca me fartarei dessas pessoas, como sei que nunca me fartarei do Yankee Hotel Foxtrot. E, enquanto os Strokes tocavam da mesma forma que tocam praticamente todas as noites - suponho eu - aquelas canções, tinha pensado exactamente no mesmo. Claro que as canções do segundo e do terceiro disco não são tão boas, apenas duas, três ou quatro é que chegam aos calcanhares delas, ao vivo. Mas os Strokes conseguem soar como se fossem a maior banda do mundo, durante uma hora e tal, uma hora e meia, será? Não sei. Sei que foram a banda que, de alguma forma, me fez gostar primeiro da Christina Aguilera (os mash-ups geniais, cujo nome, "A Stroke of Genius", diz tudo) e que me deram imenso. São enormes, mesmo que se armem demasiado em guitar heros que não são no último disco, ainda valem a pena.
E pensava nisto à procura de um táxi e depois quando apanhei o táxi e tive de falar com o taxista (os taxistas tanto podem ser as melhores como as piores pessoas do mundo, ontem tive sorte) sobre os perigos da estrada e as pessoas que bebiam e não bebiam e todas essas coisas. Tirei um dos headphones e, de um lado ouvia "Radio Cure", e, do outro, "Crazy Little Thing Called Love" dos Queen no rádio do carro. E, lá no meio, a voz do taxista. E, de alguma forma, fazia sentido.

sábado, julho 15, 2006

Just keep on struttin'

Para o Rui.

No outro dia fui ao lançamento do disco de Double D Force à Flur. Tarde bem passada, com D-Mars nos pratos (lembro-me, por exemplo, do Kurtis Blow e dos Whispers), à beira-rio (o Tejo é tão bonito ali daquele sítio). Pedi ao Rui Miguel Abreu que me recomendasse um disco, porque estava com 10 € no bolso e não concebo uma ida a uma loja de discos sem comprar nada (hoje comprei o Roots do Curtis Mayfield). Procurou e procurou e deu-me para a mão um disco dos Meters e um do David Axelrod. Estava numa de Meters e trouxe os Meters. E ele pediu-me um relatório completo. E aqui vai.
Como não sou grande conhecedor da obra deles, pensava, através de um artigo que li na MOJO de um mês qualquer deste ano, que eram apenas uma banda de funk instrumental. Para isso também ajudou o loop do "1-Thing" da Amerie, a guitarra mais perfeita de sempre e um dos melhores usos de samples de que há memória, numa das melhores malhas deste milénio, uma daquelas canções enormes às quais é impossível fugir. Mas aqui há canções e quase-canções. Chamo "quase-canções" a coisas como "Struttin'" ou "The Handclapping Song", que, respectivamente, têm vozes a imitar galinhas entre palavras de ordem como "Just keep on struttin'" e "Clap your hands now". Esta "Handclapping Song" deu-me aquele prazer que há sempre quando se descobre inadvertidamente um sample usado numa canção qualquer de hip-hop. Era, obviamente, "Clap Your Hands" dos A Tribe Called Quest, do Midnight Marauders. É das coisas de que mais gosto nessa cultura do sampling, a forma como se recontextualiza certas coisas, se parte do antigo para criar o novo, mesmo que não se modifique assim tanto o antigo (e aqui modifica-se), só uma recontextualização traz tudo. Exemplos disso são, por exemplo, "Eye Know" dos De La Soul, uma das minhas canções favoritas de sempre, ou "The Light" do Common, em que o Jay Dee corta e edita uma canção do Bobby Caldwell e cria algo de novo, mesmo que o Common não estivesse lá e só existisse o refrão e a base instrumental que foi limpa e à qual foi adicionada um sintetizador e outros pormenores interessantíssimos. Esse exemplo é paradigmático do criar algo novo do antigo, como retirar de uma canção um verso e torná-lo um refrão, recontextualizá-la para dizer algo de novo.
Mas não é isso que interessa. Os Meters eram uma banda de topo, óptimos músicos, cheios de funk cru e puro e duro, mesmo que não fossem propriamente os melhores escritores de canções de sempre. Passei a "Handclapping Song" na sexta-feira passada no LEFT e não há nada melhor que tentar acompanhar aquelas palminhas, aquele riff de guitarra, e aquelas vozes. Por pouco menos de 10 €, numa tarde solarenga de sexta-feira, à beira-rio, uma lição de história divertida. Ou talvez nada disto faça sentido, mas devia isto ao Rui.

Parvoíces sem sentido sobre Neutral Milk Hotel com a caneta sem tinta e sem editor de imagens

Baseado em factos verídicos

quarta-feira, julho 12, 2006

Inglaterra

Em 19 anos de vida, nunca vi um concerto fora de Portugal. Vi, uma vez, num jardim em Cambridge, os Counterfeit Stones, uma banda de versões dos Stones que, pelos vistos, é muito boa, já que apareceu no Biography Channel ou no Odisseia num documentário sobre os originais. Portugal só vai receber os Rolling Clones, o que é uma pena. Ou então não é pena nenhuma e ainda bem que só recebe uns deles. Porque não há qualquer propósito em haver bandas de versões de bandas que ainda por cima ainda existem.
Mas queria ter ido a um concerto. Li, num ou dois sites, que o Tony Allen ia tocar a um clube em Brixton quando eu estava em Londres. Mas não deu para o apanhar, porque não fazia ideia de onde era o clube. Perguntei a todos os seguranças de discotecas que vi, e nenhum deles tinha sequer ouvido falar daquilo. É bom ver que os seguranças de discotecas são as pessoas mais simpáticas do mundo quando não queremos entrar nelas. Apanhei, contudo, um espectáculo bem diferente.
Milhares de putos com ténis Vans axadrezados saíam da Brixton Academy, vindos de um concerto dos Lostprophets. Eu, que vi os Lostprophets há uns anos numa Deconstruction Tour, tive uma vontade estranha e semi-incontrolável (apesar de tudo, não cheguei a fazê-lo) de gritar que os Lostprophets eram horríveis e me aborreceram de morte quando os vi há uns anos. Havia umas 20 ou 30 t-shirts diferentes deles, todas compradas na própria noite por milhares de putos felizes por terem ido ver a sua banda favorita. Há que dizer que os Lostprophets agora são iguaizinhos aos My Chemical Romance, aos Fall Out Boy ou aos AFI de agora, e estão na frente da revolução emo para quem nunca ouviu Embrace, Rites of Spring, nem sequer Sunny Day Real Estate ou Get Up Kids. E foi este escalão sub-16 que transformou aquilo que era para meia dúzia de alienados e pessoas diferentes em algo tremendamente mainstream. Até bullies com wife-beaters e raparigas giras de peitos avantajados havia, a encher o metro com roupa preta e assim. Ou seja, estes não são os putos que levam porrada, são os putos que dão porrada. É uma mudança radical, mas foi o que aconteceu.
Mas, horas antes, aconteceu uma coisa estranha. Eu, que nunca dei nada pelos Yeah Yeah Yeahs, dei por mim a gostar deles. Não sei porquê, talvez tenha visto o Fever to Tell em promoção, ou assim, fiquei com o refrão de “Maps” na cabeça. E aquilo irritava-me antes, agora não me irrita, de todo, e fiquei com uma vontade tão incontrolável de ouvir aquilo que comprei o raio do disco, se bem que dois dias depois. Deu também para comprar meia dúzia de livros, inclusivamente o Can’t Stop Won’t Stop do Jeff Chang que já comecei a ler (ou melhor, só li mais ou menos a introdução do Kool Herc), e dois da colecção 33 1/3, sobre o In The Aeroplane Over The Sea dos Neutral Milk Hotel (que já li, de tão pequeno que é) e o Meat is Murder dos Smiths (escrito pelo Joe Pernice dos Pernice Brothers).
Pareceu-me uma colecção interessante, mesmo que demasiado bajulatória para os discos em questão. Nenhum disco é perfeito, ou é? Todos os meus discos favoritos têm coisas das quais não gosto. Por exemplo, acho que o Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco ganharia ainda mais se não tivesse a secção de metais no final do “I’m The Man Who Loves You”, acho que o The Queen is Dead dos Smiths ganharia muito mais se tivesse cordas a sério e não sintetizadas, se não tivesse aquele final parvo do “Vicar in a Tutu”, como quem não quer acabar aquilo e se não tivesse aquela voz do Morrissey com o pitch mudado no refrão de “Bigmouth Strikes Again”. Curiosamente, não me lembro de nada de que não goste no In The Aeroplane Over the Sea, mas pronto. É bom saber como o disco foi feito e produzido, e como é que o Jeff Mangum passou de génio a recluso, mas sem querer seguir o Syd Barrett (que, entretanto, morreu e eu não sabia), mas sim o Robert Wyatt, na parte de voltar 10 anos depois. Ora, 2007 está aí ao virar da esquina, e a melhor pior voz de sempre podia bem voltar.
Perdi o Tony Allen, ganhei os putos emo, os livros, os discos, as casas sempre iguais no campo inglês, aqueles tijolos cor-de-laranja que eu aprendi a não odiar e a achar extremamente confortáveis e, especialmente, o sorriso da minha bisavó que, aos 97 anos, ainda é a melhor pessoa de todo o sempre.

quarta-feira, junho 21, 2006

Desilusão do ano

O meu coração está dividido. Por um lado, gostei mesmo dos últimos discos dos Belle & Sebastian. Dos últimos dois, mesmo o novo sem a magia do Trevor Horn. Já o tinha dito por aqui. Tinha mesmo vontade de vê-los ao vivo, o Tom Breihan diz que são óptimos ao vivo e se tornaram realmente bons a tocar aquelas canções do disco, com bons instrumentistas e profissionais qb. Mas o Tom Breihan vive em Nova Iorque, uma cidade em que tudo se passa todas as semanas, e onde não se põe o problema que agora enfrento e que dá a volta à minha jovem cabeça.
Longe vão os tempos em que Lisboa era uma "Ghost Town", como os Specials tão eloquentemente disseram nos anos 80. Para dizer a verdade, nunca os vivi. Comecei a ir a concertos regularmente e por vontade própria aos 13 anos. Desde essa idade, e já vão seis anos, nunca me pude queixar muito de bandas que não vinham cá. Agora ainda menos. Claro que não estamos em Nova Iorque, nem sequer em Londres ou em Barcelona, mas as coisas vão acontecendo com mais ou menos atrasos. Nem sequer vou falar das vozes que se apressaram a tratar o concerto dos Arcade Fire em Paredes de Coura como algo que aconteceu imediatamente em Portugal, dentro do tempo e tal, quando Funeral, quer se queira, quer não, saiu em 2004 e não em 2005 e toda a histeria gerada à volta dele em blogs de mp3 e em webzines e na imprensa americana aconteceu em 2004. Ignorar isso é ignorar que ninguém espera pelas datas de edição europeia, e ignorar a imprensa estrangeira e, basicamente, ser muito cego e viver num casulo. Mas em Nova Iorque não há problemas se o Kanye West e os Belle & Sebastian derem um concerto na mesma noite. Provavelmente há um novo concerto duas semanas depois e ninguém se chateia.
Os Belle & Sebastian já vieram cá há uns anos ao Sudoeste, mas ninguém me convidou para ir e convidaram o meu irmão. Nunca mais o perdoei, ainda por cima nem teve de acampar e aposto que dormiu normalmente, ao contrário de mim no ano passado. Ele viu-os, mas na altura Dear Catastrophe Waitress e o funk choninhas ainda não eram uma realidade. Agora já são uma realidade ultrapassada e eu estava mesmo excitado por vê-los. Mas na Mojo portuguesa, a revista Blitz, que lida maioritariamente com artigos de fundo e música do passado (ou pelo menos de protagonistas do passado, esta primeira capa tem os Rolling Stones), e que está muito bem conseguida desse ponto de vista, veio a notícia: Kanye West vem a Portugal no dia 17 de Julho.
Kanye West nunca esteve cá, não vende assim tantos discos em Portugal, mas algo me diz que esgotará o sítio (onde quer que seja) onde actuará. Mesmo que duas experiências me digam o contrário (a minha primeira prestação como DJ alcoolizado num parque de estacionamento subterrâneo ao pé da antiga FIL na minha gala de finalistas, em 2004, onde "Slow Jamz" foi recebido como se fosse um tema dos Wolf Eyes ou assim, com total desprezo das pessoas; o mesmo tema, dois anos depois, no carnaval, para meia dúzia de tipas que lá foram jantar a casa que, até essa altura, não se queixaram de nenhuma das produções dos Neptunes, da Missy Elliott, nem da M.I.A.), o que me leva a pensar que os adolescentes de classe média mainstream portugueses ignoram totalmente a pura diversão que é esse single (aquelas frases sobre o Michael Jackson são clássicos modernos). Mas não ignoram a obra-prima e o enorme banger gospel que é "Jesus Walks". E é em Oeiras ou em Sintra, Cascais é ali ao lado, por isso não deve haver problema nenhum em encher aquilo.
Há três hipóteses que me levarão aos Belle & Sebastian: a data do Kanye West estar errada, o Kanye West actuar muito mais tarde ou os bilhetes para o Kanye West esgotarem e eu não conseguir arranjá-los. Mas, provavelmente, as miúdas giras e tímidas com ganchinhos nos cabelos e óculos de massa terão de esperar. Isso e a música dos Belle & Sebastian, que também interessa um bocado, mas não tanto. Mesmo adorando ambos, algo me diz que o Kanye West se tornou num dos maiores artistas da actualidade, a julgar pelo Late Orchestration que eu só vi uma vez ao longe numa loja mas me pareceu muito bem. É triste, mas são coisas que acontecem, e é saudável podermo-nos dar ao luxo de ter coisas tristes destas em Lisboa em 2006.

sábado, junho 17, 2006

Cat Power

Muito tem sido dito por causa da forma como Chan Marshall deixou de ser aquela louca maníaco-depressiva sensível drogada, etc. que tanto podia escrever as canções mais bonitas do mundo quanto parar a meio de uma canção ao vivo e começar a chorar ou a contar histórias sem piada. Não vou dizer muito sobre isso, até porque não a vi no Festival do Porto há três anos e, especialmente, porque as palavras não conseguem descrever isto:



Ela dança e canta com uma voz belíssima no David Letterman, até faz a dança da galinha, está descalça, tem bling-bling ao pescoço, não sei mesmo o que dizer. Não sou pessoa de deixar aqui vídeos, mas não há outra maneira de falar disto. Ah, sim, e a capa do The Greatest, não sendo feia, impede-me de comprar o disco porque aquele cor-de-rosa me deixa enjoado (e isto não é uma piada).